Ouvir frases como “quando você for mãe, você vai entender” ou “só pai sabe o melhor para o filho” são mais comuns do que andar em pé. Mas há de se atentar ao fato de que só quando se é mãe, ou pai, é possível lembrar das dores e angústias da primeira fase da vida. A relação parental começa muito antes do filho nascer e é construída, inicialmente, na projeção de crescimento da criança quando ela nasce. Por isso, aprofundar o discurso para filhos e filhas que fogem das relações heteronormativas é um desafio atual.
A relação começa no imaginário da mãe que idealiza a filha casando com um príncipe ou do pai que espera que o filho seja o galã da escola. Idealizações baseadas em uma sociedade heteronormativa que não cogita a possibilidade de um integrante da comunidade LGBTQIAP+.
“Será que essa informação realmente muda tudo que já foi construído em uma relação familiar? Essa é só mais uma característica que faz ela ser única”, expõe a psicóloga Tábitah Almeida Marques, que hoje se reconhece como pansexual - as pessoas que se consideram pansexuais não restringem sua sexualidade ao gênero oposto (heterossexualidade), ao mesmo gênero (homossexualidade) ou gêneros binários, masculino e feminino (bissexualidade).
Ela lembra que o entendimento da sua orientação sexual foi um tanto quanto complexo. “Diferente da maioria das pessoas, nunca me foi apontado o dedo deduzindo que eu era algo além de heterossexual, provavelmente por meu comportamento e aparência ser estereotipado como feminino, sendo a única opção possível me atrair por homens. Por muito tempo eu não questionei isso, mas não pensava em relacionamentos de uma forma geral, até que eu me apaixonei pela primeira vez e esta paixão veio a ser por uma garota”, relembra.
Entretanto, contar para a mãe nunca foi um problema, pelo fato da relação das duas ser muito próxima. “Lembro que, quando contei para minha mãe, tinha um sentimento de medo abraçado por uma segurança de que ela estaria ao meu lado. Sempre tivemos uma relação muito próxima, minha mãe e eu, sendo confidentes uma da outra, então eu não via motivos para esconder dela uma parte de quem eu era, de quem eu sempre fui”, explica.
A naturalidade que todos os assuntos sempre foram tratados na família do produtor audiovisual Pedro Garcias também não o deixou com medo de revelar a sua sexualidade para a família. “Eu sempre fui chamado de gay, desde a minha infância, pelo meu jeito, por ser afeminado, gesticular muito… mas eu não me entendia como gay, porque eu não sentia atração por homens. Eu cheguei a me apaixonar por uma menina, namoramos. Depois de uns anos, me vi apaixonado um por um colega de sala, ai achei que era bissexual e contei para a minha mãe”, lembra.
“Eu assustei e perguntei: você tem certeza?”, conta Liliane Garcias. A autônoma ainda explica que o maior receio do filho ser LGBTQIAP+ era o tratamento que ele receberia fora de casa. “Ninguém quer isso para um filho, porque é uma vida muito sofrida… a pessoa sofre só por ser quem ela é”, diz.
Hoje, entendendo-se como homem gay, Pedro ainda apresentou uma nova versã a drag queen Manillê. Quando decidiu seguir na carreira artística, ele se imaginou nos palcos montado como uma drag queen. “Não foi nenhuma surpresa. Pra mim foi como se fosse a minha segunda neta. Quando ‘tá’ como Pedro, a gente celebra como Pedro. Quando ‘tá’ de Manillê, a gente celebra a Manillê”, conta a avó, Vera Lúcia Garcias.
Para ela, esse é só mais um detalhe, e o mais importante é o caráter do neto, que continuava intacto.
Para a microempreendedora Rosângela Almeida Marques, mãe da psicóloga Tábitah, esse também era o ponto principal. "Ela continuava sendo a mesma, inteligente, gentil, bem humorada, enfim uma pessoa maravilhosamente do bem, uma pessoa de quem eu me orgulhava. Aos meus olhos as coisas transcorreram sem maiores conflitos e as pessoas que realmente importavam, foram acolhedoras e amáveis”, explica.
Aceitar que os filhos têm suas próprias escolhas nem sempre é tarefa fácil para os pais, mas o respeito é necessário para que eles sintam segurança no seio da própria família, fortalecendo-se para as batalhas externas pela força do amor incondicional. Desta forma, os filhos são sujeitos pensantes e independentes, e não apenas uma extensão dos pais. Suas decisões, atitudes e preferências nem sempre corresponderão às ideias e aos ideais pré concebidos por parentes ou pelos padrões sociais.