Foto/Jairo Chagas
Em visita ao Triângulo Mineiro neste fim de semana, o pré-candidato à Presidência da República, Ciro Gomes (PDT), passou por Uberaba para reunião com apoiadores e teceu diversas críticas aos adversários na corrida presidencial.
Falando com exclusividade ao Jornal da Manhã, o pedetista avaliou o resultado das pesquisas que apontam novamente uma disputa polarizada este ano e minimizou o impacto da participação no pleito do ex-juiz Sérgio Moro (Pode) - a quem chamou de inimigo da República.
Na conversa, Ciro também questionou a motivação por trás da operação da Polícia Federal deflagrada contra ele no fim do ano passado, pouco antes do anúncio oficial da pré-candidatura pelo PDT.
Jornal da Manhã - Por enquanto, as pesquisas mostram uma polarização entre Bolsonaro e Lula com os nomes do senhor e do ex-juiz Sérgio Moro bem atrás. Como encara esse cenário?
Ciro Gomes - Com muita tranquilidade, com muita humildade e com muita fé de que o povo brasileiro apenas agora vai começar a se ligar gradualmente no assunto eleição. Eu estou nessa estrada há bastante tempo e assim eu não brigo contra pesquisa. Pesquisa é como a gente chama um retrato e a vida não é retrato. A vida é filme. Então, se você pegar as pesquisas de opinião pública do Brasil na última eleição presidencial em 2018, nesta data de fevereiro, ninguém dava a menor bola para o cidadão chamado Jair Messias Bolsonaro. Até havia uma certa arrogância, uma certa empáfia, entre todos nós dizend “O Bolsonaro não é ninguém”. Aí lá se vão as pesquisas para a lata do lixo e o Bolsonaro é o presidente do Brasil. 70% do povo de Minas Gerais votou no Bolsonaro. Por quê? Foi pela obra do Bolsonaro? Pela proposta do Bolsonaro? Não. Foi naquela data o protesto do nosso povo. O povo estava ofendido com a maior crise econômica da história, que o PT produziu, e com a maior corrupção desvendada pela Lava-Jato, operação que acabou trocando os pés pelas mãos quando o ex-juiz Sérgio Moro resolveu virar um político. Então, o que quero dizer é que a gente tem que ter humildade, paciência e apostar naquilo que é a inteligência do povo.
JM - A colocação do nome do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro na disputa atrapalhou seus projetos de se apresentar como terceira via?
Ciro - Não, em nada! Você vai ver que isso é um meteoro, como esses que já surgiram no passado. Moro é uma figura que a gente não pode tratar como se fosse um adversário político. O Moro é um inimigo do povo, é um inimigo da República. Quando um juiz usa o poder da toga para perseguir adversário político e vira Ministro do político que ganhou as eleições porque o político ele prendeu não pode mais participar da eleição, isso fere a democracia de morte. A suposição nossa é de que o juiz tem que ser isento, não pode ter paixão política e não pode ter partidarismo. Mas o pior é que ele vai se corrompendo quando ele sai do governo e vai trabalhar numa multinacional americana. Ele ganhou uma fortuna de R$ 3,6 milhões em 11 meses. E onde? No único lugar que um homem sério não podia ir trabalhar se saísse da magistratura: que é a firma americana que administra a massa falida das empresas que ele quebrou. É um inimigo da República e nós temos que enfrentá-lo como tal. Ele não representa ameaça nenhuma. É um meteoro que vai passar e vai queimar rapidamente.
JM - O senhor tem feito críticas ao Bolsonaro e tem feito críticas ao Lula. O fato de ter participado do governo do PT não enfraquece o discurso? Isso não será atacado pelos seus adversários na campanha?
