
Oito artistas e personalidades mineiras reverenciam a obra de Milton Nascimento, relembram momentos marcantes com ele e mandam mensagens para o cantor no dia em que um dos artistas mais importantes da nossa música completa 80 anos. A generosidade e a genialidade de Bituca são ressaltadas, bem como o respeito que ele conquistou mundo afora. O TEMPO faz suas as palavras dos que aqui homenageiam Milton.
Lô Borges
Cantor, compositor e parceiro de Milton em “Clube da Esquina”
“A história da nossa primeira parceria é muito legal. Eu estava na esquina tocando violão e o Bituca já morava em São Paulo ou no Rio, não sei. De vez em quando, ele vinha a BH, perguntava à minha mãe por mim. ‘O Lô não sai da esquina, um lugar que chamam de clube da esquina’, ela dizia. Aí, um dia, ele apareceu e eu estava tocando os primeiros acordes, a primeira trama harmônica da música ‘Clube da Esquina’. ‘Vamos lá para a casa da sua mãe, a gente podia tocar juntos, quem sabe a gente desenvolve algo?’, Milton falou. A casa da minha mãe era muito perto da esquina. Ele pegou o violão dele, continuei tocando e ele começou a criar uma melodia em cima com uns falsetes maravilhosos. Ficamos ali empunhando dois violões e magicamente a gente fez nossa primeira parceria em uma tarde de um dia de semana em Santa Tereza, a pouco metros da Paraisópolis com Divinópolis. Quando a música estava pronta, o Marcinho (Borges) chegou, no fim da tarde, e viu o Bituca e o irmão mais novo dele compondo. Ele pegou um caderno e uma caneta e começou a escrever a letra. Estava anoitecendo, a energia elétrica acabou, mas ele não queria parar de escrever e a gente não queria parar de tocar. Minha mãe acendeu uma vela e ficamos ali. Foi um fato muito marcante. Agora vejo a beleza de Milton completar 80 anos. É um cara com muito talento, energia e garra. Ele é meu irmão, meu eterno parceiro.”
Djonga
Rapper e intérprete de “Travessia” no projeto Atemporais, do Spotify
“Para quem é de Minas, não existe isso de ter um primeiro contato com a música de Milton Nascimento. Acontece naturalmente. A música dele é a nossa trilha, da geração dos nossos pais, não tem como saber quando houve a primeira vez, simplesmente está aí, pairando sempre. A música do Bituca era minha trilha principalmente quando eu ia para Carrancas, no Sul de Minas. Eu ouvia aquilo e parecia mais ainda o pano de fundo da minha vida, era tipo a voz de Deus no fundo. A música dele tem uma coisa muito de fazenda, de interior, de roça, ao mesmo tempo que é moderna. Tem duas músicas do Milton que quando ouço fico muito emocionado, mas não sei por que: ‘Fazenda’ e ‘Travessia’. Ele me toca muito na melodia, no jeito de cantar. Quando recebi o convite do Spotify, escolhi “Fazenda”, mas não rolou porque tinha que ser uma música dele, então peguei ‘Travessia’, a que mais estou ouvindo agora. Depois pensei: ‘Fodeu, o que vou fazer agora?’. Caí para dentro, fiquei feliz demais com o convite. Interpretar Milton Nascimento não é brincadeira, é uma grande responsabilidade. Vi o resultado e estou muito feliz. Quero ver como vai ser a reação das pessoas. ‘Travessia’ me lembra minha avó, é uma memória muito afetiva. Minha relação com Milton é muito afetiva. Depois que a gente cresce começa a admirar por outras qualidades, mas ela começa afetiva para mim. Essas duas músicas lembram muito minha infância, com 10 anos passeando com a família em Ouro Preto, no interior. Isso fica na minha cabeça. É coisa de mineiro, passeio de mineiro. Não adianta explicar para quem é de fora daqui, a pessoa não vai entender.”
