Em Uberaba, apenas cinco das 22 escolas participantes tiveram rendimento médio acima de 60%
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou recentemente as notas por escola da edição do ano passado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem/2014). São 15.640 instituições no Brasil. Em Uberaba, apenas cinco das 22 escolas participantes tiveram rendimento médio acima de 60%. JM Online entrevistou a superintende regional de Ensino, Marilda Ribeiro Resende (PMDB). Ela sempre esteve à frente na representação dos professores e assumiu o cargo de direção do Ensino da região em fevereiro. À reportagem, a superintendente faz um balanço do Enem, além de posicionar as diretrizes para esta gestão.
Marilda Ribeiro Resende assumiu a Superintendência Regional de Ensino em fevereiro deste ano e vê boas perspectivas para a educação pública
Jornal da Manhã - No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), entre as 20 melhores escolas do país, 15 estão no Sudeste; em Minas, são quatro instituições privadas e uma federal. O que falta para as escolas públicas melhorarem seu desempenho?
Marilda Ribeiro - Acredito que os profissionais que estão nas escolas estaduais são excelentes. A gente percebe que nas escolas onde o nível socioeconômico é maior, há maior permanência, porque existem pais que os sustentam na escola. Quase sempre o aluno não tem que trabalhar em outro período e ele tem acompanhamento diário dentro de casa dos pais e até mesmo de um professor auxiliar em casa. É necessário colocar isso como indicador e fazer uma análise do valor socioeconômico dos jovens da rede pública. Os estudantes da rede pública também têm a mesma capacidade de qualquer outro jovem, mas existem as dificuldades diárias, no sentido de menos oportunidades, e chances dentro dos instrumentos que, às vezes, o outro aluno, da escola privada, tem. Mesmo assim, a gente percebe que as nossas escolas públicas estão sendo, sim, bem avaliadas.
JM - O que precisa mudar de forma mais urgente para melhorar os índices?
MR - Avalio que a rede pública, o sistema de ensino e a política estabelecida pela Secretaria de Estado de Educação têm tido uma postura, que foi iniciada este ano, com a qual nós colheremos frutos futuros. Por exemplo, tivemos recentemente o que chamamos de Jemg (Jogos Escolares de Minas Gerais), que são os jogos estaduais, com orçamento da Secretaria de Estado de Educação e a Secretaria de Estado de Esporte. Esta verba foi destinada para que o nosso aluno, ao invés de estar na rua, estivesse na prática de um esporte que vai aprimorá-lo, para que ele possa se inserir na realidade escolar.
JM - Como a superintendência prepara as escolas e os alunos para a próxima edição do Enem, a ser realizada em outubro?
MR - Na primeira quinzena de agosto nós tivemos reuniões com os diretores das escolas estaduais, quando várias diretrizes traçadas pela Secretaria de Educação foram colocadas para os gestores. Estamos construindo em conjunto de ações com os diretores e profissionais da Educação a fim de se estabelecer uma política educacional para os quatro anos de mandato do nosso governador e da Secretaria de Educação. É exatamente para irmos aprimorando cada vez mais. Pensamos na educação construída em várias mãos, inclusive com a própria sociedade.
JM - Existe uma insatisfação muito grande da categoria em relação ao salário e às condições de trabalho, inclusive com relato de alguns professores de que a atenção do governo está mais voltada aos alunos do que à classe... Essa informação procede?
MR - Houve um avanço no governo do [governador] Fernando Pimentel (PT) em termos de negociação com a nossa categoria, que resultou num acordo com os sindicatos representativos, descongelando a carreira que estava fixada há 12 anos. Foi instituído o piso nacional de salários, em R$1.917,78, inclusive proporcionando a nomeação de 15 mil concursados. O compromisso do governo é nomear 1.500 profissionais por mês, tendo uma média de 15 mil por ano, chegando ao final dos quatro anos de mandato com um total de 60 mil. Esse profissional foi muito desvalorizado no passado, mas, à medida que o governo atual assumiu, em 1º de janeiro de 2015, já houve, sim, uma mudança, inclusive na conversa com a própria categoria.
