POLÍTICA

Se acabarmos com a corrupção e os privilégios, sobra dinheiro, diz Heli

O JM traz entrevista com Heli Andrade, na qual ele conta sobre as prioridades que estarão na sua atuação parlamentar

Thassiana Macedo
Publicado em 20/10/2018 às 11:36Atualizado em 17/12/2022 às 14:40
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Heli Andrade, o “Grilo”, deputado estadual eleito, diz que a segurança pública é uma de suas prioridades na Assembleia

Com 61 anos de idade e quase 38 de carreira na Polícia Civil de Minas Gerais, Heli Andrade, mais conhecido como “Heli Grilo” ou “Xerife”, foi eleito deputado estadual pela escolha de 75.920 eleitores nas urnas em 2018. A votação expressiva representa um importante voto de confiança de eleitores localizados em mais de 360 cidades mineiras. Somente em Uberaba, Heli Grilo atingiu a histórica marca de 57.179 votos. 

Natural da zona rural de Perdizes, Heli Grilo passou a adolescência em Santa Juliana e depois veio com a família para estudar em Uberaba, mas se consagrou delegado-chefe da Polícia Civil depois de atuar em Uberaba, Uberlândia, Água Comprida, Araguari e Araxá, não só como investigador, mas também delegado especial e delegado regional. Em sua carreira, já participou de importantes investigações, em divisões de homicídios e falsificações, que culminaram na prisão de criminosos procurados pela Justiça. Na década de 1990, em um desses casos, Heli chegou a trabalhar disfarçado como “boia-fria” para descobrir o paradeiro de um acusado de homicídio, cuja história foi mostrada no programa Linha Direta. Depois de ter atuado como vereador, eleito em 1998, e com toda essa experiência, Heli Grilo se viu preparado para tentar a carreira como deputado estadual, sendo bem-sucedido na terceira tentativa.

Na edição de hoje o Jornal da Manhã traz entrevista com Heli Andrade, na qual ele conta sobre as prioridades que estarão na sua atuação parlamentar na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e sua aposentadoria. 

Jornal da Manhã – O senhor já se candidatou ao mesmo cargo outras vezes, sem sucesso... A que atribui a expressiva votação que recebeu nesta eleição?

Heli Andrade – Na verdade, nas outras oportunidades eu não estava eleitoralmente preparado. Na última vez eu estava fora de Uberaba há cinco anos, mas mesmo assim recebi um bom respaldo da população, pois tive aqui cerca de 13 mil votos. Ao voltar para Uberaba, comecei a fazer um trabalho intenso na questão da segurança pública e acredito que essa confiança que as pessoas depositaram em mim em relação à segurança alavancou a votação. Além de algumas outras variáveis, como o povo, que também está querendo mudar um pouco as coisas. O eleitor começou a enxergar o caminho que deve ser seguido e acredito que se, daqui a quatro anos, ele entender que não votou direito, vai trocar de candidato mesmo. Não trabalhou direito, não vai continuar. Então, acho isso muito importante, porque isso obriga os políticos a trabalharem mais e melhor. No caso da minha votação, acredito muito mais na confiança que as pessoas depositaram em mim e em meu trabalho como delegado, pois acreditam que eu também possa fazer um bom trabalho lá na Assembleia. Temos que considerar a vontade do povo de mudar, este e o fato de eu estar no mesmo partido do [candidato a] presidente Bolsonaro colaboraram para nossa eleição. 

JM – Então houve um amadurecimento da sua parte, como candidato, e também dos eleitores e um contexto que favoreceu a recepção das suas propostas?

Heli Andrade – Sim, mas não seria o amadurecimento da minha parte, talvez mais trabalho prestado. Fiquei aqui e prestei um serviço na região, atendendo a 30 municípios através do Departamento da Polícia Civil que chefio. E as pessoas entenderam que eu era um bom nome, bastando dizer que fui majoritário em quase todas as cidades onde eu intensifiquei a campanha, como Campo Florido, Pirajuba, Veríssimo, Água Comprida, Delta, Conquista, Sacramento, Perdizes, Santa Juliana, Ibiá e Pedrinópolis. Em São Gotardo, já na entrada do Alto Paranaíba, por exemplo, tive 380 votos. Ou seja, o trabalho na segurança pública fez com que as pessoas acreditassem em mim.

JM – Em entrevista que deu ao Jornal da Manhã em maio deste ano, o senhor disse que já pensava em sua pré-candidatura por acreditar que poderia ajudar muito na questão da segurança pública, com novas ideias, com ideias práticas, mostrando ao governo qual é o caminho. De que ideias estava falando, por exemplo?

