Já em grave crise financeira, o banco público firmou contrato de R$ 58,3 milhões para determinados clientes acessarem sala VIP no terminal de Brasília

Sala VIP do aeroporto de Brasília: BRB firmou contrato de R$ 58,3 milhões, com vigência de três anos, para determinados clientes acessarem o espaço de forma gratuita (Foto: Divulgação/BRB Card)
BRASÍLIA – Entre tantos patrocínios do Banco de Brasília (BRB), um dos que mais chama atenção de investigadores é uma sala VIP no Aeroporto Internacional de Brasília. A instituição pública firmou contrato de R$ 58,3 milhões, com vigência de três anos, para determinados clientes do BRB Card acessarem o espaço de forma gratuita.
O acordo começou a valer em 1º de março último, quando já se sabia da grave crise financeira do BRB, decorrente do rombo causado por compra de papéis podres do Master. Negócio que é investigado pela Polícia Federal (PF). Estima-se que o banco público precisa de ao menos R$ 8 bilhões para cobrir os prejuízos.
Agora, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) quer explicações sobre o contrato para clientes do banco frequentarem a sala VIP. Do valor total, R$ 29,1 milhões serão repassados pelo BRB e R$ 29,1 milhões pela BRB Card. O banco tem até a próxima quarta-feira (22/4) para dar uma resposta.
O TCDF atendeu parcialmente um pedido do deputado distrital Ricardo Vale (PT). Ele queria a suspensão do contrato com a sala VIP e a abertura de uma auditoria para apurar outros contratos de patrocínio do BRB, desde 2019, incluindo o firmado com o Flamengo, renovado recentemente, com repasse de R$ 42,6 milhões até março de 2027.
No caso do patrocínio do Flamengo, Vale aponta mudanças no modelo do contrato, que deixa de priorizar a marca BRB para promover o banco digital Nação BRB Fla, além de mencionar exigências financeiras do clube carioca, como pagamento antecipado de parte dos valores. O BRB patrocina o Flamengo desde de 2020.
O relator do processo no TCDF, conselheiro Márcio Michel, alegou necessidade de mais informações antes de interromper o patrocínio com a sala VIP. O BRB e a BRB Card deverão apresentar documentos e informações com motivação, estudos de viabilidade, retorno institucional e compatibilidade da despesa com a situação financeira do banco.
O espaço tem acesso garantido a clientes do banco que têm um cartão específico e que atendem ao gasto mínimo estabelecido nas regras de acesso. A sala VIP é aberta 24 horas e fica na praça de alimentação do aeroporto. O terminal tem outras salas VIP, em diferentes pontos.
BRB aumentou em 14 vezes o gasto com patrocínios no governo Ibaneis
Nos mais de sete anos de Ibaneis Rocha (MDB) à frente do Governo do Direito Federal (2019-2026), o BRB aumentou em 14 vezes o gasto com eventos e outros apoios comerciais. Em 2025, reservou R$ 125,8 milhões de gastos para esta finalidade. Uma década atrás, quando o banco gastava anualmente R$ 1 milhão com patrocínios.
A guinada aconteceu a partir de 2019. No primeiro ano do governo Ibaneis, a despesa foi de R$ 7,2 milhões, depois a escalada acelerou. Grande parte do dinheiro gasto pelo BRB em patrocínio vai para o Flamengo, time de coração de Ibaneis.
Em 2020, o banco brasiliense fechou um contrato com o time carioca, a quem passou a dar R$ 32 milhões anuais. O caso foi parar no Tribunal de Contas do DF a pedido do Ministério Público, que questionou a regularidade do negócio. Um ano depois, Ibaneis adquiriu franquia de revenda de produtos do Flamengo.
Em 2021, Ibaneis comprou uma franquia da loja de produtos do time, a Nação Rubro-Negra, com três sócios, seus filhos, então com 2, 16 e 23 anos. A unidade fica no Brasília Shopping, perto do Estádio Nacional.
O governador, inclusive, tentou trazer para Brasília o jogo do Flamengo contra o Palmeiras, pela final da Taça Libertadores da América de 2025, em meio à onda de violência no país vizinho.
Em 2019, Ibaneis comandou a delegação do Flamengo em Guayaquil, no Equador, em partida contra o Emelec pela Libertadores. À época, ele embarcou na aeronave rubro-negra, com os dirigentes e atletas do clube.
Na condição de chefe da delegação do time carioca na cidade equatoriana, o governador entrou no gramado à frente da equipe, vestindo o uniforme rubro-negro. Uma semana depois, o BRB, firmou um patrocínio de R$ 2,5 milhões com o time de basquete do Flamengo.
No mesmo dia, o banco fechou um contrato de R$ 1,5 milhão com o Brasília, a equipe de basquete da capital federal, sede da instituição bancária e então único representante da cidade no NBB, o campeonato nacional da modalidade, também disputado pelo Flamengo.