JM - Como a senhora administra as cobranças, uma vez que sempre defendeu com unhas e dentes os educadores e agora está do outro lado, o da gestão?
MR - Continuo defendendo-os da mesma forma. Só aceitei um cargo na Superintendência Regional de Ensino porque entendo que este governo terá práticas diferenciadas no trato com o profissional da Educação. Caso contrário, não teria assumido. Já percebi de início que isso tem sido demonstrado pela nossa secretária da Educação, Macaé [Maria Evaristo dos Santos], como também pelo governador Fernando Pimentel, com muito respeito e não com autoritarismo, mas com construção por meio do diálogo.
JM - No momento não há greve, mas há uma paralisação da categoria na superintendência... Quais as consequências de uma possível greve dos professores?
MR - A educação é uma construção também da sociedade. Os professores não estão em greve, eles fizeram um acordo com o governo. Porque o governo os atendeu e fez um acordo que vai colocar em prática. Temos que pensar que o governo mudou. Tanto mudou que a primeira coisa que fez foi instituir o que o professor mais queria, que foi nossa luta: o piso nacional de salários, que estava congelado. Ou melhor, não estava congelado. O piso estava maquiado por meio do que foi chamado de subsídio, para realmente maquiar que estavam pagando piso. O que o atual governo fez realmente foi mandar para a Assembleia Legislativa um projeto de lei que retomou o salário-base, sem maquiagem alguma, apontando que vai fazer as correções devidas do piso nacional de salário.
JM - Quais os impactos da sua gestão à frente da Superintendência de Ensino?
MR - Assim que assumi a superintendência, fiz um diagnóstico das nossas necessidades em termos de ensino e de rede física, para que pudéssemos fazer e aplicar imediatamente um planejamento e avançar no sentido de políticas mais coerentes com a nossa realidade. Uma das ações já implementadas, com orientação da Secretaria de Estado de Educação, é o que chamamos da Virada da Educação. Já foi promovida, em um primeiro momento, a apropriação dos dados da avaliação externa, tanto pela comunidade escolar quanto pela comunidade externa. Em um segundo momento realizaremos mais uma Virada da Educação. Desta vez será uma roda de conversa, em que chamaremos os alunos/adolescentes, entre 15 e 17 anos, para que os problemas que encontram dentro da escola, ou mesmo do lado de fora, sejam colocados nessa conversa. Num terceiro momento, realizaremos o que chamamos de fechamento, em 19 de setembro, porque nesta data comemoramos o dia em que o educador Paulo Freire nasceu. Faremos um encontro com todos os representantes da sociedade civil para que a gente pense na educação como um bem da sociedade. Sabemos perfeitamente que se a educação vai bem, todos os outros setores irão bem também.
JM - Quais as ações direcionadas aos jovens?
MR - Neste mês teremos uma roda de conversa com a Regional de Ensino de Patrocínio, quando jovens de 15 a 17 anos virão a Uberaba. A escolha dessa faixa etária é de acordo com o levantamento que fizemos no Estado. Constatamos que esse jovem precisa ser trazido para a escola, para que ele possa ter oportunidade de se inserir na sociedade. No governo anterior nós tivemos uma política, que chamo até de exclusão, porque não permitia que esse aluno, que trabalha durante o dia, pudesse estudar à noite, que é uma realidade nacional. Nós estamos chamando esses jovens para conversar, para que a gente possa pontuar políticas voltadas para trazê-los à escola. Assim, nós teremos a oportunidade de reeducá-los e inseri-los na sociedade com mais compromisso, com mais responsabilidade, para que eles enxerguem um novo mundo.
JM - Qual a sua atual avaliação do ensino na rede estadual?
MR - Comparando com os dados recentes do Enem, posso dizer que as escolas estaduais de Uberaba estão em um patamar interessante no ranking de todos os estabelecimentos de ensino, inclusive da rede privada. É lógico que isso não serve para ficarmos parados. Com certeza, nós queremos aprimorar e, também, colocarmos para a sociedade a qualidade da escola pública da cidade de Uberaba.