Especial reúne vozes do Legislativo e do Executivo e mostra como a presença feminina transforma agendas e prioridades locais
Mulheres que fazem história na política de Uberaba: a prefeita Elisa Araújo e as vereadoras Rochelle Gutierrez, Ellen Miziara, Denise Max e Luciene Fachinelli representam o avanço da presença feminina nos espaços de poder no município. (Foto/Montagem)
A presença feminina nos espaços de poder ainda é um desafio no Brasil, mas em Uberaba esse debate ganhou contornos históricos. Com quatro vereadoras no Legislativo e a primeira prefeita eleita em mais de 200 anos, a cidade vive um momento simbólico de ampliação da representatividade. Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o Jornal da Manhã, em parceria com a Câmara Municipal de Uberaba, destaca mulheres que fazem a diferença na política local. Mais do que ocupar cadeiras, essas lideranças têm pautado debates e estruturado políticas públicas, reforçando que a política local também é território feminino, ainda que enfrente barreiras culturais e estruturais.
No cenário nacional, as mulheres são maioria da população, mas seguem sub-representadas nos parlamentos, mesmo após a política de cotas. Em Uberaba, o histórico também escancara a desigualdade. A vereadora Rochelle Gutierrez (PDT) lembra que, desde a eleição de Helena de Brito, na década de 1950, apenas 10 mulheres ocuparam cadeiras no Legislativo, somando cerca de 15 mandatos, enquanto os homens ultrapassam 700.
“Se você pegar isso em quantidade de mandatos, vai ver o quanto as mulheres ainda estão longe desse espaço da política. A gente já conquistou avanços, como a sala de amamentação e o fraldário na Câmara, mas eles vieram depois da chegada de mulheres aqui, e ainda enfrentamos desafios desde a candidatura até a permanência”, afirma Rochelle. De volta da licença-maternidade, ela relata que a experiência de gestar e utilizar o SUS durante o pré-natal ampliou seu olhar para políticas públicas, especialmente para gestantes e crianças, reforçando que “uma cidade boa para as crianças é uma cidade boa para todo mundo”.
Na atual legislatura, a vereadora Ellen Miziara (PL) avalia que a participação das mulheres melhorou, mas pondera que o caminho vai além das cotas. “A mulher precisa entender que é muito mais do que uma cota. Ela tem vocação, ideias, valores e todo o direito de defender aquilo em que acredita”, afirma. Mais votada na última eleição municipal e presidente do PL Mulher em Minas Gerais, ela defende formação política e incentivo a lideranças comunitárias: “Muitas mulheres têm liderança nas suas comunidades, têm boas ideias e vontade de participar, mas muitas vezes não conhecem o funcionamento da política e acabam se sentindo inseguras para dar esse passo. Por isso é importante criar espaços de capacitação, diálogo e orientação, para que elas possam entender melhor como funciona a política e como transformar suas causas em ações concretas para a sociedade”, explica.
A vereadora Luciene Fachinelli (União Brasil) também reconhece avanços, mas destaca desafios internos e externos para consolidar a presença feminina. “Somos capazes de romper barreiras, porém o maior desafio é conquistar a confiança de quem mais nos representa: as mulheres”, afirma. Atuante em pautas estruturais do município, historicamente associadas ao universo masculino, ela reforça que a política não deve ser vista como um “campo dos homens” e que a presença feminina amplia o olhar sobre as necessidades coletivas. “Quando cuidamos de uma mulher, cuidamos da família”, resume, defendendo a força da Bancada Feminina na atual legislatura.
Já Denise Max (PRD), com mais de três décadas dedicadas à causa animal, avalia que a presença feminina amplia o olhar sobre políticas públicas e contribui para priorizar temas como saúde, educação, proteção social e bem-estar coletivo. “Temos um olhar mais atento às necessidades da população e transformamos essa sensibilidade em políticas concretas”, diz, ao citar conquistas como o fim da “carrocinha”, a criação do Parcão e a ampliação das castrações, além de avanços como a Delegacia da Mulher e o Centro Dia para Idosos.
À frente do Executivo, a prefeita Elisa Araújo (PSD) carrega o marco de ser a primeira mulher eleita para governar Uberaba em dois séculos. “Essa conquista não é apenas minha, ela representa cada mãe que concilia trabalho e família e cada profissional que precisou provar o dobro para ser reconhecida”, declara. Em sua gestão, ela afirma ter ampliado a presença feminina em secretarias estratégicas e implantado políticas como a Patrulha Maria da Penha, a Casa-Abrigo para mulheres em situação de risco e o fortalecimento do Centro Integrado da Mulher. Para Elisa, “a presença de mulheres na liderança amplia o olhar da gestão pública”, fortalece a inclusão e qualifica o debate.
Entre desafios históricos e avanços concretos, Uberaba constrói um novo capítulo na política local. Se a sub-representação feminina ainda é uma realidade, a atuação das vereadoras e da prefeita evidencia que ocupar espaços de decisão não é apenas uma questão de igualdade numérica, mas de transformação social. Ao levar para o centro do debate temas como maternidade, proteção animal, infraestrutura, valores, assistência social e combate à violência, as mulheres mostram que a política, quando plural, se torna mais próxima da realidade da população — e mais capaz de promover mudanças duradouras.