Santiago Peña deve apresentar defesa nesta sexta-feira (6), após renúncia ser suspensa pelo Congresso; colapso de banco deixou quase 3 milhões de clientes sem acesso ao dinheiro
(Foto/José Cruz/Agência Brasil)
O Senado do Paraguai retoma nesta sexta-feira (6) o julgamento político que pode resultar na destituição do presidente Santiago Peña. A sessão está prevista para começar às 10h, no horário local, e deve contar com a presença do chefe do Executivo, que anunciou sua renúncia na quinta-feira (5), mas teve o pedido suspenso pelo Congresso.
A crise política ocorre em meio ao colapso do Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras do país. A intervenção do Banco Central paraguaio deixou quase 3 milhões de pessoas sem acesso aos próprios depósitos, o equivalente a quase metade da população. A situação provocou uma onda de protestos em Assunção e em outras cidades.
Peña, de 47 anos, perdeu o apoio de integrantes do próprio partido no Congresso e anunciou que comparecerá ao Senado para exercer seu direito de defesa. Ele permanece provisoriamente no cargo enquanto os parlamentares analisam o processo de destituição.
Na terceira noite consecutiva de manifestações, milhares de pessoas foram às ruas exigir a devolução do dinheiro retido pelo banco. A polícia estimou que cerca de 5 mil manifestantes se reuniram nas proximidades do Congresso, onde ocorreram confrontos entre jovens e forças de segurança.
Renúncia e processo de impeachment
Peña anunciou a decisão de renunciar pouco depois do meio-dia de quinta-feira, após perder sustentação política no Congresso. Em um vídeo publicado nas redes sociais, pediu desculpas à população por eventuais falhas e afirmou que sua prioridade era garantir tranquilidade aos paraguaios que confiaram suas economias ao sistema financeiro.
Pouco depois, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade a abertura de um julgamento político contra o presidente. Os parlamentares, porém, rejeitaram a abertura de um processo semelhante contra o vice-presidente Pedro Alliana, que poderia assumir o comando do país.
Uma sessão conjunta das duas casas legislativas, que analisaria o pedido de renúncia, acabou suspensa por falta de quórum. A maioria dos deputados governistas deixou o plenário durante a votação.
Enquanto a oposição defendia o avanço do impeachment para impedir que Peña deixasse o cargo sem responder politicamente pelas acusações, parte da base governista pretendia aceitar a renúncia e acelerar a posse de Alliana.
Na acusação apresentada, o deputado opositor Raúl Benítez afirmou que teria sido montado um esquema criminoso para retirar recursos do banco com proteção de instituições controladas pelo presidente.
Após o avanço do processo, Peña declarou que comparecerá ao Senado para apresentar sua defesa. Em meio à crise, o ministro do Interior, Enrique Riera, também deixou o cargo.
Crise bancária e investigação
A crise começou na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank após identificar uma grave insuficiência de capital. Além dos depósitos dos clientes, recursos de órgãos públicos também ficaram bloqueados.
O impacto atingiu diretamente milhares de famílias. Nadia González, de 26 anos, mãe de três filhos, relatou que aguardava a liberação de um empréstimo aprovado para a compra da primeira casa, mas o dinheiro não foi disponibilizado após a crise.
Peña, que foi ministro da Fazenda antes de assumir a Presidência em 2023, tinha participação em um grupo que controlava o banco, mas se desfez das ações em 2025. Após a intervenção, exigiu a renúncia do presidente do Banco Central e promulgou uma lei que estabeleceu prazo de cinco dias úteis para a devolução da maior parte dos recursos aos clientes.
A oposição, entretanto, acusa o presidente de conflito de interesses e questiona possíveis favorecimentos à instituição por meio de decisões regulatórias e depósitos previdenciários.
Na tarde de quinta-feira, a Procuradoria-Geral do Paraguai anunciou a abertura de uma investigação criminal contra Peña. O procedimento apura possíveis irregularidades relacionadas à supervisão e à liquidação do Ueno Bank, além da aplicação de recursos públicos na instituição.
O julgamento no Senado deve definir os próximos passos da crise política que ameaça a permanência de Santiago Peña na Presidência do Paraguai.