Termo médico é caso clínico, mas, no sentido coloquial, também pode indicar aquela que pessoa que vive lamentando
Na medicina, há um perfil de paciente que reúne múltiplas queixas físicas simultâneas, sem que exames clínicos ou laboratoriais consigam apontar uma causa que explique todos os sintomas. Doem a cabeça, o estômago, as costas… Esse quadro é conhecido como poliqueixa, e o paciente, poliqueixoso. Mesmo sem um diagnóstico conclusivo, o sofrimento é legítimo e pode comprometer de maneira significativa a qualidade de vida.
“Esse padrão se manifesta quando o indivíduo comunica um sofrimento difuso por meio de múltiplos sintomas físicos, simultâneos ou recorrentes. É fundamental compreender que o sofrimento é legítimo e real; a ausência de uma causa orgânica detectável por exames não invalida a experiência da dor”, detalha a psicóloga clínica Fernanda Fusco.
A poliqueixa é frequentemente associada a fatores emocionais ou psicológicos, como ansiedade, estresse crônico ou depressão. Além disso, pode vir por meio da somatização, processo em que conflitos emocionais, muitas vezes inconscientes, se manifestam no corpo na forma de sintomas físicos.
“A somatização ocorre quando o corpo se torna o palco de expressão de uma sobrecarga emocional ou estresse que a mente não conseguiu processar. O indicativo de somatização não é apenas a ausência de achados clínicos em exames, mas a correlação com períodos de vulnerabilidade emocional ou dificuldade em nomear afetos”, explica a especialista.
Pessoas poliqueixosas também podem ter dificuldade em associar sintomas físicos ao que estão vivendo emocionalmente, e essa desconexão pode ter origens multifatoriais. “Clinicamente, falamos em alexitimia, que é a dificuldade técnica em identificar, descrever e diferenciar emoções de sensações corporais. Muitas vezes, isso remonta ao histórico do desenvolvimento: se a criança cresceu em um ambiente onde suas emoções foram invalidadas ou silenciadas, ela pode não ter desenvolvido uma ‘alfabetização emocional’ adequada”, entende a psicóloga.
Nesses casos, ela reforça, “o corpo adota a via sensorial como o único ‘canal permitido’ ou seguro para expressar o desamparo, transformando angústia psíquica em tensão física.”
Mas, para além dos termos médicos, a poliqueixia parece atravessar o cotidiano de alguns indivíduos. É aquela pessoa que, a todo instante, reclama do calor, do frio, do trânsito, da comida… Também entram na lista de queixas as relações pessoas, a rotina, o trabalho. Tudo vira motivo para lamentações. Nesse sentido mais coloquial, a poliqueixa deixa de ser apenas um conceito clínico e passa a descrever um padrão de comportamento.
“O que começa como um desabafo pontual pode se consolidar como um estilo cognitivo ou traço de funcionamento. Quando a queixa se torna a lente principal pela qual o indivíduo filtra a realidade, estamos diante de um padrão de comportamento cristalizado”, entende a psicóloga.
Ela analisa que, sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o acúmulo de reclamações pode estar associado a um viés de negatividade e a esquemas de pensamento rígidos. “O indivíduo acaba por reforçar caminhos neuronais que priorizam a percepção da falta e do desconforto, tornando a reclamação uma forma automatizada de se posicionar no mundo e de se relacionar com o outro”, aponta.
Também psicólogo, Jailton Souza acrescenta que esse comportamento pode estar ligado a uma necessidade íntima e constante de corresponder a um ideal inalcançável. “Ao performar em lugares não tidos como ideais, tudo o que faço passa a trazer insatisfação”, ressalta.
Nesse processo, o indivíduo pode desenvolver pensamentos tão cristalizados, que se vê impossibilitado de alcançar novas formas de enxergar a realidade. “Quando isso ocorre, passo a viver em um mundo que tento enquadrar no que é bom só para mim”, salienta Souza.
Para ele, a dificuldade de lidar com diferentes gerações também pode intensificar esse padrão. “Principalmente quando a pessoa é idosa, há muito repertório acumulado, mas, ao conviver com pessoas com idades diferentes, tende a achar a sua visão mais sofisticada”, analisa.
A reclamação frequente pode, a propósito, ser um pedido indireto de validação. “Muitas vezes, a queixa funciona como um mecanismo de busca por vínculo e regulação emocional. Se a pessoa não possui ferramentas para expressar diretamente suas necessidades de afeto, cuidado ou reconhecimento, ela pode utilizar o ‘sofrimento’ como uma moeda de troca social para obter atenção”, sinaliza a psicóloga Fernanda Fusco.
Ela ressalta, porém, que não se trata de uma manipulação consciente, “mas de uma estratégia adaptativa, muitas vezes aprendida na infância, para garantir que suas necessidades básicas de cuidado sejam atendidas pelo ambiente.”
Como romper com esse padrão?
O hábito de se queixar constantemente pode se transformar em um ciclo difícil de romper, sinaliza o psicólogo Jailton Souza. “Essas reclamações muitas vezes vêm do ‘não consigo’ ou do ‘jamais vou conseguir’, quando, em vários casos, essa realidade nem existe”, afirma.
Nesse cenário, ele reforça a importância de buscar pelo autoconhecimento. “Se eu não tenho autorreflexão, o meu repertório vira verdade absoluta e tudo se transforma em motivo de queixa. Para mudar, é preciso primeiro se perceber como alguém ‘reclamão’ e entender que as queixas constantes podem ganhar contornos quase patológicos, inclusive passível de gerar ansiedade”, comenta.
A psicóloga Fernanda Fusco indica ainda que é essencial olhar para a poliqueixa e para a reclamação crônica com uma “escuta acolhedora e desprovida de julgamento”.
“Elas são sintomas de que a comunicação interna do sujeito precisa de reparo. O processo terapêutico atua na construção de pontes entre o corpo e a mente, permitindo que o paciente desenvolva novos repertórios de expressão. Ao transformarmos o ‘grito’ do corpo em palavra e autoconhecimento, possibilitamos que o indivíduo encontre formas mais saudáveis e diretas de habitar sua própria história e suas relações”, finaliza.
Fonte: O Tempo.