EDUCAÇÃO

Brasil reduz distância no desempenho escolar, mas Uberaba ainda trava nos anos finais

Avaliação internacional coloca país no meio da América Latina, abaixo de Chile e Uruguai; em Uberaba, alfabetização avança, mas Ideb municipal segue sem melhora nos anos finais desde 2021

Larissa Prata
Publicado em 08/09/2026 às 09:32Atualizado em 08/09/2026 às 10:51
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País reduziu lacuna para países ricos em 20 anos, embora desempenho esteja praticamente estagnado há uma década; na rede municipal, alfabetização avança, mas fluência leitora e anos finais ainda preocupam (Foto/Divulgação)

O Brasil reduziu, ao longo de quase duas décadas, a distância que o separa de sistemas educacionais mais avançados, mas o resultado mais recente está longe de colocar o país entre os melhores. Em ciências, por exemplo, o desempenho dos adolescentes brasileiros está estatisticamente no mesmo patamar de México, Colômbia e Peru, abaixo de Chile e Uruguai e muito distante dos líderes mundiais. A comparação ajuda a dar dimensão aos números divulgados nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e mostra que a aproximação registrada ao longo dos anos não significa que a aprendizagem brasileira esteja avançando no mesmo ritmo.

Os dados são do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que mede o que jovens de 15 anos conseguem fazer com os conhecimentos adquiridos em ciências, leitura e matemática. Na edição de 2025, o Brasil alcançou 409 pontos em ciências, 408 em leitura e 377 em matemática. A média dos países da OCDE ficou em 482, 461 e 463 pontos, respectivamente. A avaliação envolveu 91 países e economias e, no caso brasileiro, é coordenada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Os resultados completos estão no relatório divulgado pela OCDE.

O resultado ganha outro significado quando comparado com países mais próximos da realidade brasileira. Em ciências, principal área avaliada neste ciclo, o Brasil ficou com 409 pontos. México e Colômbia alcançaram 414, enquanto o Peru registrou 406. A diferença entre esses países e o Brasil é pequena a ponto de a própria OCDE considerar os resultados estatisticamente equivalentes. Na América Latina, ficaram claramente acima Uruguai, com 445 pontos; Chile, com 442; e Costa Rica, com 424. Abaixo do Brasil aparecem Argentina e Equador, ambos com 393, além de El Salvador, República Dominicana, Paraguai e Guatemala. Considerando os 13 países latino-americanos participantes, portanto, o Brasil está no meio da distribuição, e não próximo da liderança regional.

Em leitura, o desempenho relativo é um pouco melhor. Os 408 pontos brasileiros são exatamente a mesma média obtida pelo México, mas ficam abaixo de Chile, com 436, Uruguai, com 423, e Costa Rica, com 416. Colômbia registrou 399, Peru 390 e Argentina 389. Matemática expõe o maior gargalo: com 377 pontos, o Brasil ficou atrás de seis dos 12 vizinhos latino-americanos na comparação — Uruguai, Chile, México, Costa Rica, Peru e Colômbia — e à frente de Argentina, Equador, El Salvador, República Dominicana, Paraguai e Guatemala. Os resultados completos de cada sistema estão reunidos pela OCDE na tabela comparativa do Pisa 2025.

A distância para o topo mundial é bem maior. O conjunto formado por Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, na China, alcançou 597 pontos em ciências e 612 em matemática; Singapura chegou a 560 e 563, respectivamente, e liderou leitura com 535 pontos. Japão, Estônia e Coreia também aparecem entre os sistemas de maior desempenho. O Brasil, ao mesmo tempo, está longe da outra ponta da avaliação: Ruanda teve 317 pontos em ciências, Quênia 335 e Zâmbia 337. O retrato, portanto, não é de um país entre os últimos colocados, mas de um sistema educacional que permanece num bloco de desempenho baixo e bastante distante tanto da média da OCDE quanto dos países que conseguem produzir os melhores resultados.