Heli Andrade – Quando falamos em segurança pública, temos duas formas de combater a criminalidade e de diminuir, lá na frente, a violência. Primeiro, através da educação, em médio e longo prazos, e sempre tenho colocado isso. É necessária uma educação em que os alunos vão para a sala de aula para estudar e não para discutir com os colegas ou para brigar e enfrentar os professores, que têm sofrido muito. E os governos têm que entender que educação não é custo, é benefício, ou seja, é investimento. O governo investe em educação e isso pode retornar como diminuição da criminalidade e da violência lá na frente. O segundo ponto seria o enfrentamento da criminalidade atual. Hoje nós temos que enfrentar os bandidos que aí estão assaltando, cometendo homicídios e latrocínios ou estupros, e não há outro caminho. Mas para o enfrentamento desse crime organizado, que vem muito forte por aí e com armamento pesado, nós precisamos estruturar as nossas polícias, bem como investir em material humano. Então, levarei ao governo a necessidade do aparelhamento da inteligência, armamento, com veículos de alta performance e estrutura para enfrentar a criminalidade atual. Há uma Comissão de Segurança na Assembleia e, assim que eu chegar lá, vou tentar me inserir nesse contexto para poder conversar com o governo e dar ideias sobre de que formas devemos combater a criminalidade. Essa é uma forma prática de enfrentamento. Precisamos municiar nossos policiais de estrutura para enfrentar esse avanço, porque o crime organizado não vem com revólver calibre 38, está vindo com fuzis. O que nós temos que passar para a criminalidade é que quem dá as ordens é o Estado, através das polícias, guarda municipal, agentes penitenciários e socioeducativos. Temos que estar sempre unidos. 

JM – O Estado apresenta uma situação financeira que vai dificultar bastante esse trabalho de investimento em várias áreas. Como o senhor pretende equacionar essa questão para implementar esses projetos, tanto na educação quanto no aparelhamento das polícias?

Heli Andrade – A fragilidade financeira é vista em todo o país e não é um problema só em Minas Gerais. É só acabar com a corrupção que sobra dinheiro e temos que trabalhar isso. Temos que ir para a Assembleia, conversar com os colegas deputados e tenho certeza que todos eles têm problemas em suas regiões em relação à criminalidade. Isso não é “sorte” apenas de Uberaba ou Uberlândia. Todo Estado enfrenta a mesma situação. Então, quero mostrar a esses políticos que o caminho é cada um de nós fazer a nossa parte, abrindo mão daquelas coisas que pudermos na Assembleia, para que o governo tenha condições de fazer frente a tudo isso. Temos ainda que combater a corrupção veementemente para ajudarmos o Estado. A Constituição Federal diz que é preciso destinar 25% do orçamento para a Educação e 18% para a Saúde, que é algo que também vamos inserir na questão da segurança pública. Temos um deputado federal daqui, que é o Franco Cartafina, fizemos uma parceria e vamos colocar isso para ele, para que ele entenda a participação do governo federal em tudo isso. Já conversei com ele e vamos trocar ideias, ações e emendas orçamentárias para combater a criminalidade em prol da nossa região. O que for com o governo federal, nós pedimos a ele, e o que for com o governo de Minas, ele nos repassa. 

JM – Em virtude de sua função, o deputado estadual tem um trabalho ainda mais próximo do prefeito. Como será essa interlocução com as prefeituras de Uberaba e da região?

Heli Andrade – Vai ser muito tranquila. Em todas essas cidades onde fui muito bem votado, muitas vezes, não foi por ligação com o prefeito, mas, através de nossas ligações, nós vamos fazer chegar a nossa participação no governo municipal. Estaremos com as pessoas que trabalharam conosco, para depois elas nos encaminharem dentro dos municípios para trabalharmos para a região.

JM – O Hospital Regional precisa ser mantido com 50% de recurso da União, 25% dos municípios e 25% do Estado. Porém, o governo de Minas ainda não cumpriu a sua parte. Como o senhor pretende atuar em relação a isso?

Heli Andrade – A minha família é composta por médicos, mulher e dois filhos. Minha mulher e minha filha trabalham no Hospital Regional e, por isso, conheço as necessidades da instituição. Em razão disso, iremos cobrar do governo de Minas os repasses necessários. Hoje, o Estado deve uma fortuna para a saúde de Uberaba e, por essa razão, a saúde está sofrendo. Precisamos discutir isso com o futuro governo sobre uma forma mais eficiente de realizar os repasses que deveriam ser feitos do IPVA e ICMS, por exemplo. Uma das ideias que vamos chegar discutindo é que o repasse não tem que ser feito. Quando alguém paga o IPVA, ou seja, quando o proprietário recolhe o imposto do seu veículo, 50% já deviam ir direto para os cofres públicos dos municípios e os outros 50%, para o Estado. Os municípios mineiros não têm que ficar esperando, porque o dinheiro vai para o Estado de avião, mas volta de carroça. Demora a chegar e está aí o resultado disso, um débito gigantesco do Estado com os municípios. Tem que ser colocado que o que é do município já vai direto para os cofres dos municípios e o que é do Estado, vai para Estado. Não se pode mais esperar o Estado repassar, porque os municípios já têm que estar com os recursos em mãos. Vamos nos inteirar da situação e trabalhar com os outros deputados para que isso ocorra.

JM – Entidades como Aciu, CDL e Fiemg fizeram campanhas para que o povo elegesse deputados locais, pensando na possibilidade de que, na Assembleia e na Câmara dos Deputados, houvesse um trabalho voltado para ajudar empresas e indústrias de Uberaba e região, visto que os encargos mineiros são os mais altos do país, dificultando a competitividade do nosso produto e a vinda de novas empresas. O senhor já tem pensado em como poderá ajudar esse setor?

