País asiático tem conquistado o mundo com produções audiovisuais e sua cultura
No dia 12 de setembro, a série sul-coreana “Round 6” foi um dos grandes destaques da 74ª edição do Emmy, maior prêmio dedicado à televisão e ao streaming do mundo. A produção, que já havia feito história ao ser indicada em 14 categorias, continuou deixando seu legado ao sair vencedora de seis prêmios – dois deles, inclusive, entre os mais importantes: o de melhor ator em série dramática, conquistado por Lee Jung-jae, e o de melhor direção de série dramática, com Hwang Dong-hyuk.
Vale destacar que essas foram as primeiras vitórias para uma série em um idioma que não foi o inglês na história da Academia. Além disso, o ator e o diretor também se tornaram os primeiros asiáticos e primeiros sul-coreanos a vencerem o Emmy em suas categorias. Embora o feito tenha sido gigantesco, o entretenimento sul-coreano tem ocupado um espaço que vai muito além do streaming. Em 2020, por exemplo, foi com um filme produzido no país que o Oscar premiou, pela primeira vez, uma produção de língua não inglesa com o troféu máximo da Academia: o de melhor filme. Naquele ano, “Parasita” ainda arrebatou outras três estatuetas para casa: diretor (Bong Joon-ho), roteiro original e filme internacional.
A música produzida no país também não fica atrás, no quesito sucesso, dos conteúdos audiovisuais. Aliás, foi com o k-pop, por meio de representantes como o BTS, Blackpink, Psy e até mesmo grupos mais antigos, como as Wonder Girls – que tiveram até filme próprio na Nickelodeon, em 2012 –, que a cultura da Coreia do Sul começou a conquistar o mundo.
Chamada de Hallyu, essa onda sul-coreana começou ainda no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. “Ela tem início como a construção de uma indústria cultural que fizesse sucesso nacionalmente. Existia uma demanda na Coreia do Sul por produção de conteúdo local, já que se importavam muito programas de televisão, filmes e música”, explica Daniela Mazur, doutoranda em comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora vinculada ao MidiÁsia – Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea –, da universidade carioca.
Diante dessa necessidade, o país asiático passou a investir no entretenimento, tanto de forma governamental como privada. “Em determinado momento, considerando que a população sul-coreana é pequena – hoje são 51 milhões de pessoas, naquela época era ainda menos –, a expansão desse universo para além das fronteiras do país se tornou necessária, então começaram a pensar nesse movimento de expansão”, diz a pesquisadora.
A partir daí, em um sentido mais mercadológico, o entretenimento sul-coreano passou a ser exportado. Inicialmente, a onda coreana se espalhou pela Ásia, e, a partir dos anos 2010, começou a ganhar também outras partes do planeta.
Motivações
Mas o que torna o entretenimento sul-coreano tão atraente? Para a pesquisadora, além da própria criatividade do povo sul-coreano, dois fatores podem explicar essa explosão de interesse: o primeiro deles é a novidade. “Esses conteúdos são uma alternativa nova de consumo de entretenimento para além dos Estados Unidos, que acaba trazendo algo que já é extremamente reconhecido e repetitivo”, argumenta.
Mazur pontua que o entretenimento produzido no país traz questões que são íntimas do público e que são buscadas por eles. “Eles trazem certo cosmopolitismo. No caso de histórias de romance, elas têm muito da nossa base do melodrama, a música pop traz gêneros que nos soam familiares, mas de maneira única. Então esses produtos têm essa questão de serem únicos, dentro de algo que é totalmente novo, mas que, ao mesmo tempo, são familiares. Esses dois lados, de algo ser reconhecível e ao mesmo tempo diferente, são muito atraentes”, pontua.
Conteúdos interligados
Outro fator interessante que contribui para o sucesso do entretenimento sul-coreano é a forma como os vários produtos – música, k-dramas (como são chamadas as séries produzidas no país), filmes e até mesmo programas televisivos – estão interligados. “A Hallyu tem muito dessa perspectiva de não ser um consumo único, é um consumo que se expande por várias vertentes”, afirma a Daniela Mazur.
Exemplo disso é a presença de artistas musicais também em séries na televisão, apresentando programas ou até mesmo no cinema – o caso mais recente foi da artista Lee Jieun, conhecida como IU em sua carreira musical. Ela esteve presente em Cannes para divulgar “Broker”, filme que protagonizou neste ano.
Essa relação entre os conteúdos é tão bem-feita que é, inclusive, o que faz com que a maioria das pessoas se interesse por coisas que vão além daquilo que inicialmente chamaram a sua atenção. Foi o que aconteceu com a mineira Ticiane Bueno, 28. Ela conta que teve o primeiro contato com os dramas coreanos a partir de uma amiga, que consumia, também, conteúdos japoneses. “Muitos dos dramas daquela época eram a adaptação coreana de algum mangá japonês ou de algum dorama (uma espécie de novela) que tinha sua versão original vinda do Japão. Então, como pelo menos a cultura pop japonesa já estava mais enraizada no Ocidente há mais tempo, acabou sendo uma porta de entrada para a Hallyu”, afirma.
Ela pontua que, a partir dos k-dramas, mais conteúdos se tornaram passíveis de serem consumidos, já que com eles, por exemplo, vinham as trilhas sonoras sendo cantadas por artistas que geralmente faziam parte de algum grupo de k-pop. É quase como se um conteúdo puxasse o outro.
Outro fator que também chamou a atenção da mineira foi o forte apelo estético dos produtos do país. “Sempre fui muito ligada à estética das coisas, e eles estão muito à frente quanto a isso. Um exemplo básico é o aplicativo que eles usam para se comunicar. Enquanto em 2015 a gente tinha o WhatsApp com esse design sem graça e, na época, sem figurinha, eles tinham o kakao talk havia tempos. Ele era visualmente mais bonito e customizável, tinha várias figurinhas”, exemplifica.
Todo esse interesse e apelo dos produtos sul-coreanos fizeram com que a mineira buscasse conhecer mais sobre a Coreia do Sul. “Tive a oportunidade de fazer um intercâmbio pela faculdade para lá. E, na minha experiência, foi tudo o que eu esperava. É um país desenvolvido, muitos costumes são bem retratados nas novelas, então o choque de cultura não foi tão grande. Estava me adaptando muito bem, gostaria de ter ficado mais tempo, inclusive”, confessa.