GERAL

Designer russa relata momentos de medo e incerteza causados pela guerra na Ucrânia

Bruno Campos
Publicado em 27/03/2022 às 23:18Atualizado em 18/12/2022 às 23:24
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Recém completado o primeiro mês da invasão russa às terras ucranianas, o medo e a incerteza quanto ao futuro têm sido os fiéis companheiros de civis que sofrem com a guerra em ambos os países. É o que afirma, em entrevista exclusiva ao Jornal da Manhã, uma designer russa que preferiu manter a identidade preservada.

A vítima da guerra conta o quão difícil têm sido os dias de tensão. Noites de insônia, dúvidas sobre o futuro, medo por ela e por seus familiares, imposições governamentais, dualidade de informações, risco iminente de uma Terceira Guerra Mundial noticiado toda vez que se liga a televisão. Esta tem sido a realidade dos cidadãos envolvidos na disputa russa e ucraniana.

"It's so hard to be in this situation right now. I couldn't sleep yesterday, I usually got up earlier in the morning. I'm afraid of the unknown. They are actively talking about the third world war in the News. Our government actively prohibits going out into the streets, they take people away with an empty piece of paper in their hands. They say and show one thing on TV, and they write another on Telegram", relata a mulher.

"É tão difícil estar nessa situação agora. Eu não consegui dormir ontem, costumo me levantar muito cedo de manhã. Tenho medo do desconhecido. Eles estão falando ativamente sobre a Terceira Guerra Mundial nos jornais. Nosso governo proíbe ativamente de sairmos para as ruas, eles tiram as pessoas com um pedaço vazio de papel em suas mãos. Eles dizem e mostram uma coisa na TV, e eles escrevem outra no Telegram".

Segundo a entrevistada, o desespero tem sido tamanho que, figuras emblemáticas do cenário russo, como jornalistas e cantores, têm deixado o país, ou ao menos tentado. Ela conta que muitos acabam enfrentando reclusões devido a tentativa de escapar de um cenário atroz.

"Many famous people, journalists, singers, actresses left. Left because they do not support the war and face up to 15 years in prison", conta.

"Muitas pessoas famosas, jornalistas, cantores, atrizes saíram [do país]. Saíram porque não suportam a guerra e enfrentam até 15 anos de prisão".

ECONOMIA

As sanções enfrentadas pela Rússia, por parte dos países ocidentais, têm gerado fortes impactos negativos na vida dos cidadãos russos. Uma economia quebrada, aumento no preço dos produtos e o medo de, talvez, não conseguir colocar comida à mesa são componentes de um cenário de terror vivido no leste europeu.

“Our economy has fallen terribly. The dollar is growing and prices inside us have also begun to rise. Sanctions have devastated the market. That [this]* week I was hoping that the country would pull through, but now I have no emotional strength at all, like many people in Russia”, explica.

“Nossa economia está caindo terrivelmente. O dólar está subindo e os preços internos também começaram a subir. Sanções têm devastado o mercado. Essa semana eu estava esperançosa que o país sobrevivesse, mas agora não tenho nenhuma força emocional, como muitas pessoas na Rússia”.

CENSURA

Não suficiente toda a situação enfrentada pelos cidadãos que se veem em meio ao fogo cruzado entre os dois países europeus, a entrevistada conta que outro fator tem colaborado para o sentimento de pânico dentro do território russ a censura. Segundo ela, redes sociais têm sido vigiadas pelo governo, como é o caso do Instagram e, para maior segurança, usuários têm usado conexões privadas de internet para conseguirem se comunicar por meio da rede social. Uns vigiados, outros proibidos. Serviços como o Google News estão bloqueados no país, uma vez que o governo o considera um “disseminador de fake news sobre a guerra”. 

“I'm afraid to send you the news that we write, Instagram is considered extremist in Russia, and now it only works through VPN, it's like an iron curtain”, conta.

“Eu estou com medo de te enviar as novidades que estamos escrevendo. O Instagram é considerado extremista na Rússia e agora só funciona através de VPN (rede de internet privada), é como se fosse uma cortina de ferro”.

DESEMPREGO E VIOLÊNCIA

Empregada em uma companhia de distribuição, a entrevistada conta que por enquanto ela ainda recebe seu salário, mas teme pelos próximos dias. A incerteza sobre continuar em sua função em meio a tantas pessoas perdendo suas ocupações gera nela a ansiedade sobre o que está por vir. Mãe, a mulher conta que seu maior medo é em relação a não conseguir trazer comida à mesa para seu filho. Milhares de pessoas não só perderam seus empregos como também se afundaram em dívidas com bancos e outras instituições financeiras a fim de garantirem sua sobrevivência.

“I work as a designer in a distributor company. The company supplies cosmetics and household chemicals from Europe and while I got paid. But what will happen next month? I can't imagine it at all. I have a son, and how to feed him? A lot of people in Russia have already lost their jobs, and they have large debts to the bank for real estate. It seems to me that there are already more than a million without work”, elucida.

“Trabalho como designer em uma distribuidora. A empresa fornece cosméticos e produtos químicos domésticos da Europa e por enquanto eu estou sendo paga. Mas o que vai acontecer no próximo mês? Eu não consigo imaginar de jeito nenhum. Eu tenho um filho, como vou alimentá-lo? Muitas pessoas na Rússia já perderam seus empregos e têm grandes dívidas com o banco por imóveis. Me parece que já há mais de um milhão de desempregados.

A luta pela sobrevivência tem levado muitos russos a optarem pelo caminho da criminalidade a fim de garantir a sua sobrevivência e a dos seus. Segundo conta a entrevistada, o medo de assaltos tem sido tão recorrente, que leva a população a tomar medidas drásticas em relação a sua própria segurança.

“I'm afraid of robberies. Yesterday I ordered a stun gun!”, relata.

“Tenho medo de assaltos. Ontem eu encomendei uma arma de choque!”

LAMENTO

Por fim, a russa conta que, apesar de ser nascida no país precursor de todo o terror vivido atualmente, ela lamenta muito por toda a população ucraniana. População esta que lhe é bem palpitante afetivamente, uma vez que seu pai é casado com uma médica ucraniana.

“I feel terribly sorry for the people in Ukraine. My dad managed to leave there on the very first day, but his wife is a doctor, she works there”, aponta a entrevista.

“Eu sinto muito pela população na Ucrânia. Meu pai conseguiu sair de lá no primeiro dia, mas a esposa dele é médica, ela trabalha lá”. 

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