Mais de dois terços dos idosos avaliados no Ambulatório de Geriatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC-UFTM), em Uberaba, foram classificados como de alto risco de vulnerabilidade clínico-funcional. O percentual chegou a 68,4% entre os 38 pacientes analisados em pesquisa que utilizou o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20).
Segundo o médico Guilherme Pardi, um dos responsáveis pelo estudo, o resultado indica uma elevada frequência de fragilidade dentro do grupo acompanhado pelo ambulatório. A pesquisa também identificou associação entre maior idade, maior número de doenças crônicas e maior escore de fragilidade. A idade média dos participantes foi de 76,8 anos e 57,9% eram mulheres.
O percentual, porém, não representa todos os idosos de Uberaba. Os participantes já eram acompanhados em um serviço especializado, o que significa que o grupo pode concentrar pessoas com maior número de doenças, limitações funcionais e outros fatores de vulnerabilidade. Além de envolver apenas 38 participantes, a pesquisa analisou os idosos em um determinado momento. Por isso, o estudo mostra como estava a situação daquele grupo, mas não permite acompanhar a evolução da fragilidade ao longo do tempo.
“O resultado de 68,4% de idosos classificados como de alto risco de fragilidade sugere que os pacientes avaliados no ambulatório apresentam um perfil de elevada vulnerabilidade clínico-funcional”, explica Pardi.
O IVCF-20 é um instrumento de triagem que avalia diferentes aspectos relacionados à autonomia e à funcionalidade da pessoa idosa. O questionário considera idade, percepção sobre a própria saúde, atividades do dia a dia, cognição, humor, mobilidade, comunicação e presença de múltiplas doenças.
A pontuação varia de zero a 40 pontos. Idosos com até seis pontos são classificados como robustos; entre sete e 14 pontos, como potencialmente frágeis; e aqueles com 15 pontos ou mais são considerados de alto risco de vulnerabilidade.
Quando a pontuação chega a 15 pontos ou mais, a orientação apresentada no estudo é de encaminhamento para avaliação por geriatra ou equipe especializada. Nos casos entre sete e 14 pontos, a recomendação é de investigação na própria Unidade Básica de Saúde. Se houver perda progressiva da capacidade funcional ou rápida redução da autonomia sem causa evidente, o encaminhamento para avaliação especializada deve ser considerado.
Há ainda situações que exigem atenção independentemente da pontuação. Entre os chamados eventos sentinela estão quedas repetidas, internação hospitalar recente, viuvez, perda súbita de memória e suspeita de depressão.
De acordo com o pesquisador, sinais como perda de peso sem intenção, cansaço persistente, redução da força muscular, lentidão para caminhar, diminuição da atividade física e dificuldades para realizar tarefas da rotina podem indicar vulnerabilidade. A identificação precoce permite direcionar medidas para preservar a autonomia.
O estudo também relacionou o acúmulo de doenças crônicas à perda de capacidade funcional. Segundo Pardi, diferentes problemas de saúde podem somar seus efeitos sobre força muscular, mobilidade, equilíbrio, cognição, visão e resistência física. O material ressalta, entretanto, que não é possível apontar uma única combinação de doenças como universalmente mais grave, já que o impacto depende das condições clínicas e funcionais de cada idoso.
A pesquisa destaca ainda que a fragilidade pode ser prevenida ou revertida, especialmente quando identificada em fases iniciais. Entre as medidas apontadas estão atividade física, treinamento de força, alimentação adequada, fisioterapia e revisão periódica dos medicamentos.
O IVCF-20 já integra o conjunto de avaliações geriátricas realizadas no contexto ambulatorial do HC-UFTM, segundo Pardi. A aplicação da ferramenta pode variar conforme o contexto e pode envolver equipes multiprofissionais e ambulatórios de diferentes especialidades.