Levantamento do DataSenado revela subnotificação e impactos que vão da renda aos estudos das vítimas em Minas Gerais
Três em cada dez mulheres de Minas Gerais passaram por alguma situação de violência nos últimos 12 meses, mas não se identificaram de forma espontânea como vítimas. O dado, que expõe a dimensão da subnotificação desse tipo de crime, faz parte de pesquisa do DataSenado divulgada nesta terça-feira (29/9).
O estudo aponta ainda que os efeitos da violência ultrapassam as agressões físicas e atingem áreas como trabalho, estudos e renda das mulheres afetadas.
Os resultados integram a 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, que entrevistou 21.641 brasileiras com 16 anos ou mais, entre maio e junho de 2025, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi incorporado ao Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência, pelo Instituto Natura e pela Gênero e Número, com o objetivo de olhar o problema para além das estatísticas oficiais.
Um dos pontos centrais é a diferença entre o reconhecimento espontâneo e o induzido. Em Minas, apenas 4% das entrevistadas responderam de imediato que já haviam sofrido violência doméstica ou familiar. Quando questionadas sobre situações específicas, esse índice subiu para 33%.
"Existe uma barreira anterior ao registro oficial, que é o reconhecimento da violência", avalia a superintendente do Instituto Natura, Maria Slemenson.
Segundo ela, sem esse reconhecimento, dificilmente a mulher busca ajuda. "Dessa forma, essa realidade não chega às estatísticas oficiais nem ao alcance das políticas públicas. A violência doméstica é muito associada apenas à agressão física, mas, em grande parte dos casos, ela se manifesta de forma menos visível", afirma.
Entre as mineiras que já sofreram violência praticada por um homem, 86% relataram violência psicológica e 81%, violência moral. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 16% foram insultadas por alguém do círculo íntimo ou familiar, 16% passaram por intimidação, como gritos ou objetos quebrados, e 15% foram humilhadas diante de outras pessoas.
A percepção sobre o problema também chama atenção. No Estado, 64% das mulheres conhecem alguém próximo que sofreu violência doméstica ou familiar, enquanto 66% acreditam que as vítimas denunciam na minoria das vezes. Além disso, 73% percebem aumento nos casos e o mesmo percentual considera o Brasil um país "muito machista".
O desconhecimento sobre mecanismos de proteção é outro obstáculo apontado. Entre as mineiras, 65% disseram conhecer pouco a Lei Maria da Penha, legislação que trata do enfrentamento à violência doméstica, e 11% afirmaram não saber nada sobre ela. Já 16% desconheciam as medidas protetivas.
"Os dados mostram que a porta de entrada da rede de proteção é conhecida, mas o direito que ela garante ainda não é", analisa Maria Slemenson.
Os impactos na vida das vítimas aparecem em diferentes esferas. Metade das entrevistadas relatou prejuízos na vida profissional e 37% apontaram efeitos nos estudos. Em Minas, 12% das vítimas precisaram continuar convivendo com o agressor, sendo que 59% desse grupo moravam com ele.
"A violência não termina quando a agressão acaba. Quando compromete o trabalho, a formação e o patrimônio, a violência reduz justamente as condições que permitiriam à mulher se sustentar e decidir sobre a própria vida", afirma a superintendente.
Entre as mulheres que encerraram o relacionamento, 82% disseram que a violência influenciou muito essa decisão. Para Maria Slemenson, o enfrentamento exige políticas amplas. "Por isso, enfrentar a violência exige ir além da resposta à agressão, com políticas que assegurem trabalho, renda e apoio para que a mulher possa sair dessa situação e reconstruir a vida com segurança", acrescenta.