Presidente brasileiro fez declaração em discurso na 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona, na Espanha
Lula discursa na 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)
BRASÍLIA – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar, neste sábado (18/4), a Organização das Nações Unidas (ONU) diante das guerras, em especial no Oriente Médio.
Em discurso na 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona, Lula fez fortes críticas ao Conselho de Segurança da ONU.
“Os cinco membros do Conselho de Segurança, os membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido), que quando se criou o Conselho de Segurança era para garantir a paz no mundo, após a Segunda Guerra Mundial, viraram os senhores da guerra”, afirmou.
“Esse tema que nós estamos discutindo aqui poderia estar sendo discutido nas Nações Unidas. E por que não está? Porque hoje as Nações Unidas não representam aquilo para o qual elas foram criadas”, emendou.
“É importante que a gente aprenda uma lição muito séria. A ONU é um instrumento muito valioso se ela funcionar e ela precisa funcionar para garantir, por exemplo, que as plataformas sejam reguladas no mundo inteiro”, completou Lula.
Sem citar nomes, o petista disse ainda que um chefe de Estado não pode usar as redes sociais para ameaçar o mundo. “Nós não podemos levantar todo dia de manhã e ir dormir todo dia e noite com um tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra”.
Mas Lula afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não pode excluir a África do Sul do G20.
“Vamos brigar, [Cyril] Ramaphosa, para você ir para o G20 nos Estados Unidos, porque o presidente americano não tem o direito de tirar você do G20, porque ele não é dono do G20. Então, se prepare para você ir aos Estados Unidos ficar lá na porta para entrar no G20”, disse.
Cyril Ramaphosa é o presidente da África do Sul. Em novembro, Donald Trump afirmou que não convidaria a África do Sul para o encontro do G20, marcado para dezembro deste ano, em Miami, na Flórida.
Sem apresentar provas, Trump disse que haveria um “genocídio” de fazendeiros brancos no país, qo que é negado pelo governo sul‑africano e organismos de defesa de direitos humanos de diferentes países.
Trump também boicotou a cúpula do G20 realizada na África do Sul em 2025 e anunciou a suspensão de subsídios norte-americanos ao país.
Premiê da Espanha reforça posição contra Trump
Também em discurso na 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que é necessário trabalhar para “proteger e fortalecer” a democracia.
A quarta edição do fórum, impulsionado em 2024 por Brasil e Espanha, coincide com uma reunião de líderes e simpatizantes da extrema direita europeia em Milão.
“O contexto é claro, a democracia não pode ser considerada como algo garantido. Vemos ataques ao sistema multilateral, uma tentativa após outra de contestar as regras do Direito Internacional e uma perigosa normalização do uso da força”, declarou Sánchez durante o discurso de abertura do evento.
“Não basta resistir, temos que propor”, acrescentou Sánchez, para quem também chegou o momento de que a ONU “seja renovada, reformada” e “dirigida por uma mulher”.
Além dele, de Lula e Ramaphosa, estavam presentes outros líderes internacionais, como o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e a presidente do México, Claudia Sheinbaum.
A mexicana faz sua primeira viagem ao continente europeu desde que assumiu o cargo em outubro de 2024. Sua presença também representa um novo passo no avanço das relações entre México e Espanha, que entraram em um período de tensão com a exigência mexicana de desculpas pela conquista espanhola das Américas.
Após os atritos diplomáticos recentes, os dois governos adotaram gestos de distensão nos últimos meses. O rei Felipe VI da Espanha reconheceu em março que houve abusos durante a conquista.
Durante o evento em Barcelona, a presidente mexicana fez uma defesa de seu país na qual não faltaram referências às relações históricas com a Espanha.
“Venho de um povo que reconhece sua origem nas grandes culturas originárias, aquelas que foram caladas, escravizadas e saqueadas, mas que nunca foram derrotadas, porque há memórias que não se conquistam e raízes que nunca se arrancam”, afirmou Sheinbaum.
Ela também anunciou que o México será a sede da próxima Reunião em Defesa da Democracia e propôs que a atual edição aprove “uma declaração contra a intervenção militar em Cuba”.
