Auto de prisão em flagrante ao qual o Jornal da Manhã teve acesso aponta duas adolescentes como vítimas e registra a versão do docente, que atribui a conduta a uma tentativa de "incomodá-la fisicamente" para que participasse da aula

Suspeito sendo conduzido pela Guarda Civil Municipal à Delegacia de Polícia Civil (Foto/Divulgação)
O professor de educação física preso em flagrante na manhã de terça-feira (16) na Escola Municipal Boa Vista, em Uberaba, negou à autoridade policial qualquer intenção de natureza sexual, mas admitiu ter se sentado sobre uma aluna de 14 anos durante uma aula de queimada. A versão consta do Auto de Prisão em Flagrante Delito (APFD) ao qual o Jornal da Manhã teve acesso, que traz também as versões de vítimas e testemunhas do caso.
Segundo as declarações registradas no APFD, os fatos ocorreram durante uma aula iniciada por volta das 7h, com a turma do 9º ano do ensino fundamental II. Enquanto os demais estudantes participavam de uma atividade de queimada, duas alunas permaneceram sentadas em cadeiras ao lado da quadra. De acordo com os depoimentos convergentes das vítimas e das testemunhas, o professor se aproximou de uma delas, fez um comentário sobre o cabelo da estudante, afastou uma mesa que estava à sua frente e sentou-se em seu colo. A adolescente teria tentado empurrá-lo; o docente, então, jogou o tronco para trás, esfregou-se contra o corpo da aluna e proferiu expressões de cunho sexual, ao mesmo tempo em que virava o rosto na direção do rosto dela. A situação só teria sido interrompida quando um colega chegou à quadra e interpelou verbalmente o professor.
Minutos depois, ao final da mesma aula, quando os estudantes formavam fila para retornar à sala, o professor teria abordado por trás a segunda adolescente apontada como vítima, segurado seus ombros e encostado o próprio corpo no dela, incluindo as partes íntimas, sobre as roupas. O episódio não foi presenciado pelas demais testemunhas, mas é mencionado nos depoimentos das duas estudantes.
As declarações trazem ainda um terceiro elemento, anterior ao flagrante. Em meados de maio, durante a preparação para uma apresentação escolar de inglês em que as alunas se trocavam de roupa no banheiro feminino, o professor teria colocado a cabeça para dentro do recinto e pedido que uma das estudantes levantasse a blusa. O episódio é relatado de forma convergente pelas duas vítimas e por uma das testemunhas, e deverá ser objeto de apuração específica no curso do inquérito policial.
Ouvido na delegacia acompanhado de advogado, o professor — 44 anos, pós-graduado, com renda mensal informada de R$ 7 mil — negou qualquer intenção libidinosa. Confirmou ter sentado sobre o joelho da aluna durante a aula de educação física e afirmou que a conduta teve como propósito "incomodá-la fisicamente" para que ela se levantasse e participasse da atividade. Reconheceu que, em um segundo momento, voltou a sentar-se sobre a estudante e ali permaneceu por cerca de um minuto. Quanto à segunda vítima, negou qualquer contato físico. Atribuiu as acusações a uma suposta retaliação por parte dos estudantes envolvidos. No momento do atendimento da Guarda Civil Municipal na escola, por orientação da defesa, optou por não apresentar sua versão dos fatos aos agentes.
O acionamento da GCM partiu do padrasto de uma das vítimas. A direção da unidade escolar registrou em ata os depoimentos dos envolvidos antes da chegada da corporação, e as cópias foram anexadas ao boletim de ocorrência. O Conselho Tutelar, embora comunicado, não compareceu à escola para acompanhar a ocorrência, conforme consignado no documento.
A Secretaria Municipal de Educação informou, em nota divulgada na terça-feira, que afastou o professor de suas atividades assim que tomou conhecimento dos fatos e encaminhou o caso à Controladoria-Geral do Município. As famílias envolvidas e as turmas da escola serão acompanhadas pela Seção de Atendimento ao Educando da pasta, com psicólogos e assistentes sociais.