A presença de profissionais era mantida, mesmo que em escala, em governos anteriores; a atual gestão, no entanto, aposta em placas informativas e na tese de que os equipamentos são autoexplicativos, apesar de "reconhecer a importância do acompanhamento profissional para a prática segura de atividades físicas"

Academia ao ar livre na Praça Santa Terezinha foi inaugurada em 2015 (Foto/Divulgação PMU)
A prática regular de exercícios físicos é recomendada por diferentes especialistas e respaldada por políticas públicas pelos ganhos que traz à saúde. No serviço público, esse efeito pesa ainda mais: além de contribuir para qualidade de vida, prevenção e controle de doenças, também ajuda a reduzir pressão sobre o sistema de saúde. Em Uberaba, porém, o modelo atual seguiu outro rumo.
Enquanto administrações anteriores, ainda que de forma precária e em escala, mantinham profissionais de Educação Física acompanhando usuários das academias ao ar livre, a gestão atual aposta nas placas informativas e na tese de que os equipamentos são autoexplicativos. O resultado é um cenário em que o profissional sumiu, embora já tenha feito parte da rotina desses espaços na cidade.
A reclamação chegou ao Jornal da Manhã por meio de morador que questionou justamente esse desaparecimento. Embora não haja obrigatoriedade legal que determine o acompanhamento profissional nas academias ao ar livre, Uberaba contou por anos com esse apoio à população. Pelo menos nos governos Anderson Adauto e Paulo Piau, profissionais de Educação Física acompanhavam os frequentadores, mesmo que em escalas de trabalho, o que evidencia que, mesmo que temporariamente, o reconhecimento da importância do acompanhamento profissional já foi política pública na cidade.
Contudo, a proposta não se manteve no governo Elisa Araújo. Questionada pelo Jornal da Manhã, a Fundação Municipal de Esporte e Lazer (Funel) informa que "as academias ao ar livre instaladas em praças públicas são projetadas para serem autoexplicativas, contando com placas informativas que orientam sobre o uso correto de cada aparelho e indicam os grupos musculares trabalhados".
Apesar de acreditar na capacidade da população em entender um desenho e um texto em letras miúdas em placas de metal, a Funel também "reconhece a importância do acompanhamento profissional para a prática segura de atividades físicas". O reconhecimento, no entanto, não chega ao contracheque para essa função.
Em Minas Gerais, a recomendação oficial vai em sentido diferente. O Guia das Academias ao Ar Livre, do governo estadual, aponta a contratação de profissionais de Educação Física para orientar os usuários, justamente porque o uso incorreto dos equipamentos e uma carga inadequada de exercício físico podem acarretar lesões. Nesse cenário, a ausência de acompanhamento não apenas fragiliza a proposta de uso seguro dos aparelhos, como pode empurrar a política pública na direção contrária àquela que justificou sua criação: em vez de prevenir doenças e aliviar a pressão sobre a rede de saúde, abre espaço para agravos que poderiam ser evitados com orientação adequada.
Quando o poder público instala equipamentos de atividade física em áreas públicas, a mensagem é clara: ali existe uma política de incentivo ao exercício. Quando essa mesma política perde acompanhamento, perde também densidade. Fica mais barata, mais enxuta e mais conveniente. Mas também fica mais próxima de uma solução incompleta, em que o Estado entrega a estrutura e terceiriza ao usuário o resto do raciocínio.
Ao todo, Uberaba conta com 90 academias ao ar livre em diferentes regiões da cidade. O elevado número foi citado pela Prefeitura de Uberaba como fator que inviabiliza a presença profissional. Para se ter ideia, em 2015 eram 21 academias ao ar livre em Uberaba e as escalas de instrutores eram divulgadas à população, além da oferta de aulões sobretudo aos finais de semana e feriados.
O modelo foi substituído na atual gestão pelo programa "Boa Praça, Boa Forma". Segundo informou a Funel, a proposta é ampliar o acesso da população à prática orientada de exercícios, oferecendo aulas gratuitas de ginástica orientada em 24 praças da cidade. "Em muitos desses locais há academias ao ar livre, e os equipamentos podem ser utilizados nas atividades, de acordo com o perfil do público atendido e o planejamento do profissional responsável pelas aulas", diz trecho da nota enviada ao JM.
Vale pontuar que o governo federal possui políticas e regras de financiamento para polos do Programa Academia da Saúde, inclusive com previsão de custeio e investimentos em determinadas modalidades. Há registro oficial, ainda em 2011, de conquista de recurso federal para implantação da Academia da Saúde em Uberaba.
Nesse sentido, importa destacar que Uberaba já tratou a orientação como parte do serviço, o Estado recomenda esse acompanhamento e o Ministério da Saúde associa estruturas semelhantes a políticas públicas com profissionais qualificados. Assim, a defesa de academias "autoexplicativas" parece insuficiente diante dos benefícios que o exercício regular e o incentivo constante por parte do poder público poderiam refletir na saúde pública.
Apesar da ausência de profissionais, não há reclamação sobre a falta de manutenção das academias ao ar livre em Uberaba. Questionada pelo JM, a Funel explicou que "o serviço é feito por equipe própria da Fundação, que executa, conforme cronograma específico, vistorias periódicas em todos os equipamentos esportivos públicos sob responsabilidade da instituição, entre eles as academias ao ar livre".
A fundação ainda sustenta que a preservação do espaço público é compartilhada com a população. "Nesse sentido, reforça a importância da colaboração dos frequentadores na conservação desses locais e solicita que eventuais atos de vandalismo ou irregularidades sejam comunicados aos canais oficiais, para que as providências necessárias possam ser adotadas com maior agilidade", finaliza a nota enviada à reportagem.