Equipe de militares com experiência em tragédias como a de Brumadinho foi escalada para auxiliar na busca de desaparecidos
Natasha Werneck
A tragédia provocada pelas fortes chuvas de terça-feira em Petrópolis, no Rio de Janeiro, mobiliza o país inteiro nas buscas pelas vítimas e no amparo aos sobreviventes, enquanto o desastre apresenta números cada vez mais dramáticos: na noite de ontem, o total de mortos chegava a 136 e mais 200 pessoas estavam desaparecidas. Uma equipe do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) seguiu ontem para cidade fluminense. Eles se juntam aos 500 bombeiros do Rio e a um contingente de aproximadamente 80 militares provenientes de mais 13 estados para integrar essa ação emergencial. Além disso, uma associação de ajuda humanitária de Minas, a Humus, também presta auxílio no local.
Enquanto as chances de encontrar pessoas com vida se reduzem, as autoridades ainda lidam com a dificuldade de identificar e liberar os corpos e, assim, diminuir um pouco o sofrimento das famílias. Em meio ao luto, o medo ainda paira sobre a cidade, que voltou a ser castigada pelas chuvas. O Instituto Médico-Legal (IML) informou que, entre as vítimas, há 79 mulheres e 41 homens, sendo 21 menores de idade. Ao todo, 70 corpos foram identificados, e outros 64, liberados. O IML também recebeu partes de outros corpos, mas, neste caso, não é possível identificar se são de homem ou de mulher. Exames serão feitos com parentes de desaparecidos para identificação das vítimas.
A equipe dos bombeiros de Minas escalada para a missão em Petrópolis é formada por 14 militares especialistas em salvamento e soterramento, enchentes e inundações, busca e resgate em estruturas colapsadas e buscas com cães. O grupo tem experiência de atuação em várias catástrofes semelhantes como os rompimentos das barragens de minério em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), a ajuda humanitária oferecida a Moçambique após a devastação por ciclones (2019) e ao Haiti, depois de terremoto (2021) e, por último, no trabalho integrado nas chuvas que atingiram a Bahia no início deste ano.
Os militares levaram dois cães especializados em busca em estruturas colapsadas, quatro viaturas. E equipamentos próprios como detector de vida, detector de vida sísmico, bote, barco, geradores, luzes de cena, materiais de escoramento/rompimento, salvamento em enchentes/veicular/terrestre/altura, entre outros. O grupo vai atuar de forma integrada ao Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CMBERJ) em ações de busca, salvamento, prevenção e gestão do Sistema de Comando de Operações.
VOLUNTÁRIOS
Por sua vez, a Humus disponibilizou sete voluntários, entre bombeiros licenciados ou reformados, para prestar auxílio a Petrópolis, sendo a maioria de Minas Gerais e um de Santa Catarina. Entre eles está Léo Farah, capitão do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, que chegou à cidade na madrugada de quarta-feira.
“Normalmente, a Humus é acionada por pessoas que foram impactadas ou que recebem a notícia de um desastre e conhecem o trabalho. Nessa ocorrência em Petrópolis, fomos acionados primeiramente por um amigo, que é jornalista e tem família na região. Logo em seguida, muitos bombeiros que fizeram o curso de operações em desastres comigo mandaram mensagens. Então, começamos a receber muitas imagens de diversos locais da cidade através das redes sociais e de nossos contatos pessoais”, explica o capitão.
Ele conta que, a partir dessas imagens, reuniu um grupo para auxiliar nos resgates. “Avaliamos a situação, até mesmo da dificuldade de acesso de equipes via Rio de Janeiro, e decidimos reunir um primeiro grupo para nos deslocarmos de Belo Horizonte até a região para auxiliar as equipes de busca que já estariam por lá – ou até mesmo em áreas que não tivessem sido acessadas ainda”, afirma.
Farah relata os primeiros trabalhos realizados: “Fomos acionados para uma área onde havia uma senhora presa debaixo de escombros. Havia um resgatista no local. Inicialmente, auxiliamos com orientações e apoio, mas a área de resgate estava apresentando muito risco e a senhora estava com muita dor e cansaço. Então, interviemos no local e auxiliamos na retirada. Ela foi levada para o hospital com vida.”
A Humus participou ainda do resgate de uma criança, um menino de 11 anos. Infelizmente, alguns familiares não sobreviveram. Léo Farah avalia que as chances de pessoas ainda serem encontradas com vida são baixas. “Os protocolos dizem que em até 7 dias as buscas seguem nesse sentido. Existem casos no mundo que chegam até 63 dias (como nos terremotos do Paquistão, em 2015). Mas, infelizmente, pelo que vimos no local e pelas características desse tipo de desastre, envolvendo lama, as chances são muito baixas. Vamos retomar a operação em Petrópolis, a fim de ajudar a localizar pessoas ainda desaparecidas e levar um pouco de conforto para as famílias”, reforça.
“Em qualquer desastre, o tempo de resposta é um fator fundamental. Muitas vezes é isso que vai decidir sobre o salvamento de uma pessoa com ou sem vida. Basicamente, as chances de um resgate com vida se reduzem de 90% para 7% entre a 1ª e a 120ª hora (quinto dia)”, diz Leonard Farah.
Ele explica que são as características de cada desastre que vão definir se há mais ou menos tempo para uma ação de resposta. “Um acidente de trânsito, um incêndio, um afogamento, um rompimento de barragem, um deslizamento de terra têm elementos que podem dar mais ou menos tempo para o resgate. Mesmo assim, as variáveis também são diferentes a cada desastre.”
O capitão lembra ainda que os esforços de resgate “devem seguir protocolos e prioridades, sem colocar em risco mais pessoas, mas tendo a certeza que mesmo se as expectativas de encontrar pessoas com vida forem nulas, o resgate deve ser realizado para que familiares e amigos possam encerrar aquela história com dignidade e respeito”.
Com informações de: O Estado de Minas