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Violência contra a mulher: 29% das mineiras não se reconhecem como vítimas, aponta pesquisa

Levantamento do DataSenado revela subnotificação e impactos que vão da renda aos estudos das vítimas em Minas Gerais

Publicado em 29/09/2026 às 20:41
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Três em cada dez mulheres de Minas Gerais passaram por alguma situação de violência nos últimos 12 meses, mas não se identificaram de forma espontânea como vítimas. O dado, que expõe a dimensão da subnotificação desse tipo de crime, faz parte de pesquisa do DataSenado divulgada nesta terça-feira (29/9).

O estudo aponta ainda que os efeitos da violência ultrapassam as agressões físicas e atingem áreas como trabalho, estudos e renda das mulheres afetadas.

Os resultados integram a 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, que entrevistou 21.641 brasileiras com 16 anos ou mais, entre maio e junho de 2025, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi incorporado ao Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência, pelo Instituto Natura e pela Gênero e Número, com o objetivo de olhar o problema para além das estatísticas oficiais.

Um dos pontos centrais é a diferença entre o reconhecimento espontâneo e o induzido. Em Minas, apenas 4% das entrevistadas responderam de imediato que já haviam sofrido violência doméstica ou familiar. Quando questionadas sobre situações específicas, esse índice subiu para 33%.

"Existe uma barreira anterior ao registro oficial, que é o reconhecimento da violência", avalia a superintendente do Instituto Natura, Maria Slemenson.

Segundo ela, sem esse reconhecimento, dificilmente a mulher busca ajuda. "Dessa forma, essa realidade não chega às estatísticas oficiais nem ao alcance das políticas públicas. A violência doméstica é muito associada apenas à agressão física, mas, em grande parte dos casos, ela se manifesta de forma menos visível", afirma.

Entre as mineiras que já sofreram violência praticada por um homem, 86% relataram violência psicológica e 81%, violência moral. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 16% foram insultadas por alguém do círculo íntimo ou familiar, 16% passaram por intimidação, como gritos ou objetos quebrados, e 15% foram humilhadas diante de outras pessoas.

A percepção sobre o problema também chama atenção. No Estado, 64% das mulheres conhecem alguém próximo que sofreu violência doméstica ou familiar, enquanto 66% acreditam que as vítimas denunciam na minoria das vezes. Além disso, 73% percebem aumento nos casos e o mesmo percentual considera o Brasil um país "muito machista".

O desconhecimento sobre mecanismos de proteção é outro obstáculo apontado. Entre as mineiras, 65% disseram conhecer pouco a Lei Maria da Penha, legislação que trata do enfrentamento à violência doméstica, e 11% afirmaram não saber nada sobre ela. Já 16% desconheciam as medidas protetivas.

"Os dados mostram que a porta de entrada da rede de proteção é conhecida, mas o direito que ela garante ainda não é", analisa Maria Slemenson.

Os impactos na vida das vítimas aparecem em diferentes esferas. Metade das entrevistadas relatou prejuízos na vida profissional e 37% apontaram efeitos nos estudos. Em Minas, 12% das vítimas precisaram continuar convivendo com o agressor, sendo que 59% desse grupo moravam com ele.

"A violência não termina quando a agressão acaba. Quando compromete o trabalho, a formação e o patrimônio, a violência reduz justamente as condições que permitiriam à mulher se sustentar e decidir sobre a própria vida", afirma a superintendente.

Entre as mulheres que encerraram o relacionamento, 82% disseram que a violência influenciou muito essa decisão. Para Maria Slemenson, o enfrentamento exige políticas amplas. "Por isso, enfrentar a violência exige ir além da resposta à agressão, com políticas que assegurem trabalho, renda e apoio para que a mulher possa sair dessa situação e reconstruir a vida com segurança", acrescenta.

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