Marina Machado
Cantora e parceira de Bituca na turnê do disco “Pietá”
“Brinco que só de ter cantado com o Milton fez valer a pena ser cantora, foi maravilhoso. A gravação do DVD foi o finalmente da turnê, foi um turnê longa. Cantei com ele três vezes na turnê do ‘Crooner’, quando eu estava lançando o ‘Baile das Pulgas’. Conheci o Milton em 1999, na turnê desse disco. Tinha uma história que ele queria me conhecer e acabou gostando muito de mim. Eu sou muito tímida, mas me colocaram na frente dele. (risos) ‘Vem cantar comigo semana que vem’, ele falou. Bituca estava com a turnê do ‘Crooner’ em São Paulo. Acabei indo, claro. Cantei ‘Roupa Nova’ com ele, eu amo essa música, que acabou entrando na turnê de ‘Pietá’, em 2002. Ao todo, fiquei cantando com o Milton uns sete, oito anos da minha vida. Foi uma história longa e muito bonita. Fomos para o Japão, quatro vezes para a Europa, fizemos África também, Estados Unidos. Minha relação com o Milton é o amor mais puro que eu já provei, de uma imensidão que a gente nem compreende. O Bituca é essa imensidão, a gente nem consegue entender direito. Ele é mundial, respeitadíssimo. Essa generosidade dele é de aplaudir. Ele foi um dos produtores do meu disco ‘Tempo Quente’ (2008), lançado pelo selo dele, a Nascimento Music. Não estou cantora atualmente, mas a música é minha vida. Eu amo o Bituca como uma filha. Ele me deu de presente o sonho de conhecer o mundo cantando com simplesmente o maior cantor da mãe terra e o mais generoso e genial. Uma alma enorme. Nas viagens a trabalho eu conheci lugares maravilhosos, conheci muita gente, ampliei meus horizontes em todos os sentidos. Me sinto grata e muito honrada com esse que foi o trabalho da minha vida. Bituca, eu te amo.”
Samuel Rosa
Cantor, compositor e vocalista do Skank
“Eu não sei se consideraria a música do Milton uma música genuinamente mineira, uma expressão autêntica da música mineira, que é das mais sublimes, mas também poderia dizer que é genuinamente mundial, autêntica, representante dessa verve da música misturada, híbrida, que talvez só o brasileiro consiga fazer diante de nossas contingências étnicas e do talento de pessoas como o Milton. Não à toa, ele se comunica, se faz relevante com outros expoentes da música do mundo, artistas europeus, da América do Sul, dos Estados Unidos, da África. Ele faz essa conexão como poucos artistas brasileiros fizeram, a gente conta nos dedos. Veja agora na recente turnê dele na Europa e nos EUA os nomes que aparecem no camarim: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Beck, Paul Simon, fora os que homenageiam Milton, que falam dele e do Clube da Esquina. O ano de 2022 é emblemático, é um ciclo que se encerra. Claro, a música ficará. E sou até capaz de apostar: o Milton é um artista de uma inquietação enorme, ele vai se afastar dos palcos, mas a produção musical dele não vai parar, tenho quase certeza. Ainda não tive oportunidade de ver o show. Quando o Bituca saiu em turnê, o Skank já estava em franca correria da sua própria turnê de despedida. Raramente coincidiu de estarmos na mesma cidade. Sei que é um show belíssimo, conheço bem a banda que está tocando com ele, conheço os bastidores, até porque participei de alguns shows da turnê comemorativa do ‘Clube da Esquina’, cantei com Bituca músicas que eu amo, ‘Girassol da Cor do Seu Cabelo’, ‘Trem Azul’, ‘Paula e Bebeto’... Minha elevação espiritual mais intensa se dá quando escuto as músicas do Milton. Vou ter a oportunidade de ver o show no Mineirão, no dia 13 de novembro, porque esse eu não posso perder.”
