Criminoso usou nome, foto e dados reais de processo para tentar obter informações bancárias; caso reforça alerta para contatos feitos por números desconhecidos
Uma tentativa de golpe do falso advogado registrada em Uberaba teve um detalhe inusitado: o criminoso se passou pelo advogado Jorge Alvim e enviou mensagens justamente para o próprio Jorge Alvim. O contato usava foto e identificação associadas ao profissional em aplicativo de mensagens, citou dados reais de um processo judicial e encaminhou um arquivo em PDF com aparência de alvará, na tentativa de dar credibilidade à abordagem.
Os dados do processo foram preservados a pedido do advogado, já que a ação judicial citada é real e envolve terceiros. Segundo prints encaminhados ao JM, o golpista afirmava estar acompanhando uma movimentação no sistema do Tribunal de Justiça e dizia que a causa teria tido resultado favorável.
Na sequência, o suspeito tentou conduzir o advogado para uma suposta audiência por videoconferência, alegando que a participação deveria ocorrer ainda no mesmo dia. Em seguida, passou a solicitar dados bancários, como agência, conta corrente, nome do banco e chave Pix, sob o argumento de que as informações seriam necessárias para cadastrar uma conta de recebimento.
A tentativa não avançou porque o alvo era justamente o profissional que estava sendo imitado. Ao perguntar quem fazia o contato, Jorge recebeu como resposta que se tratava do “advogado Jorge Alvim”. Depois de perceber a fraude, o próprio advogado ironizou a situação e questionou se o golpista pretendia “abrir franquias” do golpe. O suspeito respondeu com risadas e pediu desculpas.
Apesar do desfecho incomum, o modo de atuação é semelhante ao de golpes que têm feito vítimas em Uberaba desde o início do ano. Criminosos usam nomes, fotos e informações reais de advogados, escritórios e processos judiciais para convencer vítimas de que há valores a receber. A partir daí, pedem dados bancários, transferências via Pix ou participação em falsas audiências virtuais.
Em maio, o delegado Elinton Feitosa já havia alertado ao JM que o golpe do falso advogado está entre as fraudes frequentes em Uberaba. Segundo ele, criminosos usam dados de processos judiciais para prometer a liberação de valores mediante supostas taxas. Na ocasião, a Polícia Civil informou que a cidade já registrava cerca de 1.200 casos de estelionato em 2026. O delegado reforçou ainda que “não se paga para receber valores judiciais”.
Levantamento feito pelo JM em matérias publicadas desde janeiro mostra que os prejuízos ligados a golpes com falsos advogados, falsos escritórios, falsas audiências ou supostas liberações judiciais já passam de R$ 900 mil em Uberaba, considerando apenas casos com valores informados. Entre os registros estão vítimas que perderam R$ 179,2 mil, R$ 120,7 mil, R$ 84,4 mil e quase R$ 70 mil em abordagens semelhantes.
O avanço do golpe também levou a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) a lançar uma campanha nacional e uma plataforma de verificação contra a fraude. Segundo a entidade, criminosos têm usado indevidamente nomes, fotos e informações extraídas de processos judiciais para convencer vítimas a realizar pagamentos via Pix sob a justificativa de liberação de valores judiciais.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também alerta que, nesse tipo de golpe, o criminoso cria um perfil falso de um advogado regularmente inscrito na OAB, usa nome, imagem e informações profissionais reais e simula vitórias em ações judiciais para pedir dinheiro adiantado, geralmente por Pix. A entidade orienta que, diante de qualquer dúvida, a pessoa procure o advogado pelo contato que já possui e jamais faça pagamentos ou envie dados sob pressão.
O principal alerta para a população é desconfiar de qualquer abordagem feita por número desconhecido, mesmo que a foto, o nome e os dados do processo pareçam reais. Quem tem ação judicial em andamento deve confirmar qualquer informação diretamente com o advogado pelo telefone já salvo, pelo escritório ou por canais oficiais. Também é recomendado não enviar senhas, fotos de cartões, códigos, dados bancários ou chaves Pix antes de verificar a autenticidade do contato.
Caso a pessoa tenha feito transferência ou compartilhado dados, a orientação é acionar imediatamente o banco, registrar boletim de ocorrência e avisar o advogado verdadeiro para que ele também possa alertar outros clientes.