JUROS ALTOS

Juros altos no campo podem chegar ao seu bolso? Entenda o impacto na economia de Uberaba

Município concentra produção agrícola e empresas ligadas a fertilizantes, defensivos, irrigação, máquinas e logística

Joanna Prata
Publicado em 22/07/2026 às 07:34
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Poucas cidades mineiras dependem tanto da força do agronegócio quanto Uberaba. Antes mesmo de a primeira semente ser lançada ao solo, uma extensa engrenagem econômica já começa a funcionar. O produtor compra fertilizantes, sementes, defensivos, combustível e peças para máquinas. Contrata transporte, manutenção, assistência técnica e mão de obra. Grande parte desse movimento é viabilizada por financiamentos e linhas de crédito rural. 

Esse dinheiro não permanece dentro das fazendas. Ele percorre toda a cadeia produtiva e movimenta indústrias, revendas, concessionárias, oficinas, transportadoras, postos de combustíveis, empresas de logística e o comércio local. Muito antes da colheita, parte da economia de Uberaba já depende desse fluxo de recursos. 

Embora não exista um levantamento público consolidado sobre o volume de crédito rural contratado especificamente por produtores do município, os dados estaduais ajudam a dimensionar a importância desse mercado. Na safra 2024/2025, Minas Gerais recebeu R$ 50,84 bilhões em financiamentos rurais, o equivalente a 14% de todo o crédito liberado no país, segundo o Relatório Executivo do Agronegócio de Minas Gerais, elaborado pela Secretaria de Estado de Agricultura com base em informações do Banco Central. 

Uberaba ocupa posição de destaque nessa estrutura. O município figura entre os principais produtores de grãos do Estado e, ao lado de Unaí, Paracatu, Buritis e Perdizes, concentra parcela significativa da produção mineira. Também liderou, em 2023, o valor da produção nacional de cana-de-açúcar, que alcançou aproximadamente R$ 1,4 bilhão. Esses números ajudam a explicar por que qualquer mudança nas condições de financiamento do setor tende a produzir reflexos muito além das propriedades rurais. 

Os primeiros sinais dessa desaceleração já aparecem em diferentes frentes. Nos últimos dias, a Mosaic Fertilizantes anunciou a hibernação gradual da unidade de Uberaba, atribuindo a decisão às dificuldades de abastecimento de enxofre, matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes fosfatados. O problema foi agravado pelas tensões no Oriente Médio, que afetaram a oferta do produto e elevaram os custos logísticos. A situação também preocupa outras empresas instaladas no município que dependem da mesma matéria-prima, evidenciando como uma crise internacional pode atingir diretamente a atividade econômica local. 

Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a situação financeira do produtor rural. Levantamento da Serasa Experian mostra que 8,8% dos produtores rurais pessoas físicas estavam inadimplentes no primeiro trimestre de 2026, o maior índice da série histórica da empresa. Na região Sudeste, o percentual chegou a 7,3%. 

O aumento da inadimplência ocorre em um ambiente de juros elevados, crédito mais seletivo, custos de produção ainda pressionados e oscilações nos preços das commodities agrícolas. Mesmo produtores que mantêm suas contas em dia tendem a agir com mais cautela diante desse cenário. A troca de máquinas é adiada, investimentos em tecnologia são revistos, a ampliação da área cultivada é postergada e as compras de insumos passam a ser planejadas com maior rigor. 

Esse comportamento produz efeitos em cadeia. Revendas comercializam menos produtos, oficinas recebem menos equipamentos para manutenção, concessionárias reduzem o volume de negócios, transportadoras movimentam menos cargas e empresas de armazenagem e logística também sentem a desaceleração. Em seguida, o impacto alcança o comércio e os serviços, que passam a conviver com menor circulação de renda. 

Outro indicador que merece atenção aparece no mercado imobiliário. Levantamento realizado em plataformas especializadas identificou cerca de 150 imóveis anunciados em Uberaba entre leilões judiciais, extrajudiciais e modalidades de venda direta. O conjunto inclui casas, apartamentos, terrenos, imóveis comerciais e propriedades rurais. 

Parte desses imóveis está vinculada à alienação fiduciária, modalidade em que o bem permanece como garantia do financiamento até a quitação da dívida. Em caso de inadimplência e após os procedimentos previstos em lei, o credor pode consolidar a propriedade e colocar o imóvel à venda. Como bancos não divulgam estatísticas municipais sobre retomadas de bens, os números das plataformas não representam um levantamento oficial, mas indicam um mercado mais movimentado. 

Outro fator contribui para esse ambiente de maior cautela. Com a taxa Selic em patamar elevado, aplicações de renda fixa passaram a oferecer retornos mais atrativos e com baixo risco. Isso reduz o interesse por investimentos em atividades produtivas, enquanto o crédito permanece mais caro e seletivo para empresas e produtores. 

Em Uberaba, esse cenário ganha peso porque o município concentra tanto uma produção agropecuária de grande porte quanto um parque industrial voltado ao agronegócio. A cidade abriga empresas de fertilizantes, defensivos, irrigação, máquinas e tecnologias agrícolas. Quando o produtor investe menos, toda essa cadeia também reduz seu ritmo. 

A pressão financeira também pode ser percebida no aumento dos pedidos de recuperação judicial apresentados por produtores rurais e empresas ligadas ao agronegócio em diversas regiões do país. O instrumento não significa falência, mas permite renegociar dívidas e manter as atividades. Ainda assim, o crescimento desses casos reforça um ambiente de maior dificuldade financeira para parte do setor. 

Não há elementos para falar em crise generalizada do agronegócio nem em colapso da economia de Uberaba. O município continua entre os principais polos agrícolas de Minas Gerais e mantém posição estratégica na produção nacional. O que os indicadores sugerem é um cenário de maior cautela. 

Quando o crédito rural perde dinamismo, o efeito dificilmente fica restrito ao campo. Em uma cidade cuja economia se apoia na produção agrícola e na indústria que abastece esse setor, o dinheiro continua circulando, mas em ritmo menor. E esse movimento, embora muitas vezes silencioso, acaba sendo percebido nas empresas, no comércio e nos serviços muito antes de aparecer nos indicadores econômicos oficiais.

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