Pesquisa baseada em dados do Pisa indica que autonomia financeira pode contribuir mais para educação financeira do que recompensas por tarefas
Um estudo publicado na revista Estudos Econômicos, da Universidade de São Paulo, aponta que crianças e adolescentes que recebem mesada sem precisar cumprir tarefas domésticas ou metas de comportamento tendem a desenvolver melhor educação financeira.
A pesquisa utilizou dados do Pisa, avaliação internacional coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, e analisou o desempenho de cerca de 38 mil adolescentes de 15 anos na prova de conhecimentos financeiros da edição de 2018.
Segundo os pesquisadores Ivana Carla Strapazzon, Marco Tulio Aniceto França e Gustavo Saraiva Frio, jovens que recebem mesada com maior liberdade para administrar o dinheiro apresentam desempenho ligeiramente superior em temas ligados a finanças, como planejamento, gestão financeira, riscos e consumo consciente.
O levantamento concluiu que a mesada sem condicionantes melhora em média 0,06 ponto a nota dos estudantes em uma escala de 0 a 10.
De acordo com os autores, quando a criança tem autonomia para decidir como gastar ou economizar o dinheiro, ela desenvolve habilidades práticas relacionadas à organização financeira e tende a conversar mais sobre o tema com a família.
O estudo também sugere que vincular a mesada ao cumprimento de tarefas pode reduzir o tempo disponível para estudos, afetando inclusive o desempenho em conteúdos ligados à educação financeira.
A educadora financeira Carol Stange afirmou que transformar tarefas domésticas em troca financeira pode distorcer a relação das crianças com o dinheiro. Segundo ela, a principal função da mesada é permitir aprendizado por meio da prática, inclusive com erros e decisões impulsivas.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que o questionário do Pisa não detalha quais tipos de tarefas eram exigidas em troca da mesada, o que limita conclusões mais amplas sobre o tema.