Ciro - Pode, é claro. Agora eu também ajudei a fazer o plano real porque eu estou na política brasileira não é por carreira. Sabe qual foi meu último mandato? O deputado federal mais votado do Brasil. Nunca perdi uma eleição na minha comunidade, que é o Ceará. Temos lá a melhor educação pública do Brasil, temos o maior investimento público do país, a melhor rede pública de saúde do Brasil e somos um estado muito pobre. Por que eu ganho as eleições lá? Porque as pessoas me conhecem sem esses filtros, de bolhas, de críticas, de preconceitos, etc. Eu tenho como responder [aos ataques por ter sido ministro no governo do PT]. Eu fui candidato em 98 contra Lula e contra o PSDB. Depois eu fui candidato em 2002 contra o Lula e contra o PSDB, que era a dicotomia. Já em 2018, fui candidato contra a farsa mentirosa que o Lula produziu de dizer que era candidato, enganando o povo e depois lançando o Fernando Haddad para perder para o Bolsonaro, porque todas as pesquisas mostravam que só eu ganharia. Eu sou quem eu sou. Tenho uma linha de coerência. Uma vez candidato derrotado, eu fui chamado no segundo turno para tomar um lado do lado.
JM - E não tomou um lado em 2018, né?
Ciro - Eu tomei um lado [...] Votar, eu voltei. Ele [Lula] está mentindo que eu não votei. Eu votei contra o Bolsonaro. Só que eu não ando nunca mais fazendo campanha com bandido e nem com quadrilheiro, seja de que lado for. Nunca mais!
JM - Em 2018, falaram que o senhor acabou isolado na disputa eleitoral e muitas análises apontam que isso pode acontecer de novo. O senhor tem receio de acabar sem alianças com outros partidos, afinal isso significa menos tempo de televisão na campanha?
Ciro - Não, não tenho medo nenhum de ser isolado porque faz parte da luta. Se você olhar o salto alto do Lula e as contradições que o Lula faz… Ele diz que houve um golpe no país e se agarra com os golpistas Renan Calheiros e Romero Jucá. Ele dizia que o PSDB era a encarnação do mal durante 30 anos e agora abraça o Alckmin sem nenhuma autocrítica, sem nenhuma razão estratégica a não ser essa mentira que a tarefa hoje é unir todo mundo para derrotar o Bolsonaro. Nós temos duas tarefas. Uma delas é derrotar o Bolsonaro nas eleições, mas a tarefa mais séria é botar alguma coisa no lugar da terra arrasada, do desemprego em massa e da inadimplência que foi produzida por Lula e pelo PT. Este é o debate que eu quero fazer e eles vão fazer o diabo para me calar. Eu estou viajando e percorrendo cidades para procurar humildemente o povo. Não posso ir para luta queixando que as armas do adversário são mais poderosas do que as minhas.
JM - Mas o PDT tem alguma aliança na manga?
Ciro - Eu estou trabalhando muito obstinadamente. Estive em Belo Horizonte e Contagem, onde tomei um café com a prefeita Marília, do PT, que me convidou e me recebeu com a maior gentileza. Depois fui ao Alexandre Kalil, do PSD. Enfim, eu estou fazendo essa tentativa de dialogar porque a construção é feita assim. Vamos tomar um exemplo prático. O Lula está dizendo que já ganhou e toda pesquisa diz que o homem é o maioral, mas qual é a aliança que o Lula fez até o presente momento? Pelo contrário, o Lula está despedaçando o PSB, o Lula está destruindo o PSOL e acabou com o PCdoB - um partido com 70 anos de história. O PDT vai resistir. Não interessa se o vento é a favor ou contra.
JM - Pouco antes do anúncio oficial da sua pré-candidatura, o senhor foi alvo de uma operação da Polícia Federal por supostos desvios em obra de um estádio no Ceará. A situação trouxe um desgaste para o início do projeto?
Ciro - Eu recebi [a situação] com muita indignação. Imediatamente, fui para a imprensa e me coloquei à disposição para ser escrutinado porque sou um homem limpo. Nunca, em 40 anos de vida pública, sofri qualquer tipo de acusação. Como hoje ainda não tem acusação. O que é mais chocante no Brasil é iss é o Morismo e o Bolsonarismo de pegar um pedaço da Polícia Federal, inventar uma coisa e dizer que estão investigando sem acusar ninguém e que não encontraram nada errado. Tudo bem, mas aí o escândalo já foi feito.
JM - O senhor acredita então que a ação foi orquestrada pelos adversários?
Ciro - Eu tenho certeza absoluta. Disse na cara do delegado que ele inventou uma acusação caluniosa contra um homem de bem, pois nunca cometi ilícito na minha vida. Eu disse que ele era um delegado arbitrário, um bolsonarista fanático e que trai a respeitabilidade que merece a Polícia Federal.