A violência contra a mulher continua sendo um desafio crescente em Uberaba. Dados apresentados pela delegada titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), Mariana Pontes, indicam aumento tanto das denúncias quanto das medidas de proteção concedidas às vítimas. Somente neste ano, o número de medidas protetivas expedidas já se aproxima de 700.
Em entrevista ao JM News, a delegada afirmou que a percepção de aumento dos casos é real. Segundo ela, além do crescimento das denúncias, a violência doméstica também tem se intensificado. “É um pouco dos dois. A violência é um fator progressivo e as denúncias também têm aumentado, o que é bom e importante para que a gente consiga evitar os feminicídios”, afirma.
Em 2025, a delegada havia informado uma média de 100 a 120 pedidos de medidas protetivas por mês em Uberaba. Neste ano, os números já demonstram avanço. No início de maio, o município contabilizava 530 medidas protetivas expedidas e, segundo ela, o total já deve estar próximo de 700 neste mês de junho.
As prisões em flagrante por violência doméstica também registram crescimento. De acordo com Mariana Pontes, a cidade chegou a registrar semanas com 15 ou 16 prisões em flagrante, número considerado elevado.
Apesar do aumento das denúncias, um dado chama atenção das autoridades: a maior parte das vítimas de feminicídio nunca procurou ajuda antes de ser assassinada. “Por incrível que pareça, a maioria das vítimas de feminicídio nunca procurou a rede. As que não denunciam e não procuram ajuda são justamente as que acabam chegando ao feminicídio”, alerta.
Segundo a delegada, quando a mulher busca atendimento, passa a contar com uma estrutura formada por Polícia Civil, assistência social, atendimento psicológico, medidas protetivas e outros mecanismos de acolhimento. O problema é que muitas vítimas não conseguem romper o ciclo da violência.
Entre os principais fatores apontados estão a dependência financeira, a dependência emocional e a ausência de uma rede de apoio familiar ou social. “Muitas têm dependência financeira ou afetiva. A mulher que tem rede de apoio consegue sair mais facilmente do ciclo da violência. Já quem não tem acaba permanecendo naquela situação por muito tempo”, explica.
A delegada destacou ainda que a dependência emocional costuma ser um dos obstáculos mais difíceis de superar. Segundo ela, muitas mulheres sequer reconhecem que estão vivendo uma relação abusiva. “Nem sempre a violência deixa marcas físicas. Controle sobre roupas, amizades, redes sociais e celular também configura violência psicológica”, ressalta.
Outro dado destacado por Mariana é que, até o momento, Uberaba não registrou casos de feminicídio envolvendo mulheres que estavam sob medida protetiva vigente. Para ela, isso demonstra a importância de procurar ajuda antes que a violência evolua.
A orientação é que as vítimas busquem apoio assim que perceberem qualquer situação de violência. Além da Delegacia da Mulher, a cidade conta com uma rede formada por Centro de Referência da Mulher, Creas, Cras, Hospital de Clínicas da UFTM e outros serviços especializados. “A vítima não precisa procurar a delegacia apenas para denunciar. Ela pode ir buscar informação. O importante é acessar a rede e conhecer os caminhos de proteção disponíveis”, conclui a delegada.