Essa diferença aparece de forma ainda mais concreta quando se observa o que os estudantes são capazes de fazer, em vez de apenas comparar pontuações. Somente 28% dos adolescentes brasileiros atingiram pelo menos o nível básico de proficiência em matemática, diante de 65% na média da OCDE. Em leitura, 49% chegaram ao patamar mínimo, contra 69% nos países da organização; em ciências, foram 48%, diante de 74%. Em sentido inverso, isso significa que 72% dos brasileiros avaliados estão abaixo do nível básico em matemática e aproximadamente metade não chega ao mínimo esperado em leitura e ciências. A nota específica sobre o desempenho brasileiro foi publicada pela OCDE junto com os resultados desta terça-feira.

Distância caiu, mas Brasil está praticamente parado há uma década

É nesse cenário que deve ser lida a principal notícia positiva do Pisa 2025. Para verificar a evolução de longo prazo sem que mudanças no conjunto de participantes distorçam a comparação, a análise histórica utiliza um grupo fixo de 23 países da OCDE com dados comparáveis ao longo das edições. Foi em relação a esse grupo que a diferença brasileira diminuiu nas últimas duas décadas.

Em leitura, a distância caiu de 102 pontos em 2006 para 58 em 2025. Em matemática, passou de 131 para 92 pontos e, em ciências, de 113 para 77. É uma aproximação relevante, mas há uma diferença entre dizer que o Brasil está mais perto e concluir que o país vem avançando rapidamente. A série mostra justamente o contrário no período recente: a própria OCDE afirma que o desempenho brasileiro está praticamente estável há mais de uma década, com resultados próximos do mesmo nível em todas as avaliações realizadas desde 2015. A comparação histórica que deu origem à divulgação desta terça-feira também foi detalhada pela Agência Brasil.

Entre 2022 e 2025, por exemplo, leitura passou de 410 para 408 pontos e matemática de 379 para 377, enquanto ciências subiu de 403 para 409. As variações mantiveram o país essencialmente no mesmo patamar. Parte da redução da distância histórica ocorreu porque quem estava à frente também recuou: o Pisa 2025 registrou os menores resultados médios já observados entre os países da OCDE nas três áreas centrais. Entre 2015 e 2025, a média da organização caiu de 489 para 461 pontos em leitura e de 485 para 463 em matemática; em ciências, passou de 489 para 482. A OCDE ressalta que a deterioração começou antes da pandemia em muitos sistemas educacionais.

Assim, duas afirmações aparentemente contraditórias estão corretas: o Brasil diminuiu a distância para países que historicamente tiveram desempenho muito superior, mas não conseguiu produzir uma melhora consistente nos últimos dez anos. A aproximação aconteceu tanto por ganhos acumulados anteriormente quanto pela piora recente de parte dos sistemas usados como referência.

Os dados brasileiros ainda revelam desigualdades que a média nacional esconde. Em ciências, os 25% dos estudantes em situação socioeconômica mais favorecida tiveram desempenho 96 pontos maior que o quarto mais desfavorecido da população estudantil, acima da diferença média de 85 pontos verificada na OCDE. Também chama atenção a frequência escolar: 55% dos estudantes brasileiros disseram ter faltado pelo menos um dia de aula nas duas semanas anteriores à prova, ante 22% na média dos países da organização; 53% relataram ter perdido ao menos uma aula no mesmo período. Os dados constam da análise específica do Brasil publicada pela OCDE.

Uberaba avança no começo, mas perde fôlego nos anos finais

O Pisa não produz um resultado municipal que permita afirmar como os adolescentes de Uberaba se sairiam diante de estudantes do Chile, México ou Japão. Também não seria correto comparar diretamente sua pontuação com o Ideb ou com os indicadores de alfabetização usados no município, porque as avaliações medem habilidades, etapas escolares e grupos de estudantes diferentes. Os dados locais, porém, ajudam a observar como a aprendizagem se comporta ao longo da trajetória escolar — e o retrato mais recente mostra avanço na entrada do Ensino Fundamental sem evolução equivalente nos anos posteriores.

