Queixas sobre vias, calçadas e áreas públicas se espalham pela cidade e reforçam percepção de demora no atendimento das demandas
Mais do que um protesto isolado, a pichação parece traduzir um sentimento que se espalha pela cidade diante da repetição de problemas nas vias, calçadas e áreas públicas (Foto/Divulgação)
"Cansado de mato alto e buraco": quem não está? Pichação em muro da área central de Uberaba, bem em frente ao prédio dos Correios, expõe um sentimento recorrente entre moradores. Denúncias e reclamações se acumulam mais do que as equipes de manutenção conseguem atender. Mais do que um protesto isolado, a pichação parece traduzir um sentimento que se espalha pela cidade diante da repetição de problemas nas vias, calçadas e áreas públicas.
Ao longo das últimas semanas, as reclamações sobre vegetação sem controle e crateras no asfalto deixaram de aparecer apenas como queixas pontuais e passaram a compor uma espécie de humor coletivo, marcado por irritação, ironia e desgaste. Em diferentes bairros, moradores já relataram dificuldade para caminhar em calçadas tomadas pelo mato, risco maior de acidentes, presença de animais peçonhentos e sensação de descuido com a cidade.
A insatisfação também aparece no tom dos comentários. Um ouvinte da Rádio JM resumiu assim: “Os buracos em Uberaba ficaram tão grandes, mas tão grandes, que a prefeita vai cobrar IPTU deles”. Outro brincou que alguns já estão tão íntimos que até dizem “oi” quando ele passa. Quando a reclamação vira anedota recorrente, o riso costuma funcionar mais como defesa do que como alívio.
Em fevereiro, a Codau anunciou o reforço de maquinário em mais uma tentativa de conter o avanço do mato em Uberaba. Tratores Giro Zero e outros equipamentos foram acrescentados à guerra contra a vegetação indomável, com expectativa de gerar mais agilidade no serviço de roçada em toda a cidade.
Questionada pela reportagem, a companhia informou que atualmente conta com 16 equipes, envolvendo 160 pessoas atuando na limpeza de Uberaba, incluindo os descartes irregulares. Além das equipes, os seguintes veículos e máquinas compõem o serviço de limpeza urbana: 02 tratores com roçadeiras, 03 tratores de pequeno porte com roçadeira (giro zero), 44 roçadeiras costais, 17 caminhões basculantes, 01 caminhão compactador e 02 pás carregadeiras.
Balanço da Codau aponta que nos meses de janeiro e fevereiro, a roçada foi realizada em 2,6 milhões de m² e a capina ocorreu em 333 mil m². As equipes de limpeza pesada recolheram 3.300 toneladas de entulhos e resíduos descartados irregularmente. A companhia ainda relembra os desafios da limpeza no período chuvoso. " É importante ressaltar que neste momento, as equipes estão trabalhando inclusive aos finais de semana para agilizar o serviço na cidade", finaliza a nota.
A Secretaria de Serviços Urbanos e Obras argumenta que a chuva interfere diretamente no cronograma, mas afirma que o trabalho tem sido mantido. Ao Jornal da Manhã, o secretário Pedro Arduini explica que três equipes atuam diariamente em diferentes regiões da cidade. “Apesar das chuvas, que acabam impactando o cronograma do tapa-buracos, a Sesurb mantém três equipes trabalhando diariamente em diferentes regiões da cidade, garantindo que os serviços de manutenção avancem e cheguem a cada vez mais bairros. Mesmo com a chuva sem dar trégua, na última semana conseguimos atender 20 vias em Uberaba”, afirma.
Balanço mais recente de ações de zeladoria (referente ao período de 27 de fevereiro a 5 de março) aponta 20 frentes de tapa-buraco, 15 manutenções diversas, 105 ações ligadas à arborização e duas frentes com caminhão basculante e pá carregadeira, em 29 bairros. O relatório lista atendimentos em regiões como Jardim Itália, Mangueiras, Jardim Laranjeiras, Jardim do Lago, Vila Celeste, Parque das Américas, Rio de Janeiro, Abadia, Alfredo Freire e Jardim Uberaba.
A movimentação do poder público mostra que o tema ganhou peso. Em janeiro, a prefeita Elisa Araújo apareceu acompanhando serviços de capina e limpeza em bairros que estavam no cronograma da Codau, em meio às críticas sobre a qualidade do serviço. Meses depois, em entrevista à Rádio JM, chegou a anunciar novo contrato de manutenção viária ao reconhecer o descontentamento da população diante do aumento das denúncias de mato alto e buracos em Uberaba.
Ao tratar do mato alto, a prefeita atribuiu parte da dificuldade ao período chuvoso e ao crescimento acelerado da vegetação. Segundo ela, em dias de chuva e sol, o mato pode crescer até cinco centímetros por dia. A explicação ajuda a entender a pressão sobre as equipes, mas não elimina a leitura de abandono feita por quem vê calçadas e canteiros em situação crítica. Em vários pontos da cidade, a altura da vegetação observada pela população parece ultrapassar com folga o crescimento de poucos dias, o que reforça a sensação de demora, acúmulo e desleixo.
Há ainda outro ponto que alimenta a frustração. Enquanto a Codau reforça que a limpeza das calçadas é responsabilidade dos proprietários, levantamento publicado pelo JM mostrou que Uberaba não registrou autos de infração referentes a janeiro de 2026 por falta de limpeza dos passeios. Fica, então, uma combinação que pesa na percepção popular: há cobrança, há alerta, mas o resultado concreto da fiscalização pouco aparece.
No fim, a frase no muro parece traduzir uma irritação que já não cabe só em comentários ou reclamações formais. Entre o mato que cresce, o buraco que aumenta e a resposta que não acompanha a pressa do morador, Uberaba vai expondo nas ruas um desgaste que ficou visível demais para ser ignorado.