
Durante o Abril Azul, o tema ganha ainda mais relevância ao evidenciar que, quanto mais cedo esses sinais são reconhecidos, maiores são as chances de desenvolvimento e qualidade de vida. (Foto/Divulgação)
Mudanças discretas no comportamento infantil, muitas vezes interpretadas como “fase” ou traço de personalidade, podem ser os primeiros indícios do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em meio às ações de conscientização realizadas durante o Abril Azul, o tema ganha ainda mais relevância ao evidenciar que, quanto mais cedo esses sinais são reconhecidos, maiores são as chances de desenvolvimento e qualidade de vida.
Segundo a médica neurologista Christiane Borges Margato, identificar precocemente o autismo faz diferença direta no prognóstico. Crianças com níveis mais leves de suporte, por exemplo, tendem a apresentar sinais menos evidentes, o que pode atrasar a busca por avaliação especializada. Irritabilidade intensa, dificuldade com mudanças de rotina, hiperfoco e alterações no sono estão entre os comportamentos que merecem atenção, assim como atrasos na fala e isolamento social.
A médica ressalta que nem todo comportamento isolado indica autismo, mas a repetição de padrões deve ser investigada. “Uma criança que troca o desenho e entra em desespero, que não aceita mudança nenhuma, ou que prefere sempre ficar sozinha, pode estar apresentando sinais que vão além da timidez. É importante observar o conjunto de comportamentos e procurar avaliação profissional”, explica.
O aumento no número de diagnósticos nos últimos anos também levanta questionamentos. Para a especialista, não se trata de uma “epidemia”, mas de uma ampliação dos critérios diagnósticos e do acesso à informação. A classificação do transtorno como um espectro permitiu incluir casos que antes não eram reconhecidos, especialmente os mais leves.
“Não é uma epidemia. O que houve foi uma ampliação do diagnóstico e maior divulgação de informação. Hoje, mais pessoas reconhecem os sinais e procuram ajuda, o que antes não acontecia”, afirma. Ela também alerta para a importância de diagnósticos bem conduzidos, já que condições como ansiedade, TDAH e fobia social podem apresentar sintomas semelhantes.
Apesar dos avanços, a inclusão de pessoas autistas ainda é um desafio no Brasil. A médica aponta que houve melhora no acesso à informação e maior presença de profissionais de apoio nas escolas, mas o país ainda está distante de um cenário ideal. Barreiras estruturais e o preconceito continuam sendo obstáculos para a inclusão plena.
Dentro das famílias, o diagnóstico também traz impactos significativos. A rotina pode mudar completamente, exigindo adaptações, acompanhamento terapêutico e, em alguns casos, até mudanças na vida profissional dos responsáveis. Ao mesmo tempo, o diagnóstico permite compreensão e direcionamento mais adequado dos cuidados.
Um dos erros mais comuns, segundo a neurologista, é a superproteção. Na tentativa de evitar frustrações, familiares acabam limitando o desenvolvimento da autonomia da criança. A orientação é equilibrar cuidado e estímulo, incentivando habilidades do dia a dia como parte essencial do processo terapêutico.
A conscientização, portanto, vai além de reconhecer o transtorno: envolve compreender suas nuances, combater o preconceito e promover inclusão. Em um cenário de maior visibilidade, o desafio agora é transformar informação em prática, garantindo suporte adequado para pessoas autistas em todas as fases da vida.