À FLOR DA PELE

SUS reajusta prótese mamária após 18 anos, mas valor ainda não cobre custos

Mastologista afirma que aumento ajuda, mas reconstrução ainda enfrenta obstáculos na rede pública

Débora Meira
Publicado em 19/08/2026 às 09:34
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(Foto/Divulgação)

Após 18 anos sem atualização, o valor de referência pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para a aquisição de próteses mamárias passou de R$ 744 para cerca de R$ 1.500 em maio deste ano. Apesar do reajuste, o novo valor ainda não é suficiente para cobrir todos os custos envolvidos na reconstrução mamária de mulheres que passaram por mastectomia, segundo o mastologista Cléber Sérgio. 

O especialista afirma que a atualização representa um avanço, mas não resolve completamente o problema. Segundo Cléber, a dificuldade está principalmente na diferença entre o valor de referência estabelecido pelo SUS e os preços praticados para aquisição dos materiais. De acordo com o mastologista, uma prótese pode custar entre R$ 1.500 e R$ 2 mil, dependendo do fabricante. 

Na avaliação do médico, o aumento do repasse melhora as condições para que os hospitais realizem determinados procedimentos, especialmente nos casos de reconstrução imediata. 

Ele considera que a mudança representa uma valorização da cirurgia, embora ainda exista uma diferença entre o valor financiado e o custo efetivo. “É uma política melhor de valorização desse procedimento, que ainda fica aquém daquilo que a gente gasta. Mas já melhorou bastante”, avalia. 

O problema se torna mais complexo em procedimentos que exigem outros materiais além da prótese ou que precisam garantir a simetria entre as duas mamas. Segundo Cléber, o recurso disponibilizado para um implante pode não ser suficiente para contemplar todas as necessidades da paciente. “Se eu for pegar uma paciente com prótese de um lado que eu tirei, a outra eu não vou conseguir pôr”, exemplifica. 

O custo das próteses é apenas um dos obstáculos para ampliar o acesso à reconstrução mamária. Segundo Cléber, aproximadamente 20% das mulheres mastectomizadas pelo SUS conseguem realizar o procedimento. 

A reconstrução pode ser feita imediatamente após a retirada da mama ou posteriormente, dependendo das condições clínicas da paciente, do estágio do câncer e dos tratamentos necessários. 

Para o mastologista, a cirurgia deve ser entendida como parte do tratamento integral do câncer de mama, e não apenas como um procedimento estético. Ele destaca que o aumento da sobrevida das pacientes fez com que as consequências da mastectomia ganhassem maior importância. “Não é só tirar o câncer, tem que tirar o câncer que está na cabeça também, o emocional”, afirma. 

Segundo o médico, mulheres que sobrevivem ao câncer podem permanecer por muitos anos convivendo com consequências relacionadas à autoestima, ansiedade, depressão, sexualidade e à própria relação com o corpo. 

O reajuste também ocorre em meio à discussão de uma proposta defendida pelo mastologista para criação de um Banco Nacional de Próteses, que teria como objetivo ampliar a disponibilidade dos materiais para pacientes da rede pública. 

A proposta, porém, ainda não foi implementada. “Nós ainda não temos um banco. Eu não consegui ainda viabilizar essa ideia”, afirma Cléber. 

Apesar disso, o médico avalia que a mobilização em torno do tema ajudou a levar a dificuldade enfrentada pelos hospitais ao Ministério da Saúde. Segundo ele, representantes da sociedade da qual participa foram recebidos pelo ministério neste ano, antes da atualização do valor. 

Enquanto persistem dificuldades na rede pública, o projeto À Flor da Pele, criado em Uberaba em 2019, atua na realização gratuita de reconstruções mamárias para mulheres que não teriam condições financeiras de arcar com o procedimento. 

A iniciativa é mantida por meio de doações e parcerias com empresas, entidades e organizações da sociedade civil. Entre os principais custos dos mutirões estão os materiais utilizados nas cirurgias. 

Segundo Cléber, o projeto já realizou 280 reconstruções mamárias. Com um mutirão previsto em Rondonópolis (MT), o número deve chegar a 296 pacientes atendidas. Outras 24 mulheres devem passar pelo procedimento em Uberaba em outubro. 

A proposta, segundo o médico, não é substituir o atendimento público, mas atuar nos pontos em que o sistema ainda apresenta dificuldades. “O nosso objetivo não é substituir o Estado, mas é complementar o Estado naquilo em que tem dificuldades”, disse. 

Para Cléber, o reajuste do valor das próteses representa um avanço, mas a ampliação do acesso à reconstrução depende de outras medidas capazes de garantir que o procedimento seja efetivamente oferecido às pacientes que precisam dele. “Eu acho que a gente precisa entender que a reconstrução faz parte”, afirma.

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