O encontro, promovido por dois líderes que se destacaram no cenário global por posicionamentos frequentemente contrários às políticas deDonald Trump, não quer ser considerado uma reunião anti-Trump, segundo o presidente da Colômbia, Gustavo Petro.
“É uma cúpula por uma alternativa no mundo, a favor, não contra. Trata-se de uma espécie de farol que, em meio à confusão, ao equívoco e à desordem global perigosa para toda a humanidade, traça uma linha, uma espécie de flecha que segue um rumo, o rumo da vida, não o rumo da morte”, afirmou antes da reunião.
O encontro coincide também com o fórum Global Progressive Mobilisation (GPM), uma reunião de forças de esquerda, movimentos sindicais e pensadores que acontece paralelamente em Barcelona.
Com as reuniões, o chefe de Governo espanhol reforça sua oposição a Trump, com quem polemizou pelos gastos militares e a guerra no Irã, e ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, alvo de suas duras críticas, primeiro pela guerra em Gaza e depois pelo conflito no Líbano.
Lula citou possível ‘intromissão’ estrangeira em ano eleitoral
Na sexta-feira (17/4), entrevista coletiva na Espanha, Lula disse que é necessário um maior controle das redes sociais para enfrentar uma série de crimes e até a interferência estrangeira. Ele falou em possível “intromissão de fora” em ano eleitoral.
“Temos que regular tudo o que é digital, para que a gente dê soberania ao nosso país, e não permita, inclusive, intromissão de fora, sobretudo em um ano eleitoral. Nós acompanhamos o que está acontecendo no mundo”, afirmou o presidente ao responder a perguntas de um jornalista, ao lado do de Pedro Sánchez.
Pouco antes, em uma declaração à imprensa, Lula falou em parcerias na área de tecnologia com a Espanha para o combate à violência de gênero e contra crianças e adolescentes. E, como já afirmou outras vezes, atacou as big techs.
“Sem regras, as big techs vão instituir a era do colonialismo digital. Nossos dados são extraídos, monetizados e usados para concentrar poder político e econômico nas mãos de um punhado de bilionários”, ressaltou.
O petista disse ainda que, “para garantir sua soberania digital, Brasil e Espanha estão investindo em capacidades próprias”. Ele falou de iniciativas dos governos dos dois países.
“A Espanha criou a primeira agência de supervisão da Inteligência Artificial da Europa, uma iniciativa que visa garantir o uso ético dessa ferramenta. O Brasil aprovou o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital”, citou.
No caso do chamado ECA Digital, ele lembrou que “as redes terão a obrigação de aferir a idade do usuário e modificar certas funcionalidades, como a rolagem infinita, para menores de idade”.
“O aumento da violência também está relacionado à propagação de discursos de ódio na internet. O mundo virtual se tornou um ambiente tóxico, que afeta a saúde mental dos nossos jovens”, concluiu Lula.
Lula tem compromissos em três países da Europa
Lula iniciou na sexta-feira uma série de compromissos oficiais na Europa, que começa pela Espanha. Depois ele segue para a Alemanha e Portugal, com agenda até a próxima terça-feira (21/4).
Lula desembarcou em Barcelona na noite de quinta (16/4) e foi recebido na sexta por Sánchez, em cerimônia oficial nos jardins do Palácio de Pedralbes. Depois eles seguiram para uma reunião restrita.
Ainda nesta sexta, Lula participou da 1ª Cúpula Brasil–Espanha, ao lado de Sánchez. O brasileiro também terá reunião com empresários de setores como agronegócio, energia, infraestrutura, telecomunicações e finanças.
A Espanha foi o quinto destino global das exportações brasileiras em 2025 e o segundo na União Europeia. A corrente de comércio bilateral foi de US$ 12,6 bilhões no ano passado. As exportações brasileiras somaram US$ 8,78 bilhões e as importações, US$ 3,82 bilhões, com superávit favorável ao Brasil em US$ 4,96 bilhões. Mais de mil empresas espanholas atuam em território brasileiro, com destaque para os setores financeiro, de comunicações e de energia. (Com AFP)
Fonte: O Tempo