O ex-prefeito de Uberaba, Paulo Piau Nogueira (MDB), recebeu carta branca do partido para a pré-candidatura ao Senado. Em entrevista ao Jornal da Manhã, Piau reconheceu que projetos para retornar à Câmara dos Deputados ou à Assembleia Legislativa de Minas Gerais estariam longe do seu interesse, e foca no setor produtivo, leia-se agronegócio, para conquistar o interesse público na corrida eleitoral de 2022, agora como senador.
Durante a entrevista, Paulo Piau traçou análises do sistema democrático brasileiro atual e teceu críticas, e elogios, a todos os três poderes. Na visão dele, a briga entre instituições continua enfraquecendo a política nacional e está na hora de desburocratizar um estado inchado, fortalecer os processos jurídicos e baratear o “custo Brasil”.
Jornal da Manhã - Qual foi a sua formação e quais projetos o senhor capitaneou durante a trajetória em Uberaba e região?
Paulo Piau - Eu, como filho, neto e bisneto de produtor rural, fui fazer Agronomia, justamente onde meu pai também fez. Sou ex-aluno da Universidade Federal de Viçosa. De lá passei pela Acesita Energética, pela Epamig, iniciei como pesquisador e acabei gestor de uma empresa pública, da agropecuária de Minas Gerais. Vim ser secretário de Agronegócio e Desenvolvimento Econômico nos governos de Hugo [Rodrigues da Cunha] e Luiz Guaritá Neto. Por aqui, tive a ideia de criar o Fórum de Secretários Municipais de Agricultura do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e Noroeste; acompanhei o ex-prefeito de Uberlândia, Virgílio Galassi, no Pladir, que é o Plano de Desenvolvimento Integral do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e noroeste de Minas. Estive também com o ex-prefeito Gilmar Machado, quando andamos pela região tentando emplacar a Região Metropolitana do Triângulo e Alto Paranaíba.
Como deputado estadual, representei a Assembleia Legislativa no Instituto de Desenvolvimento Industrial da época, hoje chamada Investe Minas, que é a porta de entrada dos investimentos em Minas Gerais. Como deputado federal, dentre várias ações, destaco o Código Florestal. Um trabalho intenso, de fôlego, mas que exemplifica o que é simplificar uma lei. Eu tive o privilégio de ser o relator e o projeto ficou um ano na minha mão, na Câmara Federal. Como prefeito, fui reeleito em primeiro turno; fui presidente da Frente Mineira de Prefeitos e, também, presidente da Amvale por duas vezes. Na minha gestão da Amvale, foi criado o Convale, o Consórcio dos municípios do Vale do Rio Grande, que hoje dá suporte, inclusive, na situação de destinação de resíduos sólidos. E, também, tivemos a ideia de criar a Agência Regional de Desenvolvimento Econômico do Triângulo e Alto Paranaíba. Digo isso para caracterizar que tenho um trabalho que deu repercussão nacional, estadual, e, evidentemente, regional.
JM - Com a experiência adquirida após dois mandatos como prefeito de Uberaba, participando de eventos, viagens e diálogo intermitente com os governos Federal e Estadual, como o senhor enxerga a relação dos Poderes no Brasil atualmente?
PP - Sobre o assunto, eu faço uma ressalva com relação à infantilidade da democracia brasileira. É muito tenra, diferente das democracias que nasceram na Grécia, passaram pela Inglaterra, França... Lá é coisa de mais de 200 anos, 500 anos, para consolidar a democracia. A França mesmo, que é um dos berços da democracia do mundo, passou por uma eleição agora e vimos as manifestações da extrema-direita e esquerda.
O Brasil ainda está longe da democracia porque democracia e educação são irmãs siamesas. Enquanto não tivermos uma educação de qualidade, não podemos sonhar com uma democracia de qualidade. É uma construção.
O Governo Federal, hoje, paga por essa falta de cultura e cabeça da coletividade. Vejo um Governo que bate cabeça, com brigas insustentáveis entre instituições. Mas eu vejo, no aspecto da Presidência da República, uma qualidade. Não quero ver os defeitos, porque onde você não tem um ambiente propício, em uma democracia tenra, não há como esperar qualidade de gestão. Mas com a presença do Presidente da República, ele mexeu em muitas gavetas imexíveis. Só por isso, por esse fato, valeu a pena. Essa passagem de uma pessoa que os chamam de “doido”. Mas eu quero ressaltar que faz parte da formação democrática. Essa desavença, discórdia, vai servir para que o povo tome consciência. Antes existia um centro-esquerda ativo, com militância, e não tinha uma militância do outro lado; agora tem. Eu fico focado no futuro e acho que o que acontece hoje na relação dos poderes vai servir para darmos mais um passo para a construção da democracia. Só existe vida em sociedade pela democracia. Vejo o Poder Legislativo com uma política pequena. Por exemplo, quando você faz uma CPI, com foco em corrigir problemas, está certo. Quando o foco é desmerecer a ação de outros, é apequenar uma CPI. Vejo o Legislativo, sobretudo o Senado, acovardando-se em relação aos estímulos que recebe para investigar ministros do Supremo Tribunal Federal. Não digo impeachment, mas investigar, porque a partir de um momento que um ministro transpõe os limites da constituição, ele tem que ser investigado.