Heli Andrade – Ainda vou visitar Aciu, CDL e Fiemg e outras entidades que tenho certeza que nos ajudaram por conta dessas necessidades. Minas Gerais enfrenta complicações em função dos tributos que são pagos pelos empresários mineiros. Nenhuma empresa escolhe Catalão (GO) ou Itumbiara (GO) porque as cidades são melhores, mas se instalam nessas cidades por conta da diferença dos impostos e incentivos que o Estado dá, pela forma que o Estado recepciona as empresas. Aqui, os empresários têm até dificuldade de chegar ao governo para conversar e isso atrapalha muito. Minas Gerais precisa ter abertura maior para isso. E essa será uma das coisas com as quais vou colaborar. Não vou lá para aumentar os impostos do povo, pode até ser o meu governador, que eu apoiei, a colocar isso. Para isso, ele não terá o meu voto. Estou deixando claro, porque o povo mineiro já é muito penalizado. Também não vou pedir para baixar os impostos imediatamente, porque o Estado está falido. Alguma coisa tem que ser feita para consertar, mas não é buscando esse dinheiro no bolso do povo mineiro, pois ele não aguenta mais. Vamos trabalhar nesse sentido, vou visitar essas entidades, me colocar à disposição para discutir as questões tributárias e investimentos para Uberaba.

JM – Ainda não temos definição de quem será o governador de Minas Gerais. O senhor já tem uma avaliação de como atuará em relação ao Estado, independentemente de quem seja eleito? Será diferente se for um ou outro?

Heli Andrade – Acredito que se o eleito for o professor Anastasia, será bom, porque tenho mais contato, e o vice [Marcos Montes] é nosso companheiro. Eu estava no primeiro turno com o professor Anastasia e com o Marcos Montes, e agora vamos continuar. Não posso mudar meu apoio só porque o outro candidato subiu nas pesquisas. Se não der para o professor e o eleito for o outro, vou me sentar com ele depois das eleições e mostrar os caminhos que nós devemos seguir para solução dos assuntos que mais interessam a Uberaba e região, e que eu mais defendo, que é a segurança pública. E tenho certeza de que, qualquer um que for eleito, vai nos receber para discutirmos essa questão. Fiquei em Araxá, que é a terra do outro candidato, de 2009 a 2014, durante cinco anos. Araxá ficou em primeiro lugar no Estado como a cidade menos violenta e a quinta no país. Mesmo eu não tendo muito contato com o Romeu Zema, ele sabe da minha forma de trabalhar e sabe que sempre trabalhei para reduzir a criminalidade, e Araxá é um exemplo claro disso. Então, acredito que não vamos ter dificuldade alguma com nem um deles, mas é claro que com o Anastasia vamos ter mais facilidade. Atuarei com base no diálogo, mas se em algum momento eu tiver que brigar, também vou brigar, não fujo de briga, não. 

JM – A eleição do senhor como deputado estadual e do vereador Franco Cartafina como deputado federal vem representando o surgimento de novas lideranças no cenário da política de Uberaba... Como vê essa questão?

Heli Andrade – Não sei fazer essa avaliação de momento, o que eu sei é que essas lideranças, que são tidas como velhas, estavam em nossas campanhas e apoiaram a mim e ao Franco. Vejo o velho como a experiência, as lideranças novas estão aí, eu já não sou tão novo assim, mas me considero em plena forma e com energia para trabalhar por toda a nossa região. Agora, sobre o surgimento de novas lideranças, só o tempo vai mostrar isso. Tivemos uma votação muito boa, tanto ele quanto eu, o que representa o reconhecimento da população, mas não podemos nos precipitar e pular etapas. Eu, pelo menos, não pulo, sempre cumpro minhas etapas. Muitas pessoas me perguntaram por que eu não me candidatei a deputado federal, mas não era meu caminho. Creio que as etapas vão acontecer e as coisas serão cobradas na medida em que tivermos condição de pagar. E não se faz política sem grupos. Tentei duas vezes sozinho e, na terceira, tentei com um grupo e consegui. Temos grupos, tanto eu quanto o Franco, que nos apoiaram, nos ajudaram e temos que participar com esse grupo. Não vejo como política velha, vejo como gente experiente que pode ajudar muito a nossa região.

JM – Com a vitória nas eleições de 2018, o senhor já decidiu se vai mesmo se aposentar da carreira de delegado-chefe da Polícia Civil? Com a vitória na eleição, isso já está mais delineado?

Heli Andrade – Está. Eu vinha pensando nisso desde o início do ano, até porque vou fazer 38 anos de polícia. Não precisarei requerer a aposentadoria, porque a situação já está bem encaminhada. Vou trabalhar até o início do ano para ajudar meus companheiros em alguns crimes, mas onde eu estiver, seja na Assembleia ou em qualquer cargo, aposentado ou não, estarei sempre em Uberaba e na região combatendo a criminalidade com meus companheiros. Posso até sair da polícia, mas a polícia nunca vai sair de mim.

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