POLÍTICA

Estrela caída: a perda de relevância de Lula e os desafios do PT

Larissa Prata
lpciabotti@gmail.com
Publicado em 04/06/2020 às 08:14Atualizado em 18/12/2022 às 06:50
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Já é sedimentada a conclusão de que a relevância e popularidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva eram muito maiores enquanto ele estava preso, condenado por corrupção. Sem a bandeira do “Lula Livre”, o ex-presidente tem caído cada dia mais no ostracismo e essa situação absolutamente morna e esquecível parece ter sido percebida por todos, menos pelo próprio Luiz Inácio. Preso, Lula levantava a bandeira de perseguido político e não poupava uma oportunidade sequer de ser martirizado - nem ele, nem o Partido dos Trabalhadores (PT).

Solto, a história mudou. Pouco se ouve sobre o ex-presidente, mesmo quando ele busca holofotes em uma espécie de “grito do excluído”, como bem pontuou a jornalista Dora Kramer. Nem a fofura extrema de seu cão, chamado Resistência, atrai o interesse público para suas lives, que quando reúnem muitos espectadores, chega a quase mil - a mais recente pouco passou de 100. O fato é que Lula deixou de ser “o cara”, como foi titulado pelo ex-presidente norte-americano, Barack Obama, e viu serem frustrados os planos de ser carregado nos braços do povo ao deixar o cárcere, levando a oposição de volta ao protagonismo das grandes discussões nacionais. Isso não só não aconteceu, como correu em direção contrária, não deixando dúvidas de que o poder pode ser inebriante, efêmero e devastador, tudo ao mesmo tempo.

Mas não consegue desencarnar da figura de primeiro operário a se eleger presidente, o líder convicto do maior partido de esquerda do continente. Luiz Inácio não é mais presidente e a bandeira de perseguição política se esvazia em ritmo acelerado. Além disso, o PT se afasta cada vez mais da relevância partidária que um dia teve, além de ter perdido a condição de maior partido de esquerda do continente. Até porque um ingrediente especial nessa sopa amarga é protagonizado pelo próprio Luiz Ináci ele se recusa a deixar o PT ir em frente sem ele na posição de estrela-mor.

Não deveria, mas surpreende o fato de Lula se recusar a assinar qualquer um dos numerosos manifestos em defesa de ideais democráticos, cujo propósito é reunir signatários sem distinção partidária, social, ideológica ou profissional.

O argumento do ex-presidente é frágil: os documentos não fazem referência “aos direitos dos trabalhadores”. De fato, a referência é aos direitos gerais de cidadãos brasileiros de viver em uma democracia plena. Mas a confusão não é inocente, Lula entende exatamente o propósito de tais manifestos. O real motivo para seus pedidos de incluí-lo fora dessa é quando ele diz que está muito velho para ser “maria-vai-com-as-outras” o que lhe dá o direito de não compartilhar ações com “determinadas pessoas”.

Mesmo que não seja preso novamente, o que seria uma espécie de desmoralização da Justiça, Lula não pode mais ser candidato a nada, porque virou ficha suja. A propósito, a Lei da Ficha Limpa, promulgada em seu governo, completa agora dez anos e o ex-presidente se viu na condição de vítima de seu próprio veneno. Quando Lula finalmente puder voltar a ser candidato, ele já terá mais de 80 anos.

E perder o status de líder não lhe parece uma opção - tampouco nunca lhe foi uma possibilidade a ser cogitada. Lula jamais deixou que outros nomes do PT se tornassem figurões a ponto de sucedê-lo e manteve todos nomes populares do partido sempre à sua sombra. O comportamento não mudou, mesmo com o passar dos anos e todos os acontecimentos que marcam sua trajetória. Agora isso começou a deixar uma ala do PT bastante desconfortável e irritada com as ingerências do seu líder emérito.

Mas o comportamento separatista de Lula de tudo que não o tem como protagonista não é novidade para quem tem memória. Foi assim quando negou voto a Tancredo Neves em 1985, quando se recusou a assinar a Constituição de 1988 (acabou recuando depois), quando repudiou participar da coalizão na transição de Itamar Franco, e quando negou o Plano Real. Em nenhuma delas teve sucesso.

A relevância de Lula diminui cada dia mais e se o PT não conseguir entender isso está condenado ao mesmo destino de seu criador.

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