Bárbara Barcellos
Cantora e parceira de Milton na turnê “Sementes da Terra”
“Conheço Milton pessoalmente há uns bons anos, desde os meus 17. Gravei duas músicas dele - ‘Sentinela’ e ‘Maria Três Filhos’ - no meu disco ‘Ubuntu’, de 2017. No mesmo ano, fui convidada para participar da turnê dele. O Beto Lopes, meu parceiro, mostrou meu disco e ele curtiu. Eu não acreditei, não esperava que isso fosse acontecer. Foi a maior alegria da minha carreira, a realização de um sonho. Ficamos dois anos viajando pelo Brasil e fomos também para o Uruguai. Lembro da primeira vez no estúdio, o primeiro ensaio, a primeira vez que ouvi a voz dele de perto. Foi uma coisa maravilhosa, passei mal de tão bonito. Nos shows, a gente começava cantando ‘Travessia’; quando ele entravam todo mundo ia à loucura. Durante toda a turnê era impressionante ver como ele é amado. Cantar com ele em BH foi especial. Na plateia estavam muitos amigos que fazem parte da minha formação musical, familiares. Foi algo maravilhoso. O pessoal de Minas entende o Milton como um patrimônio nosso, apesar de ele ser carioca. Ele é muito especial. As pessoas entendem a grandeza da música dele, é uma coisa muito diferenciada. Ele consegue juntar elementos da música africana, ritmos diferentes, poesia. Ele é um fenômeno. Em todos os lugares pelos quais passamos as pessoas mostravam entender isso. Outro show marcante foi no Rio, porque o Caetano e o Djavan, dois ídolos meus, estavam na plateia. Falar de Milton é até difícil. Esse último show dele é das coisas mais importantes que vão acontecer na música brasileira. O que está acontecendo é um marco. A música dele vai ficar eternizada. Os 80 anos de Milton Nascimento são pura alegria, ele passou a maior parte da vida contribuindo com a obra dele para a humanidade.”
Ronaldo Fraga
Estilista e responsável pelo figurino da última turnê de Milton Nascimento
“Milton, para mim, é único. Vejo Bituca como a imensidão do céu de Minas, orixá da música brasileira. Minha vida foi marcada toda por ele, então obviamente não fingi normalidade quando recebi o convite. O filho dele me contou sobre o último show e disse que queria conversar comigo. Ele veio a BH. Sem saber da direção que teria o show, pensei em como eu gostaria de ver Milton vestido, como ele deveria estar. Eu tinha ideia apenas da referência: (o artista plástico sergipano) Arthur Bispo do Rosário e seu manto da anunciação para prestar conta a Deus no dia do juízo final. Era isso que eu queria fazer, bordar elementos da obra do Milton. Depois, o Augusto me disse que seria um show de encerramento. Milton teria que estar abraçado com as montanhas de Minas, vestido com as veredas de Guimarães Rosa. Se ele não curtir eu penso em outra coisa, falei comigo mesmo. No dia seguinte, ele me ligou e disse que tinha adorado, então fui a Juiz de Fora tirar as medidas. Era setembro do ano passado. Tomei um banho de álcool, sentei com ele. Eu comecei a explicar como seria o figurino e ele dizia ‘adoro vermelho profundo’; falei que ele teria uma capa e uma farda de imortal segundo Arthur Bispo do Rosário e ele disse ‘eu amo azul das noites de sertão’, e eu lá tirando as medidas. Quando estava indo embora, ele soltou um ‘mas você já vai?’. (risos) ‘Estou indo, mas volto para comemorar e fazer um churrasco na sua piscina’, respondi. Fiz o figurino, fotografei os estágios da roupa. Quando ficou pronta, mandei tudo. Passou sábado, domingo, e não falarama nada. Na segunda cedo, ansioso, mandei mensagem. O Augusto respondeu que ele estava vendo naquele exato momento. Passou um tempinho, ele mandou uma foto do Milton vestido e chorando. Foi muito emocionante. Vou ver o Milton com esse figurino no show do Mineirão, não tive agenda antes. O destino me trouxe para assistir em BH. Milton sempre lançou luz sobre questões que estamos vivendo agora. O Brasil ainda não se deu conta da gigante obra de Milton Nascimento, do legado gigante dele.”
