Após um mês de ataques, os confrontos estão concentrados em três frentes: Kiev, Kharkiv e a costa do Mar Negro.
Há exatamente um mês a Rússia dava seus primeiros passos rumo ao território ucraniano. A operação que muitos apostaram que poderia ser rápida, uma vez que o poderio militar de Moscou é consideravelmente superior, mostra ser mais complicada, demorada e destrutiva do que o esperado.
Após o primeiro movimento num tabuleiro cujo um dos lados possui mais peças, onde os russos bombardearam alvos ao longo de todo o país, os militares do maior país em território europeu parecem ter, ainda, dificuldades para impor sua figura de hegemonia aos ucranianos, ainda que afirmem que a situação está se desenrolando como o previsto.
O que para a Rússia não passava de uma operação especial na Ucrânia, hoje é a maior crise militar da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. No primeiro dia, 24 de fevereiro, diversas cidades ucranianas foram bombardeadas e a Rússia começou a invadir o país por diversas frentes pelo norte, leste e sul ucranianos.
Entretanto, o contra-ataque da Ucrânia foi forte e, após os primeiros avanços, a Rússia sentiu dificuldade em ampliar seu domínio sobre o país de menor porte. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a evasão da Ucrânia conta com mais de 3,6 milhões de pessoas que deixaram o país, a maior parte delas indo para sua “vizinha de muro”, a Polônia. Em termos de morte, oficialmente há uma estimativa de mais de 900 civis que perderam suas vidas, mas a ONU alerta que o número deve ser bem superior ao estimado.
Após a primeira semana, os ataques se concentram em três frentes. Em Kiev, onde milhares de tropas russas se aproximaram da capital, mas não conseguiram invadir. Em Kharkiv, onde a segunda maior cidade da Ucrânia foi fortemente bombardeada e cercada e, por fim, no litoral do mar Negro, onde a Rússia teve maior domínio e onde ocorreu o cerco a Mariupol, cidade que está muito destruída e sem água e energia por vários dias.
Em tentativa de ajudar a Ucrânia e fazer com que a Rússia levasse em consideração as consequências da invasão, numa tentativa de assim para-lá, os países ocidentais responderam principalmente com sanções comerciais, estrangulando a economia russa.
O QUE ESPERAR?
Segundo análise do Institute for the Study of War, um instituto americano especializado em estudar guerras, os possíveis próximos passos russos se concentram na Tomada de Mariupol, uma conquista que pode liberar tropas para reforçar outras frentes da batalha. Há também possibilidade de que alcancem Kryvyi Rih e consigam isolar Zaporizhiya, também localizada ao sul de Kiev. Em Kharkiv, os ataques devem continuar, principalmente focados em Izyum, mas há pouca probabilidade de as tropas avançarem sobre a cidade.
Kherson deve continuar ocupada, mas Mykolayiv e Odessa não devem enfrentar tropas russas por terra nos próximos dias. Em Kiev, se as tropas russas conseguirem avançar mais, a artilharia terá alcance para atacar diretamente o centro da cidade. Os russos devem continuar atacando Chernihiv e Sumy com o objetivo de cercar a capital por todos os lados, mas isso não deve acontecer tão cedo. A Rússia poderia tentar trazer Belarus para guerra, criando um possível novo eixo de avanço no oeste, mas o instituto diz que é improvável que isso aconteça
Segundo avaliação das autoridades da Ucrânia, os equipamentos da Rússia precisam de manutenção e a perda de soldados é grande, com aparente dificuldade de logística do exército. Conforme as tropas não conseguem avançar, as perdas da Rússia aumentam, pois a Ucrânia mantém um forte contra-ataque.
ACORDO DIPLOMÁTICO
Aposta-se em uma saída rápida por um acordo nas negociações diplomáticas. Entretanto, o acordo é uma possibilidade que parece distante, afirma Carlos Frederico e o coronel Alexandre Moreira, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército do Brasil. “Não parece haver o ânimo necessário para um acordo diplomático nesse momento”, afirmam os dois.
