Aos 19 anos, meio-campista emprestado pelo Al Ain ao SJK, da Finlândia, soma três gols em seis jogos e carrega na carreira a saudade da família, a fé e os valores aprendidos em casa

(Foto/Divulgação)
Aos 19 anos, o uberabense Guto vive uma nova etapa da carreira no futebol europeu. Emprestado pelo Al Ain, dos Emirados Árabes Unidos, ao SJK, da Finlândia, o meio-campista já marcou três gols em seis partidas. Mas, antes de os gols aparecerem no futebol finlandês, houve um caminho feito de malas, despedidas, adaptações e muitos dias longe de casa.
Desde criança, Guto demonstrava que queria ser jogador. Aos 11 anos, foi para o Rio de Janeiro participar de uma seletiva do Fluminense, clube do coração da família, e foi aprovado. A partir dali o que parecia um sonho de menino começou a ganhar contornos de projeto de vida. Guto queria que os pais se mudassem com ele, mas Flávio Bernardes e Renata Nasser permaneceram em Uberaba. Foi quando o filho decidiu seguir adiante mesmo sem a presença diária da família.
Vieram Belo Horizonte, Florianópolis e Uberlândia. Depois, os Emirados Árabes Unidos. Aos 17 anos, Flávio levou o filho para o país e voltou sozinho para o Brasil. Guto ficou. Era um adolescente aprendendo a viver em outro continente, cercado por pessoas de diferentes nacionalidades, idiomas e costumes.
“Foi uma mistura muito grande de orgulho e dor. Como mãe, você quer proteger seu filho, mas também sabe que, para realizar um sonho grande, às vezes é preciso deixá-lo voar”, conta Renata. Flávio lembra que aquele período exigiu do filho responsabilidades que normalmente não fazem parte da rotina de um garoto daquela idade. “Ele saiu muito jovem de Uberaba e precisou aprender a lidar com responsabilidades que normalmente um garoto da idade dele não enfrenta sozinho. Mas isso também fez com que ele amadurecesse muito.”
Em 2024, Guto chegou ao Al Ain, onde assinou contrato até 2027. Depois de dois anos nos Emirados, recebeu a oportunidade de continuar sua formação no futebol europeu pelo SJK, da Finlândia. A adaptação a um novo país é mais uma etapa de uma vida em que mudar de lugar se tornou parte do caminho para permanecer perto do sonho.
A família acompanha cada jogo à distância. Para Renata, porém, o que está em campo vai muito além dos gols. “Cada jogo, cada gol, cada oportunidade tem um significado enorme para nós. Mas o que mais nos deixa felizes não é somente vê-lo fazendo gols. É vê-lo lutando e correndo atrás com muita fé no seu trabalho, confiante e vivendo novamente aquilo que ele ama.”
O sonho de Guto também passa pela seleção. O jogador pretende defender os Emirados Árabes Unidos, país onde construiu uma parte importante da carreira e com o qual criou uma relação desde muito jovem. Ao mesmo tempo, por ser brasileiro e uberabense, existe também a possibilidade de um dia vestir a camisa verde e amarela da Seleção Brasileira. Para os pais, qualquer decisão será apoiada. “Ele é brasileiro, nasceu em Uberaba e carrega esse orgulho no coração. Se um dia tiver que fazer essa escolha, estaremos ao lado dele, apoiando aquilo que fizer sentido para o coração e para a carreira dele”, afirma a família.
Mesmo longe, Uberaba continua sendo a raiz da história. Foi na cidade que Guto começou a jogar e conheceu treinadores e pessoas que contribuíram para sua formação. Renata cita e agradece, entre outros, Piu e Alemãozinho que ajudaram a construir o caminho. Flávio destaca que foi também em Uberaba que o filho aprendeu valores que carrega para a carreira: respeito, disciplina, humildade e perseverança.
Quem acompanha o jogador apenas pelos resultados talvez não veja o que existe por trás deles. Renata descreve Guto como um jovem simples, carinhoso, muito ligado à família e que sente profundamente as coisas. Há a saudade das pessoas que ficaram, os aniversários e momentos perdidos, a necessidade de amadurecer longe dos pais e a rotina de começar de novo a cada mudança de país. “Por trás de cada gol existem saudade, renúncias, dias difíceis e muita força para continuar”, afirma.
A fé também acompanha Guto nessa caminhada. Segundo Renata, o filho reza todos os dias, de joelhos, e mantém uma relação muito forte com a religião. “A fé que ele carrega é inabalável”, diz. Para ela, essa característica ajuda a explicar a maneira como o filho enfrenta uma trajetória marcada por mudanças e desafios.
Ao olhar para o caminho percorrido, Flávio diz que o maior desejo da família não está apenas nos resultados dentro de campo. “Como pai, o maior desejo não é apenas que ele seja um grande jogador. É que ele seja um grande homem, tenha caráter, mantenha a humildade e seja feliz fazendo aquilo que ama.”
Aos 19 anos, Guto ainda está construindo a própria história. O menino que saiu de Uberaba para perseguir um sonho agora joga na Europa, mas continua carregando consigo as referências de casa, a fé e a disposição para enfrentar, todos os dias, o preço de viver longe de quem ama para tentar chegar onde sempre quis.