O Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas divulgou estudo que aponta que o planeta está em fase crítica de esgotamento dos recursos hídricos. A pesquisa divulgada no início desta semana demonstra que lagos, rios e aquíferos em diversas regiões do mundo estão entrando em colapso, comprometendo áreas responsáveis por quase metade da produção mundial de alimentos.
Os sistemas hidrológicos fundamentais ultrapassaram um ponto crítico onde a extração supera a capacidade natural de reposição. Na apresentação do estudo em Nova York, Kaveh Madani, diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, alertou que "muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso" e que "o dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais".
O levantamento mostra que metade dos grandes lagos do mundo perdeu volume de água desde o início da década de 1990. Esses lagos são fonte hídrica para 25% da população mundial. Cerca de 70% dos principais aquíferos do planeta apresentam níveis em declínio, afetando "reservas" subterrâneas em diversos países.
As zonas úmidas naturais foram reduzidas em 410 milhões de hectares nos últimos 50 anos. Esta área equivale ao território completo da União Europeia. Estes ambientes são fundamentais para a regulação do ciclo hidrológico e manutenção da biodiversidade.
O documento será apresentado durante encontro em Dacar, no Senegal, nos dias 26 e 27 de janeiro. Este evento prepara a Conferência da ONU sobre a Água de 2026, programada para 2 a 4 de dezembro nos Emirados Árabes Unidos, com apoio do governo senegalês.
'Renda' anual foi consumida
Os pesquisadores explicam a crise usando analogias financeiras. Segundo eles, muitas sociedades consumiram toda sua "renda" anual de água renovável - proveniente de rios, solos e neve derretida - e esgotaram suas "reservas" de longo prazo armazenadas em aquíferos e geleiras.
Nem todas as bacias hidrográficas enfrentam essa situação crítica, mas muitas áreas estratégicas já sofrem os efeitos da escassez. Os impactos afetam o comércio internacional, fluxos migratórios, equilíbrio climático e relações entre nações.
Em diversas regiões, secas ocasionais transformaram-se em escassez permanente de água, persistindo mesmo em anos com precipitações consideradas "normais". Isso ocorre porque a demanda hídrica supera a capacidade de oferta natural dos ecossistemas.
Qualidade da água
O relatório também alerta para a deterioração da qualidade da água disponível. Os recursos hídricos estão contaminados por agroquímicos, efluentes domésticos não tratados, resíduos de mineração, poluição por plásticos e substâncias como fármacos e produtos de higiene pessoal.
Esta degradação qualitativa afeta rios, lagos e águas costeiras globalmente. Em bacias hidrográficas densamente povoadas, observa-se proliferação de algas nocivas, contaminação por microrganismos patogênicos e elevados níveis de toxicidade.
Os autores do estudo recomendam que governos concentrem esforços na "gestão da falência" hídrica. Eles sugerem medidas para prevenir danos irreversíveis aos ecossistemas aquáticos, transformando setores econômicos intensivos em consumo de água.
O Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas destaca que a situação exige mudança na gestão dos recursos hídricos, passando da expectativa de abundância para estratégias de administração da escassez. Os dados apresentados servirão como base para discussões sobre políticas públicas durante a conferência no Senegal e posteriormente na Conferência da ONU sobre a Água.
Fonte: O Tempo.