Já em 2021, Ibaneis foi a Montevidéu, no Uruguai acompanhar a decisão contra o Palmeiras e ficou hospedado no hotel do time carioca. Dessa vez ele viajou em seu avião particular. A aeronave partiu de Brasília, passou no Rio de Janeiro e deu carona a dirigentes do Flamengo.
Banco brasiliense patrocina até competições fora do Brasil
Um dos patrocínios esportivos do BRB que mais chamam a atenção é o da equipe sul-americana Mubadala Brazil SailGP Team, de barco à vela. São R$ 26 milhões para as temporadas 2025 a 2027, na liga SailGP, que tem etapas em vários países do mundo, como Nova Zelândia, Austrália, Brasil (Rio de Janeiro), Espanha e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
O automobilismo também consome muito dinheiro do BRB. No início de novembro de 2025, Ibaneis comandou uma festa para marcar a reabertura do Autódromo Internacional de Brasília, que estava fechado havia 12 anos. O espaço foi reformado com dinheiro do BRB, por R$ 60 milhões. A instituição administra o autódromo desde 2023 e pretende colocar mais de R$ 40 milhões na praça de esportes em 2026.
Além de administrar e reformar o autódromo de Brasília, o banco estatal patrocina até a equipe Alpine, na Fórmula 1, que recebeu R$ 1.657.433,33, conforme o Diário Oficial do DF em 2024. Ainda de acordo com o balanço, o BRB destinou R$ 28.274.196,38 em patrocínios só em 2024, sendo R$ 16.647.024,18 a eventos e equipes esportivas, além de atletas.
Na gestão de Paulo Henrique Costa, que estava à frente do banco desde o início do primeiro mandato de Ibaneis, o BRB patrocinou ainda o Brasília Vôlei (Superliga Feminina) e o time masculino de basquete do Flamengo.
Ainda em 2019, o BRB estampou a camisa da seleção brasileira de basquete que, naquele ano, disputou a Copa do Mundo da modalidade, na China. O patrocínio só não foi mantido porque a Confederação Brasileira de Basquete (CBB) estava impedida de receber verbas públicas.
O BRB também repassou dinheiro a associações esportivas, como a Confederação Brasileira de Tênis. Com isso, a marca do banco ficou exposta em arenas Brasil afora, assim como ocorreu com torneios de beach tênis.
Ex-presidente do BRB pode falar sobre patrocínios em delação
Antes relutante a firmar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal PF, Paulo Henrique Costa mudou de ideia após ser preso, na última quinta-feira (14/4).
A equipe de O TEMPO em Brasília conversou com pessoas próximas a Costa. Elas disseram que o ex-presidente do BRB já era aconselhado por amigos e familiares a fazer delação, antes mesmo da prisão.
A colaboração de Costa na investigação sobre as fraudes do Banco Master pode implicar integrantes do primeiro escalão da administração pública do Distrito Federal e grandes empresários da capital.
A PF acredita que ele não só pode entregar mais informações e provas sobre negócios do BRB com o banco de Daniel Vorcaro como esclarecer , empréstimos e patrocínios generosos do banco público.
Costa, que esteve à frente das negociações com o Master, só deixou o BRB por ordem judicial, em setembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero.
Ibaneis deixou o governo há duas semanas para concorrer ao Senado. Ele sempre defendeu os negócios do BRB com o Master, conduzidos por Costa, seu homem de confiança.
O ex-presidente do BRB foi preso preventivamente na quarta fase da Compliance Zero, por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF).
Publicamente, a defesa de Costa nega uma delação. Diz que vai recorrer da prisão. Alega que o cliente já estava colaborando com as investigações. Ele está no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
Vorcaro ofereceu imóveis de luxo a ex-presidente do BRB
A PF diz que Costa recebeu propinas para facilitar esquemas que envolviam o Master dentro do BRB. Os benefícios incluíam imóveis de alto luxo, conforme revelado por mensagens contidas em celulares de Vorcaro.
Diálogos entre Costa e Vorcaro foram tornados públicos após a deflagração da quarta fase da Compliance Zero. Neles, o dono do Master oferece apartamento ao então presidente do BRB.
Costa aceitou R$ 146 milhões por meio da transferência de seis imóveis de luxo, sendo que R$ 74 milhões foram pagos, segundo a investigação da PF. Dois dos imóveis ficam em Brasília e quatro em São Paulo.
Presidente do BRB falou com Vorcaro sobre Ibaneis
Costa falou sobre Ibaneis com Daniel Vorcaro, o dono do Master, a respeito das negociações do banco privado, em mensagens recuperadas pela PF. O Banco Central (BC) barrou o negócio e liquidou o Master.
A troca de mensagens descrita por Mendonça é uma das peças-chaves para embasar a prisão de Costa, cumprida na quarta fase da Operação Compliance Zero. O ex-presidente do BRB foi preso em casa, em Brasília.
Ao citar as mensagens de WhatsApp entre Costa e Vorcaro, Mendonça diz que elas “revelam, simultaneamente, a forte proximidade de ambos e a comunhão de desígnios para a prática de ilícitos”.
