RISCOS

Dia Mundial da Obesidade traz alerta sobre moda das canetas emagrecedoras

Especialista alerta que tratamentos que prometem resultados milagrosos podem gerar quadros graves, e também avalia a influência negativa das redes sociais

Raphael Vidigal Aroeira/O Tempo
Publicado em 02/03/2026 às 11:22
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Desenvolvidas originalmente para o tratamento da diabetes tipo 2 e quadros de obesidade, as famosas canetas emagrecedoras viraram uma febre que tem colocado em risco a saúde de muitas pessoas, deturpando o sentido original de sua concepção.

De acordo com uma pesquisa recente da USP, o uso dessas substâncias – também chamadas de agonistas de GLP-1 – por pacientes sem o diagnóstico de doença metabólica, vem apresentando um crescimento alarmante. O tema se torna ainda mais urgente com a proximidade do Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, e criado justamente para conscientizar a população sobre os riscos do excesso de peso. 

Nos últimos tempos, a medicação tem saído dos consultórios médicos e aparecido com frequência nos vídeos de dancinha das redes sociais, onde a perda de peso é vendida como troféu de disciplina, ignorando totalmente os riscos de longo prazo e a falta de evidências científicas para quem não tem indicação clínica.

Na prática, as canetas emagrecedoras imitam hormônios que controlam o apetite e a saciedade. Para quem tem obesidade, é uma ferramenta de saúde plausível. Mas, para quem quer apenas perder “aqueles dois quilinhos” por mera vaidade, o cenário é de incerteza: náuseas, vômitos, dependência emocional do fármaco e o terrível medo de recuperar todo o peso assim que a caneta acabar. 

O médico endocrinologista e metabologista Rafael Fantin, especialista em medicina do exercício e esporte, alerta que quando esse tratamento é buscado por motivo puramente estético, em pessoas que precisam perder pouco peso, aparecem preocupações importantes.

“A primeira é que, como muitas vezes não há indicação formal, a forma de aquisição tende a ser mais duvidosa, com risco de contaminação, falsificação e até de a pessoa não estar usando, de fato, o que consta na embalagem. Teoricamente, quando se utiliza o medicamento original, ele tende a ser relativamente seguro, já que essas substâncias são testadas em pacientes com doenças crônicas, como obesidade e diabetes, e parte desses dados pode ser extrapolada para indivíduos saudáveis, principalmente em relação ao perfil de efeitos adversos”, afirma.  

Cuidados

O médico, porém, informa que sem a prescrição de um profissional habilitado e sem o uso correto, outras condições de saúde podem surgir ou piorar, como transtornos alimentares (anorexia e bulimia), deficiências nutricionais (macro e micronutrientes), perda de massa muscular e alterações endócrino-metabólicas por baixo peso, além de um possível efeito rebote por desregulação metabólica após o uso de algo que não era necessário.

“Como tudo na vida, há um lado positivo e um negativo. No tratamento do emagrecimento, temos o benefício da perda de peso, mas também possíveis riscos e efeitos colaterais. Com medicações análogas de GLP-1 e similares, o uso deve ser feito com acompanhamento médico por diversos motivos”, reforça Fantin, que enumera alguns deles. 

“O primeiro é que a medicação, por vias endócrino-metabólicas, estimula o emagrecimento, mas não corrige, sozinha, os fatores bioquímicos, fisiológicos e comportamentais que levaram ao ganho de peso. Com isso, pode se tornar um tratamento apenas temporário e com maior chance de efeito rebote. Além disso, antes de iniciar qualquer tratamento, é necessária uma avaliação para investigar se há uma causa patológica do ganho de peso e se o paciente está apto para um processo de emagrecimento. Sabemos que o excesso de peso pode se associar a inflamação, resistência à insulina, deficiências de múltiplos micronutrientes e alterações hormonais que dificultam o emagrecimento, como o excesso de insulina e alterações na produção de hormônios sexuais”, detalha. 

Perdas e ganhos

O especialista salienta que para que o tratamento tenha sucesso e o resultado seja prolongado, é essencial estar atento a alguns pontos. “O corpo tem uma capacidade máxima de perda de gordura por dia. Quando a perda de peso acontece rápido demais, tende a haver mais desidratação e catabolismo muscular. O corpo passa a usar o músculo como fonte de energia, seja porque não consegue mobilizar gordura na velocidade necessária, seja porque reduz um tecido que é metabolicamente ativo e consome energia. Para preservar a massa muscular durante o tratamento, é fundamental ter uma alimentação adequada, com boa distribuição de proteína ao longo do dia, e estímulo de força para manutenção de massa magra”, orienta. 

