POLÍTICA

Testemunhas de defesa do Mensalão prestam depoimento

As perguntas foram centradas na campanha de 2002, quando Anderson Adauto foi eleito deputado federal, sendo pouco depois empossado no Ministério dos Transportes

Élvia Moraes
Publicado em 03/08/2018 às 10:18Atualizado em 20/12/2022 às 13:26
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Das onze testemunhas arroladas pelo prefeito Anderson Adauto (PMDB) e o presidente do Codau, José Luiz Alves, sete prestaram depoimentos ontem na Justiça Federal de Uberaba no processo do Mensalão, que está sendo investigado pelo Supremo Tribunal Federal.  

O coordenador do Procon, Rodrigo Mateus Signorelli, e o subsecretário de Trânsito e Transporte da PMU, Ricardo Sarmento, não compareceram à audiência. A coordenadora do Probem, Maria Aparecida Ferreira, e o médico Eurípedes Alves de Carvalho foram dispensados pela defesa.

Conduzidas pelo juiz da 1ª Vara Federal, Lelis Gonçalves de Souza, as audiências, também acompanhadas pelo advogado de defesa Roberto Garcia Lopes Palhuzzo e o procurador da República, Frederico de Carvalho Paiva, transcorreram sem nenhuma anormalidade.

As perguntas foram centradas na campanha de 2002, quando Anderson Adauto foi eleito deputado federal, sendo pouco depois empossado no Ministério dos Transportes no primeiro ano de mandato do presidente Lula.

Os jornalistas tiveram acesso à sala de audiência, mas não puderam utilizar gravador, mantendo celulares desligados. O Jornal da Manhã foi o único órgão de imprensa que acompanhou todas as audiências.

O primeiro a prestar depoimento pela manhã foi o empresário do setor gráfico Vicente de Paula Resende Fernandes, que confirmou a prestação de serviços na campanha de 2002. Segundo ele, ficaram algumas pendências financeiras, que foram liquidadas de forma gradativa.

A testemunha mais rápida foi Carlos Alberto Silva Padrão, gerente de um posto de gasolina, que disse ter fornecido R$ 50 mil em combustível, sem grandes contatos com os coordenadores da campanha.

Os depoimentos do Mensalão levaram integrantes do staff de Anderson Adauto à Justiça Federal. Os subsecretários de Meio Ambiente e de Administração, respectivamente, Aymar Hial e Luiz Humberto Alves Borges, prestaram depoimento pela manhã.

Há 16 anos trabalhando com o atual prefeito, tendo sido seu assessor político na Assembleia Legislativa, no Ministério dos Transportes e também na Prefeitura de Uberaba, Aymar Hial informou ter auxiliado AA a gerenciar contas bancárias entre 2003 e 2007, quando constatou dois empréstimos totalizando R$ 180 mil, contraídos no Banco do Brasil e na Cooperativa de Crédito dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Credileite).

O subsecretário de Meio Ambiente informou que a pendência financeira com o Banco do Brasil foi saldada em 2003, tendo 1/3 da dívida com a Credileite também pago naquele ano. O restante teria sido renegociado para pagamento parcelado. Hial negou ter presenciado encontros entre Anderson e o publicitário Marcos Valério, apontado como operador no esquema do Mensalão.

Romeu Queiroz. O depoimento de Luiz Humberto Alves Borges, subsecretário de Administração, foi o mais longo dos sete. Ele afirmou não ter participado da campanha de 2002, e sim dos anos de 2000 e 2004, como tesoureiro. Questionado sobre as formas de alavancar recursos para gerir uma campanha política, afirmou Borges ter duas formas: o candidato banca com recursos próprios, e se não os tiver, deve captá-los com terceiros.

Justificou também que o dinheiro arrecadado nas duas campanhas foi investido na confecção de material publicitário impresso, produção e edição dos programas de televisão e um expressivo gasto com combustível.

Luiz Humberto afirmou que apenas pagava as faturas a ele encaminhadas, remetendo-as posteriormente à coordenação da campanha para proceder à prestação de contas. O subsecretário de Administração afirmou ser comum aparecerem pendências financeiras após o encerramento das campanhas, principalmente contas telefônicas. Nestes casos, segundo o seu depoimento, o candidato deve arcar com o pagamento, pela inexistência de previsão de recursos. Embora tenha admitido a ocorrência de situação na campanha de 2004, não soube precisar a origem dos recursos e nem o valor das pendências.

Ao ser questionado pelo procurador Frederico de Carvalho Paiva sobre o patrimônio do prefeito, Luiz Humberto informou saber apenas de uma residência, veículos e uma propriedade rural. Negou ter visto ou saber de encontros ocorridos entre Anderson e o ex-deputado Romeu Queiroz, também denunciado no escândalo do Mensalão. Resposta também negativa sobre o questionamento de envio de dinheiro por parte do publicitário Marcos Valério ou oriundo do PT para auxiliar a base aliada.

Caminhão. Entre os depoentes da Justiça Federal na manhã de ontem estava o profissional da área de som e divulgação Roberto Luziano Silva, que prestou serviços com dois caminhões de som na campanha de 2002, entre julho e setembro. Segundo ele, na época, a campanha de Anderson arrumou “alguns” valores para ajudá-lo a pagar parte de um caminhão financiado, resultando no pagamento de R$ 55 mil, em dinheiro, feito em agosto de 2003.

À tarde foram ouvidos o secretário municipal de Controle Interno, Fabio Macciotti, e o ex-secretário da Fazenda Lúcio Scalon. Questionado pelo Ministério Público Federal sobre o desempenho de Anderson Adauto no Ministério dos Transportes, Macciotti avaliou de forma favorável, em razão do déficit orçamentário no início do governo Lula, que provocou um severo contingenciamento nas contas públicas.

Na época, Fábio Macciotti presidia o Diretório Regional do Partido dos Trabalhadores. Questionado se conhecia Delúbio Soares, respondeu afirmativamente, pois o mesmo era tesoureiro nacional da legenda, mas desconhecia pagamentos feitos pelo partido. O representante do MP afirmou a existência de saques feitos no Banco Rural pelo irmão de Anderson, Edson Pereira, e por José Luiz Alves, que perfazem R$ 400 mil, questionando Macciotti a respeito. Ele afirmou nunca ter trabalhado na área financeira e, portanto, desconhece o assunto.

Último a depor, o ex-secretário da Fazenda Lúcio Scalon relatou sua passagem pelo Ministério dos Transportes, tendo respondido, mediante provocação do procurador, ter tomado conhecimento de que recursos estariam sendo viabilizados junto a partidos políticos, provavelmente o PT, para saldar pendências financeiras da campanha de Anderson, sem, contudo, participar ou acompanhar tais negociações.

Com os depoimentos concluídos, os documentos serão remetidos ao relator do processo, ministro Joaquim Barbosa.

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