INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Montagens íntimas com IA chegam às escolas e desafiam famílias e autoridades em Uberaba

Caso registrado no município teve imagens falsas de adolescentes divulgadas em rede social e segue sob sigilo

Débora Meira
Publicado em 01/11/2026 às 09:05
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A criação de montagens íntimas com inteligência artificial (IA) envolvendo estudantes já foi alvo de investigação em Uberaba. Em maio deste ano, mães de alunos de uma escola municipal procuraram a Polícia Militar para denunciar a circulação de imagens sexualizadas falsas feitas a partir de fotografias de adolescentes. O caso foi encaminhado à Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), que instaurou procedimento para apurar os fatos. 

Conforme noticiado pelo JM Online em 30 de maio, as montagens teriam sido publicadas em um perfil de rede social. Segundo o boletim de ocorrência, um usuário anônimo também teria ameaçado divulgar novas imagens e utilizado informações pessoais dos estudantes. A investigação corre sob sigilo, em razão do envolvimento de menores de idade. 

Na ocasião, a delegada Mariana Pontes explicou que a ausência de nudez real não impede que uma montagem configure crime. A orientação da Polícia Civil foi preservar as provas, guardar mensagens e capturas de tela e apresentar os registros às autoridades, sem apagar o conteúdo que possa contribuir para a investigação. 

Em novo posicionamento ao JM Online, a Polícia Civil de Minas Gerais alertou que a criação ou a divulgação de imagens sexualizadas falsas envolvendo crianças e adolescentes pode configurar crime, conforme as circunstâncias e a legislação vigente. “Sobre novas denúncias e eventuais investigações em andamento, a instituição esclarece que as informações são sigilosas, em razão da natureza dos fatos, visando à proteção das vítimas e à preservação dos trabalhos investigativos”, informa a PCMG. 

Outro caso registrado na cidade envolve a exposição da intimidade de uma estudante por meio de um perfil falso em rede social. A ocorrência foi publicada pelo JM Online em agosto deste ano, depois que a adolescente denunciou a divulgação de informações falsas e depreciativas sobre sua vida pessoal. A reportagem não confirmou o uso de inteligência artificial nesse episódio, mas o registro integra o contexto mais amplo de violência e exposição de jovens no ambiente digital. 

Em maio, a Vigilância em Saúde de Uberaba também reforçou o alerta sobre a violência digital contra crianças e adolescentes. Entre as situações que exigem atenção estão ameaças, cyberbullying, exposição inadequada de imagens e abordagens de pessoas mal-intencionadas pela internet. (https://jmonline.com.br/cidade/vigilancia-de-saude-reforca-alerta-sobre-violencia-digital-contra-criancas-e-adolescentes-em-uberaba-1.625650  

O avanço de ferramentas de inteligência artificial amplia os desafios de prevenção porque permite produzir imagens sexualizadas falsas a partir de fotografias comuns, sem que a pessoa retratada tenha participado de qualquer situação de nudez. A circulação desse material pode provocar constrangimento, intimidação e danos à vida pessoal e escolar das vítimas. 

O problema também aparece em levantamentos nacionais sobre violência sexual e segurança digital. Segundo dados da SaferNet Brasil, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos recebeu 63.214 denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil em 2025, aumento de 19,3% em relação ao ano anterior. O dado se refere a denúncias desse tipo de conteúdo e não exclusivamente a imagens produzidas por inteligência artificial. 

Já o estudo Disrupting Harm in Brazil, elaborado pelo UNICEF Innocenti, pela ECPAT International e pela INTERPOL, apontou que 19% dos usuários de internet entre 12 e 17 anos entrevistados sofreram alguma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia em um período de um ano. Isso corresponde a aproximadamente três milhões de adolescentes. 

O levantamento também identificou dificuldades para revelar os episódios: 49% dos casos tinham como autor alguém conhecido pela vítima, enquanto 34% dos adolescentes não contaram a ninguém o que havia acontecido. Em 3% dos casos relatados, os participantes disseram que a inteligência artificial havia sido utilizada para criar conteúdo sexual com sua imagem. 

Os números mostram diferentes dimensões da violência sexual no ambiente digital, mas não devem ser interpretados como se todos os episódios envolvessem montagens feitas com IA. 

A orientação é preservar as evidências e procurar as autoridades, evitando compartilhar novamente o conteúdo, mesmo com a intenção de denunciar. Mensagens, links dos perfis envolvidos e capturas de tela podem ajudar na apuração, desde que sejam guardados de maneira a não ampliar a exposição da vítima. 

Quando a pessoa retratada é criança ou adolescente, o acolhimento também é fundamental. Familiares e responsáveis devem ouvir sem culpabilizar ou constranger a vítima, que pode ter medo ou vergonha de relatar o ocorrido. A apuração deve ficar a cargo das autoridades, sem exigir que a criança ou o adolescente investigue o caso por conta própria. 

A Polícia Civil reforça que a avaliação jurídica depende das circunstâncias de cada caso e que investigações envolvendo menores podem permanecer sob sigilo para preservar as vítimas e os procedimentos policiais. 

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