Bruna Martins
Chef de cozinha e proprietária dos restaurantes Birosca S2 e Florestal
“Minha mãe tem um rancho lá em Córrego do Outro, distrito de Campos Gerais, pertinho de Três Pontas. Cresci passando minha infância indo ao Carnaval de lá, frequentando muito a cidade onde Milton foi criado. Sempre tive essa relação de ter o Bituca no radar como referência mesmo antes de me aprofundar na música, porque acabei fazendo faculdade de música popular em 2009. Uma das matérias do curso da UFMG era sobre a música de Milton Nascimento. Essa matéria me despertou muito interesse, era uma apreciação da obra dele, estudamos praticamente todas as músicas dele, divididas em fases. Isso mexeu muito comigo, fui entendendo a profundidade de Milton. É uma música absurdamente fora da curva, de uma pessoa que não tem escola musical. Ele é um gênio. Ao mesmo tempo, conversávamos muito sobre onde os músicos podiam tocar em BH, levantamos várias discussões e uma delas foi de que BH não tinha um espaço musical e gastronômico ao mesmo tempo. Eu já tinha a pira de cozinhar quando fiz a matéria sobre o Milton e resolvi que gostaria de ter um lugar que música e gastronomia fossem igualmente valorizados. Quando abri o Birosca, que não é uma casa de potências musicais, a primeira coisa que fiz foi comprar um piano. Viajo muito por Minas Gerais e sempre fico olhando as montanhas, orgulhosa. O que aconteceu no Clube da Esquina é uma trilha sonora mineira real. Não tem nada que poderia nos representar melhor. Milton é fundamental para nossa cultura, representa tudo que a gente tem, de barroco, de mato, de ser meio caipira, mas ao mesmo tempo moderno e vanguardista. É simplicidade e sofisticação. Tenho tatuagem de música dele, ‘Fé Cega, Faca Amolada’. É sobre o alimento ser sagrado, a fé mineira. Milton também me inspira na cozinha, com certeza me influencia.”
Paulo Pederneiras
Cenógrafo, fundador e diretor geral e artístico do Grupo Corpo, que encenou dois espetáculos com trilha de Milton Nascimento e Fernando Brant: “Maria, Maria” (1976) e “O Último Trem” (1980)
“O Corpo foi fundado em 1975 e pensei em um projeto de espetáculo. Primeiro conversei com o Fernando Brant, que eu já conhecia. Foi através do Fernando que o Milton foi conectado e topou fazer essa trilha para o Grupo Corpo. Nesse mesmo tempo, nós nos comunicamos com o Oscar Araiz, que é um coreógrafo argentino e ele se dispôs também a fazer parte desse projeto. O Milton fazia as músicas de acordo com o roteiro que o Fernando fez. Antes de começar as composições, eu ia algumas vezes à casa do Milton no Rio e ele me mostrava uma música ou outra. Lembro exatamente do dia em que ele mostrou ‘Maria, Maria’. Ele tocou ao piano, cantando a melodia sem letra, não tinha letra no espetáculo. Foi a primeira vez que escutei ‘Maria, Maria’. Eu sempre tenho tantas dúvidas das minhas lembranças - ela me trai o tempo todo -, mas isso foi tão marcante. A letra da música veio muito tempo depois. ‘Maria, Maria’, o espetáculo, foi um sucesso impressionante. Viajamos para 14 países, ficamos 45 dias em Paris, onde fizemos 25 espetáculos. Sem “Maria, Maria’ provavelmente o Grupo Corpo não teria nenhum futuro. A generosidade do Milton também se fez presente com o Corpo, que naquela época só existia no papel. Milton, Fernando e Araiz embarcaram num projeto que não tinha algo anterior que o sustentasse. Era simplesmente uma ideia. Nunca se falou sobre dinheiro, remuneração, nada disso. Isso tudo veio depois porque as coisas foram dando certo. Era interesse artístico puro, exigia muito fôlego e dedicação. Milton Nascimento é um ídolo, mesmo. Tem pessoas que nascem assim, não tem muita explicação, mas a primeira coisa é a genialidade como artista, por isso ele tem essa importância toda não só no Brasil, mas em várias partes do mundo.”