E só o Senado para fazer, porque quem autoriza a indicação é o Senado.
JM - E qual a sua avaliação sobre o atual Governo de Minas Gerais?
PP - O Governo de Minas ganhou uma eleição dentro de um raciocínio popular de quem não queria nem um lado e nem outro. O governador Romeu Zema ganhou nessa lógica. Ele mesmo, tenho a impressão, se assustou com a vitória. Ele enfrentou ninguém menos que Antonio Anastasia, uma figura importante para Minas. Ele teve muita dificuldade de formar equipe. Ele não tinha time. Mas Zema tem uma característica importante: ele conseguiu ganhar a confiança dos mineiros em termos da sua honestidade, sua austeridade. A crítica que faço ao Governo, e já fiz, inclusive, ao secretário de Governo Igor Eto, é que falta, quem sabe nesta segunda empreitada, definir projetos estruturantes. Os projetos de momento, cuidar das escolas, saúde, atrair investimentos, é rotina. Agora, ter projetos estruturantes que suportem Minas para o futuro, todos os governadores têm obrigação, se não, paramos no tempo.
JM - Qual será a sua participação nas eleições de 2022? Será a cara do MDB para o Senado?
PP - Definido não ser candidato a deputado, porque não sou mais novo para a Assembleia ou para a Câmara, conversei com o MDB e me deram sinal verde para sair a campo. Já fiz um giro por Minas, ouvindo as pessoas e, evidentemente, colocando o meu nome à disposição do partido como pré-candidato. A decisão só vai acontecer do dia 20 de julho a 5 de agosto e, com certeza, não será em julho, porque é uma composição final, são interesses partidários e é a regra do jogo. Já viajei muito como deputado e prefeito, sempre focado no setor produtivo.
É a minha bandeira, sempre foi, sou engenheiro agrônomo. O que eu ouvi lá fora é que o Brasil é um país burocrático. Tem gente que diz que precisa de mais pessoas para destravar a empresa do que para cuidar da atividade. É inseguro juridicamente, porque não precisamos criar mais leis, temos que simplificar as leis para dar mais segurança jurídica para quem quer fazer um investimento. Se eu preciso de mais advogados na empresa que engenheiros, tem algo errado. E o Brasil é um país caro. Com burocracia, com insegurança e caro, você não consegue investimento para fazer o Brasil crescer 3%, 4% ao ano, que é o mínimo para dar vazão a essa juventude sedenta por trabalho. Essa simplificação é a palavra-chave. No meu caso, foco no setor produtivo, de uma maneira muito especial ao agronegócio. Eu tenho o exemplo do Código Florestal, que relatei na Câmara dos Deputados. A lei era retrógrada, antiga. Simplificamos a lei e todos estão em paz. É um exemplo real do que precisamos fazer em todas as áreas. E, claro, fiscalizar. Reforço aqui a teoria de que o Senado não está cumprindo o seu papel a partir do momento que os brasileiros apontam que existem ministros que não cumprem a Constituição. Não quero prejulgar, mas é função do Senado abrir uma investigação.
Não pode um senador, um parlamentar, levar os seus problemas individuais e colocá-los acima dos interesses da coletividade. O senador tem essa missão porque representa o Estado brasileiro, a organização, a harmonia do Estado brasileiro. Dentro dessa lógica é que a gente coloca nosso nome à disposição para enfrentar a missão de concorrer a uma vaga para o Senado da República.
JM - A pluralidade de candidatos uberabenses às cadeiras na Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa de Minas Gerais pode dividir votos e, em um cenário trágico, enfraquecer a representatividade política de Uberaba. Qual a sua visão sobre isso?
PP - Uma comunidade tem que ter a sua organização. Tem que estar presente também. Democracia é importante. Partido é importante. Participar de um pleito é uma democracia. Então, a comunidade civil tem responsabilidades com o Município, Estado e União. Claro que você ser candidato por Uberaba não se elege sozinho. Você precisa ter votos em outras cidades.
Se eu vou buscar votos em Conceição, Sacramento, Frutal, Iturama, eles também têm o direito de vir cá. Mas, majoritariamente, o uberabense tem que entender que quem tem relação com Uberaba cuida de Uberaba. Seja no aspecto legislativo, de fiscalização, ou de carrear recursos para o nosso município. Precisamos entender isso, passar essa mensagem para o eleitor de Uberaba, que a partir do momento que ele vota em gente que tem relação com Uberaba está protegendo a sua saúde, sua escola, sua proteção e cuidando melhor da sua cidade. Quando eu voto em alguém de longe, a pessoa vem, pega o voto e depois vai embora.
É como um voto perdido.