APOSTAS

Bets já fazem mineiros trocar consumo por apostas; em Uberaba, casos chegam à rede pública

Pesquisa da FCDL-MG mostra que 21,4% dos apostadores deixaram de consumir produtos e serviços para apostar; na cidade, JM Online já mostrou impactos no comércio, endividamento e aumento da procura por atendimento

Sarah Parro
Publicado em 13/09/2026 às 08:03
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Um em cada cinco mineiros que aposta ou já apostou em bets afirma ter deixado de comprar produtos ou contratar serviços para destinar dinheiro às plataformas, segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira (9) pela Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Minas Gerais (FCDL-MG). O levantamento mostra que 21,4% dos apostadores reduziram gastos com alimentação, lazer e compras para apostar, enquanto 19% disseram já ter se endividado ou atrasado contas por causa das apostas. 

Os dados estaduais reforçam uma realidade que já vem sendo identificada em Uberaba. Em maio, o Jornal da Manhã mostrou que o avanço das bets começava a pressionar o orçamento das famílias e poderia afetar o comércio local. Na ocasião, o secretário-executivo do Sindicomércio, Thiago Árabe, afirmou ao programa Pingo do J que as apostas já estavam prejudicando o consumo e refletindo na prestação de serviços em meio ao aumento da inadimplência. Leia a reportagem do JM Online sobre o impacto das bets no comércio de Uberaba. 

A pesquisa da FCDL-MG aponta que, entre os consumidores mineiros que apostam ou já apostaram, o gasto médio é de R$ 290,83 por mês. Metade desse público afirma ter acumulado prejuízo financeiro, enquanto 28,6% consideram que tiveram lucro e 21,4% avaliam que o resultado foi indiferente. Ao todo, 16,7% dos consumidores entrevistados disseram apostar ou já ter apostado em bets. 

A frequência das apostas também chama atenção. Segundo o levantamento, 35,7% dos apostadores afirmam apostar ou ter apostado mensalmente; 26,2%, raramente; 21,4%, diariamente; 14,3%, semanalmente; e 2,4%, anualmente. 

O levantamento aponta ainda diferença no valor destinado às plataformas de acordo com o gênero. O gasto médio mensal informado pelos homens é de R$ 342,88, enquanto entre as mulheres chega a R$ 206,25. O Pix é o principal meio de pagamento, utilizado por 77,6% dos entrevistados que apostam ou já apostaram. O cartão de crédito aparece com 14,3% e o cartão de débito, com 8,2%. 

Para o economista da FCDL-MG, Vinícius Carlos Silva, os números mostram que as apostas passaram a disputar espaço com despesas de consumo. Segundo ele, quando parte da renda deixa de ser destinada a produtos e serviços para ser direcionada às plataformas, o efeito também alcança o comércio e a economia. 

O problema também passou a ser identificado na rede pública de saúde. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, houve aumento na identificação de casos relacionados à compulsão por apostas esportivas e jogos online. O Caps AD oferece atendimento específico para pessoas que perderam o controle sobre o comportamento de apostar, inclusive por demanda espontânea.

A situação levou também a 14ª Subseção da OAB Uberaba a solicitar informações à Prefeitura sobre os impactos da ludopatia no município. A entidade pediu dados sobre a procura por atendimento na rede pública, os procedimentos adotados e os reflexos sociais, econômicos e familiares relacionados às apostas eletrônicas. A Secretaria de Saúde confirmou à reportagem do JM Online o aumento na identificação de casos.  

O tema também chegou à Câmara Municipal. Em julho, os vereadores aprovaram projeto que proíbe publicidade e propaganda de casas de apostas em espaços públicos de Uberaba, incluindo áreas destinadas à prática esportiva, cultural e de lazer, entorno de estabelecimentos educacionais e mobiliário urbano utilizado no transporte público. A proposta foi encaminhada para sanção da Prefeitura.  

A pesquisa da FCDL-MG não permite calcular quanto dinheiro deixou de circular no comércio mineiro por causa das apostas, mas evidencia uma mudança no comportamento de parte dos consumidores. Com gasto médio próximo de R$ 291 por mês, metade dos apostadores relatando prejuízo e quase um em cada cinco admitindo endividamento ou atraso de contas, os dados estaduais reforçam um cenário que, em Uberaba, já apresenta reflexos no consumo, nas finanças familiares e na rede pública de saúde.

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