
Construída na área onde teria funcionado o primeiro cemitério de Uberaba, a Escola Estadual Minas Gerais é cercada por relatos e histórias que alimentam o imaginário popular da cidade (Foto/Divulgação)
Uberaba guarda histórias que atravessam gerações e misturam realidade, superstição e memória coletiva. Casas antigas assombradas, aparições em escolas e estradas, além de relatos de presenças espirituais, fazem parte do imaginário da cidade há décadas. Para a doutoranda em História Social, Amanda Oliveira, essas narrativas funcionam como patrimônio cultural e expressão simbólica da psique coletiva. “Ao contar histórias de fantasmas ou assombrações, a comunidade dá forma a medos, tragédias e conflitos não resolvidos. É um reflexo do inconsciente coletivo, que contém padrões universais de significado, os arquétipos”, explica.
Entre as narrativas mais comentadas estão os relatos de casarões antigos no centro histórico, onde moradores dizem ouvir passos, ver luzes ou sentir presenças misteriosas, transmitidas como os típicos “causos” do interior. “A Escola Estadual Minas Gerais, construída sobre o primeiro cemitério da cidade, também atrai histórias de vozes e aparições. Outra figura recorrente é a chamada “mulher de branco” ou “noiva fantasma”, que surgiria em estradas ou áreas antigas, geralmente associada a mortes trágicas ou amores interrompidos. O espiritismo, por sua vez, fortalece o imaginário local, com relatos de presenças e mensagens espirituais, inspirados pela trajetória de Chico Xavier”, ressalta a historiadora.
Segundo Amanda, essas lendas surgem da combinação de fatos reais ou rumores iniciais, da interpretação emocional de quem vivencia ou ouve a história, e da recontagem coletiva, na qual cada narrador acrescenta detalhes dramáticos. “O medo, a curiosidade e o mistério são as emoções que mantêm essas histórias vivas. Mesmo sem comprovação, elas se transformam em patrimônio simbólico da cidade”, afirma.
Datas como a sexta-feira 13, segundo a pesquisadora, funcionam como gatilhos culturais que ativam o imaginário coletivo, permitindo que as pessoas explorem medos e aspectos desconhecidos de si mesmas. “Essas datas funcionam quase como rituais modernos, momentos socialmente aceitos para falar sobre o sobrenatural”, detalha Amanda. A internet também transformou a circulação dessas histórias, que antes passavam apenas por conversas familiares, rádio e jornais, e hoje ganham força em redes sociais, vídeos, podcasts e grupos de WhatsApp, sendo frequentemente recontadas e reinventadas.
Mesmo quando não são factuais, as lendas urbanas têm valor cultural e psicológico. Amanda explica que elas preservam memórias do passado, reforçam vínculos entre gerações e ajudam a construir a identidade da cidade. “São histórias que atravessam o tempo, misturando realidade e imaginário, e nos conectam com a cultura de Uberaba”, conclui.