Ministro da Saúde elevou o tom do desentendimento com o presidente Jair Bolsonaro, a quem 'fritou' durante aquela que pode ser a última coletiva comandada por ele

Luiz Henrique Mandetta comandou na tarde de ontem (15) a provável última coletiva como ministro da Saúde. O tom era de despedida e Mandetta não fez questão de escancarar - mais uma vez - as diferenças com o presidente Jair Bolsonaro, assumindo papel nunca visto no Brasil: o de fritador do chefe do Executivo.
Durante quase duas horas ao vivo, o ainda ministro explicou sua saída da pasta porque “o presidente quer outra posição do Ministério da Saúde” que ele “não pode dar porque trabalha com base na Ciência”. Mandetta ainda alfinetou Bolsonaro por diversas vezes, falando, inclusive, que escolheu sua equipe por currículo, com base na Ciência, mesmo sofrendo pressões para demitir “uns e outros”.
Ainda provocativo, Mandetta continuou o discurso apimentado, dizendo que o importante para seu substituto é que “tenha a confiança do presidente e que tenha condições de trabalhar com base na Ciência”. Assim que a coletiva terminou, Mandetta concedeu entrevista à repórter Roberta Paduan, da revista VEJA, onde chegou a se referir a Bolsonaro como “o camarada”, expondo-o dessa maneira. Já que vai sair, prefere sair atirando e não se limitou a ferir o presidente de raspã preferiu feri-lo gravemente.
“Sessenta dias tendo de medir palavras. Você conversa hoje, a pessoa entende, diz que concorda, depois muda de ideia e fala tudo diferente. Você vai, conversa, parece que está tudo acertado e, em seguida, o camarada muda o discurso de novo. Já chega, né? Já ajudamos bastante”, disse o ministro.
Questionado sobre possível arrependimento por ter entrado no governo Bolsonaro, Mandetta foi enfático. “Não. De jeito nenhum. Não me arrependo de nada”, disse, deixando a cargo da imaginação do leitor como ele estaria saindo do governo se estivesse arrependido.
Mandetta revelou ainda não saber o que vai fazer após deixar o cargo, mas negou ida para o governo de Goiás, com o governador Ronaldo Caiado. “Não tem nada disso. Eu posso ajudar lá informalmente, como posso ajudar qualquer outro governo ou prefeitura”.
Por fim, o ministro disse não saber quem será seu substituto. “Mas nós vamos ajudar quem entrar, se quiser nossa ajuda. A gente tem compromisso com o país. Aqui é tudo marinheiro antigo, não tem principiante, ninguém vai torcer contra”, finalizou Mandetta.
O mais cotado para assumir o posto é o oncologista Nelson Teich, que defende o isolamento horizontal como forma de conter os avanços da pandemia da Covid-19, discordando com a postura de Bolsonaro no chamado isolamento vertical.
Formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Nelson Teich foi consultor informal para a área de saúde na equipe do presidente Jair Bolsonaro durante a campanha de 2018. Fundador e presidente do grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI), ele também assessorou o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, de setembro de 2019 a janeiro de 2020.
*Com informações da revista Veja.