Especialista diz que comoção social pode deslocar a culpa e alimentar ataques nas redes
Esse movimento revela uma distorção comum em situações de grande comoção, quando a dor é transformada em julgamento moral (Foto/Divulgação)
A reação ao caso de Itumbiara expôs um segundo tipo de violência: além da tragédia que vitimou duas crianças , a mãe foi atacada nas redes sociais e hostilizada durante o velório. Para a psicóloga e psicanalista Ilcéa Borba Marquez, episódios assim revelam como o machismo ainda molda julgamentos e preconceitos culturais.
Em entrevista à Rádio JM, a psicóloga explica que a hostilidade direcionada à mãe vai muito além do ato trágico em si, refletindo sentimentos inconscientes de inveja, raiva e julgamento sobre mulheres que rompem padrões tradicionais. “Nossa cultura ainda é machista. Mulheres independentes, bonitas ou bem-sucedidas acabam despertando críticas e ódio de forma desproporcional. O julgamento que ela sofreu mostra como preconceitos enraizados se manifestam em momentos de comoção”, afirma.
Para Ilcéa, esse movimento revela uma distorção comum em situações de grande comoção, quando a dor é transformada em julgamento moral. Segundo ela, o agressor pode ter agido movido pelo desejo de causar sofrimento emocional prolongado, e não apenas de cometer o ato extremo. “Ela vai sofrer o resto da vida, porque vai perder os filhos. É o que ela mais amava”, observa ao analisar a lógica destrutiva presente nesse tipo de violência.
A especialista explica que, em muitos casos, a violência é atravessada por sentimentos de posse, rejeição e incapacidade de aceitar a reconstrução da vida do outro após a separação. “Se eles já estavam numa situação de separação, lógico que ela iria reconstruir a vida afetiva dela. E ele também teria essa chance. Mas o ódio dele era muito grande”, destaca.
Segundo Ilcéa, tragédias dessa natureza não podem ser analisadas de forma simplista, pois envolvem fatores emocionais profundos, dinâmicas familiares delicadas e construções culturais que atravessam gênero, afeto e poder. Ela ressalta que compreender esses elementos não significa justificar a violência, mas permitir uma leitura mais responsável do fenômeno, evitando julgamentos apressados ou narrativas que busquem culpados fora do autor do crime.
A repercussão do caso, especialmente nas redes sociais, também acende um alerta sobre como a sociedade reage à dor alheia. “Estamos falando de sentimentos inconscientes, hostis, que aparecem misturados ao julgamento moral”, pontua.
A psicóloga defende que o episódio deve servir como reflexão coletiva sobre saúde mental, relações familiares e padrões culturais ainda naturalizados. Para ela, é fundamental discutir essas estruturas e incentivar o cuidado emocional em momentos de crise, separações e perdas, para prevenir comportamentos destrutivos e promover relações mais saudáveis.