
Possível queda nas exportações pode aumentar estoque no Brasil, barateando os preços nos açougues (Foto/Alexandre Mota/O TEMPO)
O combustível não é o único produto afetado pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. No caso do Brasil, o conflito também pode atrapalhar as exportações de carne, principalmente frango, para o Oriente Médio - um dos principais destinos para a proteína animal brasileira. Especialistas ouvidos pelo O TEMPO analisam o possível impacto nas exportações e se a carne pode ficar mais barata para os brasileiros - uma vez que boa parte dos produtos não será embarcada.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que o Oriente Médio recebeu US$ 3 bilhões de frango no ano passado, o equivalente a 34,8% das vendas brasileiras do produto no período. De acordo com Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Brasil embarca por mês cerca de 100 mil toneladas de frango halal (carne produzida e abatida segundo as normas da lei islâmica) ao Oriente Médio - principalmente Emirados Árabes Unidos, Oman e Iêmen.
Najad Khouri, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em Oriente Médio, explica que o conflito impactou diretamente o Estreito de Ormuz, canal marítimo no Oriente Médio por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e importante porta de entrada para produtos importados por países como Emirados Árabes, Arábia Saudita e Irã.
“O bloqueio dessa rota pode provocar mudanças profundas no comércio internacional, aumentando custos diretos e indiretos e atrasando entregas. Os custos diretos são taxas adicionais aos fretes e os custos indiretos são as taxas de ‘demurrage’ ou sobreestadia - taxa cobrada pelo dono do container quando o uso do equipamento ultrapassa o período combinado. Tudo isso encarece a operação e dificulta a exportação para lá”, detalha.
Conforme aumentam os riscos para se iniciar uma viagem por oceanos, cresce também para as companhias marítimas os custos com seguros e combustíveis. No início da crise, a CMA CGM, empresa francesa de transporte marítimo e conteinerização, informou a cobrança adicional de até US$ 4.000 por contêiner em alguns tipos de equipamento, refletindo o aumento do risco operacional e do custo de operação na região.
A carne de boi, item menos exportado para o Oriente Médio em comparação com o frango, também será afetada. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), em 2024 o Brasil exportou quase 133 mil toneladas de carne bovina para os Emirados Árabes, principal mercado no Oriente Médio. O volume representou um faturamento de quase US$ 605 milhões.
“Por causa da guerra, essas exportações podem enfrentar quedas de 30% a 40% devido aos riscos logísticos ocasionados pela escala dos conflitos na região”, aponta Khouri.
Carne vai ficar mais barata no Brasil?
Com custos mais elevados e riscos mais altos relacionados à exportação, um dos possíveis cenários é que haja mais carne de boi e de frango disponíveis no mercado brasileiro, o que aumentaria a oferta e diminuiria os preços para o consumidor interno. É o que defende o professor Khouri.
“A menor saída para o exterior pode aumentar a oferta interna de carne bovina e de frango no Brasil, pressionando os preços para baixo. O impacto já está sendo observado no comportamento das indústrias frigoríficas brasileiras, que passaram a reduzir o ritmo de compras no mercado de boi gordo”, afirma.
Na contramão dessa análise, Paulo Vicente, professor de estratégia da Fundação Dom Cabral (FDC), afirma que o cenário de conflito no Oriente Médio não necessariamente irá reduzir o preço da carne no Brasil.
“No curto prazo, é difícil encontrar mercados substitutos que absorvam esse volume imediatamente, o que poderia reduzir o preço do frango. Entretanto, com a elevação do preço do diesel e a consequente tendência do frete interno encarecer, é pouco provável que essa queda chegue ao consumidor final”, aponta.
Vale lembrar que a Petrobras anunciou o aumento de R$ 0,38 por litro no preço do diesel vendido em suas refinarias. A medida passou a valer no dia 14 deste mês. Em Belo Horizonte e região metropolitana, o diesel S10 subiu 11,09% em duas semanas. De acordo com levantamento do Mercado Mineiro, o valor médio subiu de R$ 6,04 para R$ 6,71, um acréscimo de R$ 0,67 por litro.
Setor privado cobra medidas
A guerra no Oriente Médio levou alguns dos principais setores do país a pedir medidas emergenciais do governo para conter os impactos econômicos e logísticos que já geram problemas em diferentes cadeias.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi procurado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) para detalhar os impactos nos setores e apresentar uma lista de pedidos. A associação pede a criação ou ampliação de linhas de crédito emergenciais para capital de giro, além do alongamento de prazos e flexibilização de financiamentos.
"Estima-se que essas alterações possam aumentar o tempo de viagem entre dez e 15 dias, além de elevar custos operacionais relacionados a frete, seguros, sobretaxas de risco e gestão de contêineres refrigerados", afirma Ricardo Santin, presidente da APBA, em carta enviada a Haddad.
Fonte: O Tempo