Um estudo do Instituto Sou da Paz revela que, nos últimos dez anos, o governo federal destinou aproximadamente meio bilhão de reais do orçamento da saúde para custear internações de vítimas de violência armada. A pesquisa, divulgada no mês passado, analisa dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) sobre gastos com medicação, cirurgias e atendimento de pessoas que sobrevivem a ferimentos por armas de fogo.
Somente em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou quase 17 mil internações desse tipo, gerando um custo de R$ 42,3 milhões aos cofres da União. Segundo Cristina Neme, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz, esses valores referem-se estritamente aos repasses federais, não contabilizando gastos adicionais de estados e municípios.
O levantamento aponta que a maioria das internações é motivada por agressões intencionais provocadas por terceiros, embora também existam registros de acidentes e lesões autoprovocadas. O perfil das vítimas de internação assemelha-se ao das vítimas de homicídio:
Neme ressalta que o custo hospitalar de um ferimento por arma de fogo é significativamente superior ao de lesões por força corporal ou arma branca. "Um ferimento [por arma de fogo] exige procedimentos mais complexos, como neurocirurgias, que são mais caros devido à gravidade da lesão", explica a coordenadora.
Veja abaixo o gasto total com internações nos últimos dez anos:
Com o valor gasto em 2024, poderiam ser realizados:
Tendências e subnotificação
Embora o país tenha registrado uma redução nas internações desde o pico ocorrido entre 2016 e 2017, seguindo a tendência de queda nos homicídios no Brasil, os números permanecem expressivos. O estudo alerta, no entanto, que os dados de internação mostram apenas uma parte do problema. A taxa de homicídios por arma de fogo no Brasil é, em média, duas vezes maior que a taxa de internações, indicando que a maior parte das vítimas não chega a receber atendimento hospitalar por não sobreviver ao ferimento.
O gargalo
Conforme Neme, além do impacto financeiro direto, a violência armada compromete a qualidade do serviço de saúde universal. Em regiões metropolitanas, como o Rio de Janeiro, o funcionamento de postos e unidades de saúde é frequentemente interrompido por tiroteios, afetando tanto o acesso da população quanto a segurança dos profissionais. "Esse recurso público poderia estar sendo aplicado de outra forma, na prevenção ou na ampliação da rede de saúde da família nos territórios", defende.
A coordenadora ressalta ainda a necessidade de ampliar o debate sobre violência armada para além da segurança pública. Segundo ela, a violência é reconhecida pela área da saúde como um fator de risco com impacto direto sobre o acesso e a qualidade dos serviços. “A violência armada afeta o direito universal à saúde e agrava desigualdades, sobretudo nas áreas mais vulneráveis”, conclui.
Fonte: O Tempo.