Especialista detalha o que difere um acontecimento do outro; material que vazou de estrutura da Vale atingiu mineradora vizinha, CSN
O incidente registrado na madrugada deste domingo (25) na Mina da Fábrica, da Vale, localizada entre Congonhas e Ouro Preto, na região Central de Minas Gerais, foi classificado pela mineradora como um "extravasamento de água com sedimentos de uma cava". A lama que vazou da estrutura inundou estruturas pertencentes à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e teria atingido o córrego Goiabeiras.
O professor do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) e da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), Carlos Barreira Martinez, explicou o que diferencia um extravasamento de um rompimento.
"O extravasamento pode ser explicado assim: quando você tem um balde, ou um tanque, e vai colocando água, se ele se enche totalmente, essa água extravasa. Em uma cava, ou um dique, ocorre mais ou menos a mesma coisa. Já no caso do rompimento, a estrutura passa por algum processo de erosão interna, ou até mesmo de galgamento (transposição repentina), que leva ao processo de ruptura dessa estrutura. São coisas diferentes entre si", detalha o especialista.
O processo é semelhante ao ocorrido em 2022, quando houve um transbordamento de um dique na Mina Pau Branco, da Vallourec, que fez com que um mar de lama invadisse a BR-040 e chegasse a arrastar veículos. Apesar do ocorrido, a estrutura de contenção da mineradora resistiu aos impactos do extravasamento e não se rompeu.
Perguntado se o extravasamento pode causar um rompimento, o professor explica que, quando a água transpõe alguma estrutura de contenção, ela pode sofrer desgastes. "Mas não é o que me parece que tenha acontecido neste caso. Acredito que trata-se de um evento causado pela chuva intensa. Mas, de toda forma, essa água que extravasa carrega um monte de material. Entretanto, é diferente de um rompimento, que é um evento mais catastrófico", complementa Barreira.
O que diz a Defesa Civil?
Horas após o registro do extravasamento, já na noite deste domingo, a Defesa Civil de Minas Gerais emitiu uma nota assinada em conjunto com o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar (PM) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad). No texto, o órgão do governo de Minas não detalhou o que teria ocorrido, citando apenas uma "ocorrência envolvendo uma estrutura na área de atuação da empresa Vale".
"As equipes irão permanecer no local até que todos os esclarecimentos sejam prestados para conferência do que motivou tal episódio, bem como possíveis impactos ambientais, humanos e demais. Reforçando seu compromisso com a transparência, o Governo de Minas seguirá informando imprensa e cidadãos tão logo tenha mais detalhes sobre o fato", concluiu a Defesa Civil estadual.
O incidente
Segundo apurado pela reportagem de O TEMPO, a estrutura da Vale que transbordou está localizada às margens da BR-040, acima de comunidades como Motas (Ouro Preto), Campos Altos, Campo das Flores e Mineirinho. Além disso, o município de Congonhas também está em risco devido ao possível transbordamento em cadeia do rio Goiabeiras.
“O encontro do Goiabeiras com o rio Maranhão fica ao lado da rodoviária de Congonhas. Ainda não sabemos a magnitude do ocorrido, mas estamos todos em alerta, especialmente porque o rio já estava bastante cheio nos últimos dias, quase transbordando”, alerta um morador da cidade e ex-funcionário da Vale, que falou em anonimato.
Por nota, a mineradora Vale informou que o incidente foi um "extravasamento de água com sedimentos de uma cava da mina de Fábrica, em Ouro Preto". Segundo a empresa, o fluxo atingiu algumas áreas de uma empresa, sendo que pessoas e comunidades não foram afetadas.
"Como é praxe nessas situações, a Vale já comunicou os órgãos competentes e prioriza a proteção das pessoas, comunidades e meio ambiente. As causas do extravasamento de água estão sendo apuradas. A Vale reforça que o ocorrido não tem qualquer relação com as barragens da empresa na região, que seguem sem alterações nas suas condições de estabilidade e segurança e monitoradas 24 horas por dia, 7 dias por semana", concluiu.
Procurada, a CSN informou por nota que o incidente na mina da Vale causou um "alagamento de áreas na unidade Pires, em Ouro Preto, de propriedade da CSN Mineração". Entre as estruturas da mineradora que foram atingidas estão o almoxarifado, acessos internos, oficinas mecânicas, área de embarque, "entre outras áreas e atividades". Entretanto, nenhuma barragem ou dique teria sido atingido.
"Importante ressaltar que todas as estruturas de contenção de sedimentos da CSN Mineração estão operando normalmente. A CSN Mineração informa que, desde o primeiro momento, acompanha a situação de forma permanente e que as autoridades competentes já foram comunicadas", completou.
Fonte: O Tempo.