CRISE NO CAMPO

Crise no agro leva cinco cidades de MG a decretarem emergência econômica

São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba, Serra do Salitre e Patrocínio apontam alta dos custos, juros, perdas climáticas e queda nos preços; produção de alho acumula prejuízo de até R$ 71,5 mil por hectare

Publicado em 18/09/2026 às 09:45
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Cinco municípios do Alto Paranaíba, em Minas Gerais, decretaram situação de emergência econômica no setor agropecuário diante da pressão financeira enfrentada pelos produtores rurais. São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba, Serra do Salitre e Patrocínio adotaram medidas semelhantes entre agosto e setembro deste ano.

Os decretos citam uma combinação de fatores que vem comprometendo a atividade no campo, como aumento dos custos de produção, juros elevados, dificuldade de acesso ao crédito, perdas provocadas por eventos climáticos, redução das margens de lucro e queda nos preços de produtos agrícolas. Em algumas cadeias, a concorrência das importações também aparece entre os problemas apontados.

As medidas têm validade de 180 dias, conforme os decretos, e podem servir como documentação de apoio para produtores que busquem renegociar ou alongar dívidas. No entanto, o reconhecimento da emergência não suspende automaticamente parcelas, não perdoa dívidas e não obriga bancos ou fornecedores a aceitar renegociações.

Cinco municípios reconhecem a crise

O movimento começou em agosto, quando São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba e Serra do Salitre reconheceram oficialmente as dificuldades enfrentadas pelo setor agropecuário.

Em São Gotardo, o Decreto nº 263/2026 alcança diversas atividades, incluindo soja, milho, feijão, trigo, sorgo, alho, cebola, batata, cenoura, outras hortaliças e as pecuárias leiteira e de corte. O município destacou o aumento dos custos, a redução das margens, as dificuldades de comercialização, perdas acumuladas e o crescimento do endividamento rural.

Rio Paranaíba também reconheceu a emergência econômica no setor. O decreto municipal cita reflexos da crise sobre o comércio, os serviços, os empregos e a arrecadação, além de dificuldades relacionadas ao crédito rural.

Em Serra do Salitre, a medida abrange culturas como café, soja, milho, feijão, trigo, sorgo, alho, cebola, batata e cenoura, além da pecuária. O município também menciona impactos de eventos climáticos anteriores e a redução das margens dos produtores.

Patrocínio foi o quinto município a adotar a medida, em 17 de setembro. O Decreto nº 4.937 reconhece o comprometimento econômico-financeiro das atividades rurais e considera fatores como intempéries climáticas, custos elevados e juros do crédito rural.

Prejuízo com alho chega a R$ 71,5 mil por hectare

Entre as atividades mais afetadas está a produção de alho, especialmente em São Gotardo e Ibiá.

Dados citados nos documentos municipais apontam que o custo de produção chegou a aproximadamente R$ 13,30 por quilo em São Gotardo e R$ 16,30 em Ibiá, enquanto o preço médio recebido pelo produtor ficou em torno de R$ 11 por quilo.

A diferença entre o custo para produzir e o valor recebido pelo agricultor resultou em prejuízos estimados de aproximadamente R$ 70 mil por hectare em São Gotardo e R$ 71,5 mil por hectare em Ibiá.

Em Ibiá, somente a cadeia do alho representa um prejuízo potencial estimado em R$ 7,15 milhões, segundo os levantamentos citados no decreto.

A cultura tem forte peso econômico na região e se tornou um dos exemplos mais evidentes da pressão enfrentada pelos produtores.

Quais são os principais problemas?

Os decretos dos municípios apontam diferentes fatores para explicar o agravamento da situação financeira no campo.

Entre os principais estão:

  • aumento dos custos de produção;
  • juros elevados;
  • dificuldade de acesso ao crédito rural;
  • perdas provocadas por eventos climáticos;
  • queda nos preços dos produtos;
  • redução das margens de lucro;
  • dificuldades de comercialização;
  • aumento do endividamento;
  • concorrência das importações em determinadas cadeias.

A crise também atinge diferentes atividades, incluindo café, alho, batata, cebola, cenoura, soja, milho e pecuária, dependendo do município.

O que muda para o produtor?

A declaração de emergência econômica pode ajudar a documentar a situação enfrentada pelos produtores em pedidos de prorrogação, alongamento ou renegociação de dívidas rurais.

Entre as operações que podem ser analisadas estão créditos rurais, Cédulas de Produto Rural (CPRs), operações de barter, contratos de fornecimento de insumos e outras obrigações relacionadas à atividade agropecuária.

Cada caso, porém, precisa ser analisado individualmente. O decreto municipal não garante automaticamente a renegociação ou a suspensão de uma dívida. A aprovação depende das características do contrato, da documentação apresentada e das regras aplicáveis à operação.

Emergência econômica não é calamidade

Apesar do termo “emergência”, os decretos têm natureza econômica e setorial. A medida não equivale automaticamente à decretação de emergência ou calamidade pública para fins de Defesa Civil.

Também não significa isenção automática de impostos, suspensão geral de cobranças ou uso de recursos públicos para quitar dívidas particulares.

O objetivo é reconhecer oficialmente a situação enfrentada pelo setor e criar uma base documental para a articulação de medidas de apoio e para eventuais negociações.

Crise afeta toda a economia regional

O impacto da crise ultrapassa as propriedades rurais. O agronegócio tem participação importante na economia dos municípios do Alto Paranaíba e movimenta setores como comércio, transporte, serviços e fornecimento de insumos.

Por isso, a redução da renda dos produtores pode provocar reflexos na geração de empregos e na arrecadação municipal.

Com os cinco decretos, São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba, Serra do Salitre e Patrocínio passam a reconhecer formalmente a pressão financeira enfrentada pelo campo e buscam ampliar as possibilidades de negociação e apoio aos produtores.

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