No início dessa trajetória, Uberaba melhorou. O Indicador Criança Alfabetizada (ICA) passou de aproximadamente 46% das crianças alfabetizadas ao fim do 2º ano em 2023 para 58% em 2024 e 61% em 2025, acumulando avanço de 15 pontos percentuais em dois anos. O ritmo, porém, diminuiu no intervalo mais recente: foram 12 pontos de crescimento no primeiro ano e apenas três no seguinte. Além disso, Uberaba permanece abaixo do resultado nacional, de 66%, e sobretudo de Minas Gerais, que chegou a 74% em 2025. O JM Online mostrou em agosto que a própria política municipal estabelece como metas 62% neste ano, 65% em 2027 e 70% em 2028 — percentual que o Estado já havia ultrapassado três anos antes. O Inep mantém a metodologia e os resultados oficiais do Indicador Criança Alfabetizada em sua página de avaliação da alfabetização.

O próprio diagnóstico municipal mostra que alfabetização e domínio da leitura ainda não caminham no mesmo ritmo para todas as crianças. Dos 2.056 estudantes do 2º ano avaliados em 2025, 497 foram classificados como leitores fluentes, o equivalente a 24%. Esse percentual não pode ser comparado diretamente aos 61% do ICA: fluência leitora é uma avaliação específica da capacidade de ler oralmente com ritmo, precisão e compreensão, enquanto o indicador nacional considera um conjunto mais amplo de habilidades de leitura e escrita. Portanto, o dado não significa que apenas 24% estejam alfabetizados; indica que a consolidação da leitura ainda representa uma dificuldade para parcela expressiva dos alunos. O levantamento foi detalhado pelo JM na mesma análise sobre a política municipal de alfabetização.

A perda de fôlego aparece com mais clareza no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Nos anos iniciais, a rede municipal avançou de 5,6 em 2023 para 5,8 em 2025. Nos anos finais, contudo, ficou novamente em 5,0, mesma nota registrada desde 2021. A diferença em relação às escolas estaduais localizadas no município também aumentou: a rede estadual passou de 6,0 para 6,4 nos anos iniciais e de 4,7 para 5,3 nos anos finais entre 2023 e 2025. Considerando todas as escolas públicas, Uberaba chegou a 6,0 nos anos iniciais, seu melhor resultado da série histórica, mas o avanço foi puxado pelo desempenho estadual. Os números foram detalhados pelo JM Online e podem ser conferidos na base oficial do Ideb 2025, disponibilizada pelo Inep.

Os indicadores não permitem traçar uma linha direta entre a criança alfabetizada hoje em Uberaba e o adolescente brasileiro avaliado pelo Pisa aos 15 anos. São gerações, avaliações e metodologias diferentes. Mas, observados em conjunto e respeitados esses limites, apontam para uma preocupação comum: garantir a aprendizagem no começo da escolarização não basta se o avanço não continuar nos anos seguintes. Uberaba conseguiu melhorar seus indicadores de alfabetização e dos anos iniciais, enquanto os anos finais da rede municipal estão parados há três edições do Ideb. No retrato nacional, alguns anos depois dessa etapa, sete em cada dez adolescentes avaliados pelo Pisa ainda chegam aos 15 anos sem o nível básico de matemática e cerca de metade fica abaixo do mínimo em leitura e ciências.

A nova avaliação internacional mostra, portanto, uma posição menos simples do que a manchete de que o Brasil “encurtou a distância” poderia sugerir. O país está no meio do caminho entre seus pares latino-americanos, muito longe dos sistemas educacionais de melhor desempenho e praticamente estagnado há uma década. Em Uberaba, o desafio aparece em escala local: a aprendizagem começa a reagir, mas ainda não consegue avançar com a mesma força até os últimos anos do Ensino Fundamental.

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