Estudo ouviu 9.591 pessoas em 133 municípios e aponta azitromicina, ivermectina e cloroquina entre os remédios mais utilizados
Quatro em cada dez brasileiros que tiveram Covid-19 usaram medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, segundo um estudo publicado em julho na Revista de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP).
A pesquisa ouviu 9.591 pessoas que relataram ter tido pelo menos uma infecção por Covid-19. As entrevistas foram realizadas em 133 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal.
Ao todo, 63% dos participantes disseram ter utilizado algum medicamento durante a doença. Entre os mais usados estavam antitérmicos, mencionados por 53,7% dos entrevistados, e antibióticos, por 36,2%.
Entre os medicamentos sem eficácia comprovada para tratar a Covid-19, a azitromicina foi a mais utilizada, por 27,2% dos participantes. Na sequência aparecem a ivermectina, com 23,6%, e a cloroquina, com 12,1%.
A azitromicina é um antibiótico utilizado no tratamento de infecções causadas por bactérias. A ivermectina é um antiparasitário indicado principalmente para infecções provocadas por vermes e outros parasitas.
Já a cloroquina é utilizada principalmente na prevenção e no tratamento da malária e também em algumas doenças autoimunes, como artrite reumatoide e lúpus.
Esses medicamentos, porém, não demonstraram eficácia para tratar a Covid-19 nos estudos científicos realizados durante a pandemia.
A pesquisa identificou diferenças no consumo de medicamentos entre as regiões brasileiras. O uso de qualquer remédio foi maior no Norte, com 74,1% dos entrevistados, seguido pelo Nordeste, com 67,6%, e pelo Centro-Oeste, com 65,2%.
No Sudeste, o índice foi de 59,2%, enquanto no Sul ficou em 58,7%. O uso de cloroquina e ivermectina também foi mais concentrado nas regiões Norte e Centro-Oeste.
As mulheres relataram maior uso de medicamentos em geral, com 67,4%, contra 58% entre os homens. No caso da cloroquina, porém, o percentual foi ligeiramente maior entre os homens, de 13,5%, contra 10,7% entre as mulheres.
O consumo também foi maior entre pessoas de menor renda. Entre aqueles que recebiam menos de um salário mínimo, 70,1% disseram ter utilizado algum medicamento. O percentual caiu progressivamente conforme aumentava a renda, chegando a 55,1% entre quem recebia cinco salários mínimos ou mais.
Entre as pessoas que procuraram atendimento médico durante a Covid-19, 70,5% relataram ter usado algum medicamento. Entre aquelas que não buscaram atendimento, o índice foi de 46,1%.
Para os pesquisadores, o dado pode indicar que parte do consumo ocorreu por meio de prescrições ou orientações médicas inadequadas. O estudo, entretanto, não consegue determinar quantos medicamentos foram indicados por profissionais e quantos foram utilizados por iniciativa própria.
Os autores também apontam que fatores socioeconômicos podem ter influenciado o comportamento, especialmente entre pessoas com menor acesso a atendimento médico no momento da doença.
O estudo relaciona a disseminação dos medicamentos sem eficácia comprovada à promoção de supostos tratamentos durante a pandemia.
Segundo os pesquisadores, o uso desses medicamentos foi incentivado pelo governo federal durante a gestão do então presidente Jair Bolsonaro, além de ter recebido apoio de entidades médicas, líderes religiosos e influenciadores digitais.
Os autores avaliam que a defesa desses tratamentos contribuiu para criar uma falsa sensação de segurança e para reduzir a percepção sobre a necessidade de outras medidas de prevenção contra a Covid-19.
Durante a pandemia, medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina e oseltamivir chegaram a integrar o chamado “Kit Covid”.
Segundo levantamento citado pela reportagem, o governo federal gastou R$ 126,5 milhões na aquisição desses medicamentos e distribuiu cerca de 31 milhões de comprimidos aos estados.