O ministro diz ainda que tudo ocorre “ao mesmo tempo em que o investigado [Costa] anuncia medidas em relação a negócios envolvendo o banco que seriam de interesse de Daniel Vorcaro [...] demonstrando ânimo de que sua esposa possa visitar o apartamento luxuoso”.
Mensagem indica que Ibaneis acompanhava negociação com Master
O diálogo começa com uma longa mensagem de Costa para Vorcaro, em que ele cita conversa com o “governador”, no caso, Ibaneis Rocha, indicando que o então governador tinha acesso a informações do negócio.
“Amigo, obrigado pela conversa de hoje. A cada passo o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos construir. Além disso, dou muito valor ao alinhamento pessoal. E acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho, visão de mundo e perfil. Estou trabalhando para lançar a operação amanhã ou, no mais tardar, na segunda-feira”, começa o texto.
“O Governador me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas. Acredito que aquele desenho de CEO da holding financeira e/ou da empresa financeira consolidadora com participação no conselho do BRB e da empresa de private equity vai ser o mais funcional e que gera sinergia entre todas as empresas”, prossegue Costa.
“Se o Daniel [Monteiro] puder fazer e enviar o contrato, seria ótimo. Conversei com a minha esposa e estaremos em SP na próxima semana. Seria legal mostrar o apartamento para ela. Assim, ela também vai se ambientando. Dia 01/03 está logo aí. Acabei de pousar em Salvador e estou trabalhando na Renogrid. Um forte abraço”, completou.
Daniel era advogado do Master. Ele também foi preso preventivamente na quarta fase da Compliance Zero. A PF o comparou a um “compliance paralelo” de Vorcaro para ocultar suas supostas fraudes.
Ibaneis muda discurso sobre Costa e BRB após prisão do ex-presidente
Em nota divulgada na quinta-feira, após a prisão de Costa, a defesa de Ibaneis afirmou que ele “não acompanhava, não pressionou e tampouco teve qualquer ingerência” nas operações do BRB, sustentando que a condução das decisões, principalmente em relação à compra do Banco Master, era de responsabilidade da área técnica.
O mais recente posicionamento de Ibaneis sobre o BRB, um dos principais símbolos de sua gestão, no entanto, contrasta com falas anteriores do próprio ex-governador, que reiteradamente dizia ter acompanhado de perto as principais articulações financeiras do banco.
“Estou muito seguro. Acompanhei toda a operação desde o início. Tiramos toda a parte ruim, só vamos ficar com parte dos CDBs. Fizemos uma análise meticulosa, com consultorias”, disse ao jornal “Correio Braziliense”, em abril de 2025, quando questionado sobre a operação de aquisição do Master.
Durante sua gestão, Ibaneis associou a recuperação do BRB à sua administração e à atuação direta de Paulo Henrique Costa, presença constante no Palácio do Buriti e nome de confiança do então chefe do Executivo distrital.
Em discursos e entrevistas, gostava de repetir que havia tirado o banco “das páginas policiais” para levá-lo ao noticiário econômico, em referência à crise enfrentada na gestão anterior, marcada por investigações e prisões de dirigentes do BRB.
Em fevereiro de 2025, quando o nome de Costa não apareceu na lista aprovada pelo BC para a diretoria do BRB, Ibaneis minimizou o episódio e disse se tratar de um “erro material”.
Na ocasião, garantiu a permanência do executivo no cargo e exaltou os resultados da gestão, como a expansão nacional do banco, o aumento da base de clientes e o crescimento dos ativos.
No mesmo período, o então governador assegurou que o BRB avançava com gestão profissional e estratégia de crescimento nacional, inclusive com entrada em novos mercados.
Vice de Ibaneis e agora governadora, Celina diz que nada sabia do BRB
Já a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PSD), disse na quinta-feira, após a prisão de Costa, que nada sabia sobre a gestão do BRB, que tem o governo local como maior acionista (71,92%).
Celina foi a vice-governadora do DF de janeiro de 2023 até três semanas atrás, quando Ibaneis deixou o cargo. Eleita vice de Ibaneis em 2022, ela é pré-candidata a governadora do DF.
Celina nunca se opôs publicamente aos negócios do BRB. Agora diz buscar socorro para o banco público. E reclama de falta de ajuda do governo federal, sem apresentar soluções.
Na quinta-feira, em agenda pública, Celina criticou Paulo Henrique Costa e citou patrocínios do BRB a diferentes iniciativas, como eventos esportivos, que ela costuma prestigiar.
“Não tinha informações sobre absolutamente nada, mas achava a gestão dele muito longe da necessidade da população do Distrito Federal”, afirmou a governadora.
“Muito ligado a outros fatores que não têm a ver com o dia a dia. Patrocínio de corrida em Dubai, patrocínio de lancha em Miami. Então isso não tem nada a ver com a realidade do dia a dia”, completou.
Ela garantiu que sua gestão tem colaborado com todas as investigações e cobrou punição. “Aquelas pessoas que fizeram algo de errado vão ter que realmente pagar”, disse a jornalistas.
Fonte: O Tempo