
Efeito da crise no Oriente pode afestar preços dos combustíveis (Foto/MARIELA GUIMARAES / O TEMPO)
O ataque deste sábado (28/02) dos Estados Unidos, em aliança com Israel, ao Irã pode ter reflexos na economia brasileira nos próximos dias de duas formas principais: no preço dos combustíveis e na desvalorização do real. O alerta é do economista da Fundação Ipead, Paulo Casaca.
Segundo ele, ainda é cedo para uma análise profunda dos efeitos, visto que não se tem a dimensão exata dos desdobramentos geopolíticos da ação. No entanto, um primeiro impacto esperado é a alta do petróleo e, consequentemente, dos preços dos combustíveis, já que o Irã é responsável por quase 5% da oferta mundial.
“Como se trata de uma região grande produtora de petróleo, onde estão as principais bacias do mundo, com certeza esse ataque fará com que o preço internacional do barril suba a partir de segunda-feira (02/03)”, avalia o economista.
Casaca pontua que, com a subida do preço internacional, a Petrobras não conseguiria conter o valor internamente por muito tempo, o que levaria a reajustes. Ou seja, a gasolina pode ficar mais cara.
Outro impacto previsto é a desvalorização do real. Quando ocorre um movimento desses, gera-se uma situação de incerteza e investidores correm para moedas mais fortes, fugindo de moedas de países emergentes. Então, mesmo com os Estados Unidos à frente desse ataque, o dólar deve se fortalecer e, por consequência, o real deve se desvalorizar”, completa.
Esses dois fatores — combustíveis e câmbio — pressionam o índice inflacionário no Brasil. O combustível caro encarece o transporte e a logística, afetando uma cadeia gigante de distribuição de mercadorias. Já o dólar alto impacta os custos de produção, insumos industriais importados e produtos estrangeiros que entram no país.
“Outros efeitos futuros, cujas consequências ainda precisaremos entender, dizem respeito aos mercados financeiros globais e às bolsas. Podemos ter também impactos no comércio exterior e no fluxo comercial do Brasil com o Oriente Médio. Não somos grandes parceiros individuais de Israel ou do Irã, mas somos do Oriente Médio como um todo”, explica. “O espaço aéreo na região foi fechado, o que certamente gerará impactos comerciais nesse sentido”, finaliza.
Estreito de Hormuz e fluxo da commodity
Um conflito prolongado no Irã, que foi atacado neste sábado (28) pelos Estados Unidos e Israel, pode levar à alta nos preços da commodity pelo mundo, pressionando a inflação global. Isso porque os iranianos controlam parte do estreito de Hormuz, que fica localizado entre o país e Omã, por onde é escoado um quinto da produção mundial. “Por lá, passam aproximadamente 20% da produção mundial de petróleo, que é estimada aproximadamente em 80 milhões a 90 milhões de barris por dia. Isto causaria um aumento do preço do petróleo e teria um efeito sobre as cadeias de produção mundiais”, informa Mário Oliveira Filho, especialista em infraestrutura e energia e ex- CEO de multinacionais europeias de infraestrutura (SUEZ/ENGIE),
O presidente do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis), Roberto Ardenghy acredita que o Brasil pode até se beneficiar disso. Segundo ele, boa parte do petróleo é vendida por países como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Irã, Kuwait e Iraque à Ásia, em especial para a China. E se houver restrições ao fluxo da commodity ou até um fechamento do estreito, afirma, pode ampliar o mercado asiático para as vendas de petróleo do Brasil e de outros países da América Latina. No ano passado, o Brasil exportou US$ 44,5 bilhões (R$ 228 bilhões) da commodity, o equivalente a 12,8% de todas as vendas a outros países.
"Nos últimos dois anos, o principal produto exportado pelo Brasil foi o petróleo. Portanto, se o conflito se consolidar por um período maior, o Brasil e outros países, como a Argentina e a Guiana, podem se tornar alternativas ao petróleo do Oriente Médio", diz.
Ele aponta que o Brasil já é um grande exportador para a Ásia, em especial para a China. "Esse mercado pode se abrir mais se o conflito se prolongar." Para Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), o aumento nos preços do petróleo -a cotação ultrapassou US$ 70 o barril na semana passada em meio à tensão entre Irã e EUA-- pode beneficiar as exportações brasileiras.
"Dependendo de como a guerra continuar, a commodity vai subir. Mas só ultrapassa os US$ 100 se o estreito for fechado", avalia. De acordo com o especialista, mesmo que a passagem não seja interrompida, as cotações dos fretes sobem pelo risco aumentado de travessia pelo estreito.
"Para o mundo, se o conflito se prolongar, é um cenário ruim. Petróleo caro é inflação e juros subindo, o que retarda o crescimento global", diz Pires. "Para o Brasil, que é um grande exportador de petróleo, pode ser bom. Para a Petrobras, dependerá de o governo deixar repassar a alta para os preços dos combustíveis em um ano eleitoral."
Ele pondera que o cenário atual no mercado de petróleo é de sobreoferta, o que ajuda a amortecer o impacto do conflito. "É uma situação diferente da guerra entre Rússia e Ucrânia, quando o momento era de pouca oferta de petróleo."
Bruno Cordeiro, especialista em inteligência de mercado da consultoria StoneX, afirma que o fechamento do estreito de Hormuz é improvável, mas que se isso acontecer os preços subirão "de forma acelerada". (Com Maeli Prado/Folhapress)
Fonte/O Tempo