Para ilustrar sua tese, Fantin compara o músculo a uma empresa em déficit. “Se os funcionários ficam sem trabalho, são demitidos, mas, se são os funcionários que sustentam a empresa, eles precisam ser mantidos. No emagrecimento, quando se perde massa muscular, o gasto energético fica menor, inclusive durante a atividade física. Aí, quando a pessoa volta a comer como antes, aumenta a chance de entrar em superávit calórico e ganhar gordura. E se o emagrecimento foi muito acelerado com perda de músculo, os mecanismos de defesa do corpo contra a perda de peso tendem a ser ainda mais fortes, aumentando a chance de reganho”, explica. 

Segundo ele, o ganho de peso após interromper qualquer medicação para emagrecimento é muito comum quando não se corrigem os fatores que levaram ao quadro. “Durante o emagrecimento, o corpo aciona mecanismos de defesa endócrino-metabólicos que, evolutivamente, nos protegem. Passamos a absorver e armazenar mais, gastar menos calorias, o que aumenta a fome, reduz a saciedade, e surgem mais desejos por alimentos palatáveis. Na prática, o organismo tende a defender o peso anterior, que ele ‘entende’ como mais seguro. Se a perda de peso ocorreu sem mudança real de estilo de vida, o corpo interpreta como algo forçado e tenta recuperar o peso”, sublinha. 

Riscos

Fantin observa que o uso de canetas emagrecedoras é contraindicado em pessoas com história pessoal ou familiar de duas condições raras: carcinoma medular da tireoide e neoplasia endócrina múltipla. “Também não é indicado para quem já teve alergia à medicação. O uso exige muita cautela em pacientes com história de pancreatite ou risco aumentado de pancreatite e não deve ser utilizado durante a gravidez e a lactação”, pondera. Ele relembra que houve um grande aumento da compra de medicações de origem duvidosa para emagrecimento. 

“Farmácias de manipulação fazem parte da prática médica há muitos anos e permitem individualização do tratamento, inclusive com dosagens diferentes das disponíveis na indústria. O ponto central é que a escolha da farmácia precisa ser criteriosa e, em geral, deve passar pela clínica e pelo médico que acompanham o paciente, com checagem de documentação, rastreabilidade e evidências de procedência adequada do produto”. Já no caso de canetas falsificadas ou de procedência desconhecida, o risco é grave. 

“Pode haver contaminação, concentração errada ou até uma substância totalmente diferente. E isso cria um problema adicional, porque nem o paciente nem o médico conseguem ter segurança sobre o que foi realmente aplicado e como manejar eventuais efeitos adversos. Hoje o cenário está tão crítico que já se vê a venda, no mercado paralelo, de supostos produtos que nem foram lançados pela indústria, o que, por definição, indica que aquilo não pode ser o medicamento anunciado”, avisa. 

Influência das redes sociais

Para o médico endocrinologista Rafael Fantin, o Dia Mundial da Obesidade é uma oportunidade de ouro para refletir sobre as soluções mágicas que algumas propagandas das tais “canetas emagrecedoras” costumam oferecer.

“Tudo que promete muito costuma cumprir pouco, e no mercado fitness e de emagrecimento isso é quase uma regra. A caneta pode ser uma ferramenta, mas não pode virar uma muleta. Para tratar de verdade o excesso de peso, é preciso ir além do número na balança. Investigar e tratar as causas que levaram ao ganho de peso. A medicação pode potencializar o resultado, mas o real tratamento envolve diagnóstico e manejo de múltiplos fatores, com correções bioquímicas e fisiológicas, além de mudanças de comportamento e estilo de vida”, avalia. 

“Quando essas medicações são usadas apenas para emagrecer, sem esse cuidado de base, o resultado tende a ser curto e frustrante. Muitas pessoas já repetiram esse ciclo com outras estratégias no passado, e isso pode deixar uma ‘cicatriz metabólica’, em que cada vez fica mais difícil perder peso e manter o resultado”, complementa o especialista, que não tem dúvidas sobre a influência nefasta das redes sociais nesse cenário.

“As redes sociais estão influenciando muito porque vendem o resultado e escondem o processo. É o ‘antes e depois’, a comparação, a ideia de atalho e a promessa de emagrecer rápido, como se fosse algo simples e até estético. Isso faz a pessoa tratar uma medicação de doença crônica como se fosse cosmético. O antídoto é voltar o assunto para o lugar certo: educação e orientação. Explicar de forma clara que a caneta é uma ferramenta dentro de um tratamento, não solução mágica”, finaliza. 

Fonte: O Tempo.

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