VITÓRIA RUSSA
Em curto prazo
Pelo “andar da carruagem” é possível apostar em um cenário para as próximas semanas com uma vitória russa, na qual conquistem seus dois principais objetivos: tomar Kiev e a costa litorânea do Mar Negro. Ao menos é o que aponta o professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra e pesquisador sênior do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Ronaldo Carmona.
"Uma vez estabelecido o cerco, Kiev consegue resistir quanto tempo? No mínimo algumas semanas. Consolidada a vitória na franja sul e o controle de Kiev, estariam criadas as condições para a negociação. O cenário que considero mais provável é de ainda algumas semanas", afirma. Carmona ainda diz que, a longo prazo, a principal mudança de uma vitória russa seria um reequilíbrio mundial de forças.
“A recomposição da Rússia como um grande poder seria uma novidade. O bloco da Eurásia, com Rússia e China, busca um mundo mais multipolar, e o conflito na Ucrânia deve ser interpretado nesse sentido”, diz Carmona.
Mais demorada
Um outro cenário também plausível, diz o especialista, é de retardamento do ritmo russo em função de uma resistência dos ucranianos, que têm auxílio com armas e consultoria dos Estados Unidos e da Otan. Isso não iria alterar fundamentalmente o resultado final em relação ao cenário anterior.
"Com a movimentação das batalhas para os centros urbanos, é difícil imaginar um cenário de rápido desfecho, sendo mais provável no momento que o conflito se estenda e se torne cada vez mais agudo e dramático para a população civil, com gravíssimas consequências humanitárias", dizem Carlos Frederico e o coronel Alexandre Moreira.
Os dois consideram que mesmo com a Rússia vitoriosa no campo de batalha, as perdas do país serão significativas: "A Rússia teve mais de uma centena de bilhões de dólares congelados de contas do seu Banco Central no exterior, além de enfrentar sanções econômicas e políticas sem precedentes para um país de sua estatura".
OTAN
Para Carmona, a chance de um erro por parte da Rússia que faça com que a Otan se envolva é muito baixa, mas, caso isso aconteça, o cenário é o de uma guerra termonuclear e “destruição mútua assegurada”, ou seja, uma guerra global que iria implicar destruições difíceis até mesmo de serem imaginadas.
QUANDO ACABA?
Após quatro encontros entre delegações da Rússia e da Ucrânia, além de outras conversas e mediações por líderes internacionais, os termos que a Rússia pôs em pauta como exigências para o fim da guerra foram: A Ucrânia tem que desistir de entrar na Otan; Desmilitarização da Ucrânia; Reconhecimento, pela Ucrânia, da anexação da Crimeia pelos russos; Reconhecimento da independência de Donetsk e Luhansk.
Nas últimas conversas, líderes dos dois países levantaram a possibilidade de se chegar a um acordo caso a Ucrânia adote o status neutro. Em contrapartida, a Ucrânia receberia garantias internacionais de segurança.
Essa possibilidade abrange os dois primeiros pontos mencionados acima. Sobre os reconhecimentos de territórios, o assunto não foi mais comentado pelos envolvidos nas negociações.
ECONOMIA RUSSA
Estados Unidos, União Europeia e outros países bloquearam a Rússia de partes importantes do mercado financeiro, provocando a pior crise econômica desde a queda da União Soviética, em 1991. Entre as principais decisões estã Retirada da Rússia do Swift, um sistema de operações bancárias fundamental para importações e exportações; Bloqueio de bens de bilionários russos que apoiam Putin; Encerramento das atividades de diversas empresas estrangeiras na Rússia como McDonald´s, Apple, Disney, Shell, Adidas, entre outras.
A Rússia também restringiu importação e exportação de bens e matérias-primas, o que reforça o isolamento do país, mas impacta outras economias. Segundo o FMI, os preços da energia e das matérias-primas dispararam e, quanto mais durar a guerra, mais as exportações ficarão comprometidas.
*Colaborou Luciano Nascimento