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Caso de verme do coração em cão no interior de Minas acende alerta sobre doença

Publicado em 02/11/2026 às 09:51
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 (Foto: ARQUIVO PESSOAL)

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Um caso registrado em Monte Carmelo, no Triângulo Mineiro, chama a atenção para a ocorrência da dirofilariose canina, conhecida como “verme do coração”, também em cidades do interior. A doença é transmitida pela picada de mosquitos infectados e pode comprometer os vasos sanguíneos dos pulmões e o funcionamento do coração dos animais.

A ocorrência foi identificada em agosto de 2025, quando uma cadela sem raça definida, de seis anos e aproximadamente 15 quilos, foi levada para atendimento veterinário após apresentar inchaço no rosto, perda de peso, falta de apetite, tosse e dificuldade para respirar.

O primeiro sinal que chamou a atenção da equipe foi o inchaço. Durante a investigação, a análise de material retirado da região indicou uma estrutura compatível com o parasita responsável pela doença. A suspeita foi confirmada, mas a cadela já estava debilitada. Mesmo após cerca de sete dias de internação e cuidados veterinários, o quadro piorou e o animal morreu.

O caso foi relatado em um trabalho de conclusão de curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Mário Palmério (Unifucamp), em Monte Carmelo. Para o veterinário e professor José Marques de Aquino Neto, orientador do estudo, a identificação mais precoce poderia ter ampliado as possibilidades de tratamento, embora não fosse possível assegurar outro desfecho.

Doença pode evoluir sem sintomas

A dirofilariose é causada pelo parasita Dirofilaria immitis. Após a picada de um mosquito infectado, as larvas entram no organismo do cão e se desenvolvem até alcançar as artérias pulmonares, onde amadurecem e se tornam vermes adultos.

A presença dos parasitas provoca inflamação e lesões nos vasos sanguíneos. Com a progressão da infecção, o coração, especialmente o lado direito, precisa trabalhar mais para bombear o sangue. Em situações graves, podem ocorrer hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca e complicações respiratórias.

Segundo o veterinário Alexandre Bendas, diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária (SBCV), os danos são cumulativos e podem começar antes mesmo de os vermes atingirem a fase adulta. O ciclo completo do parasita leva aproximadamente seis a sete meses, mas a doença pode permanecer silenciosa no início.

Por isso, a testagem periódica é recomendada para cães que vivem ou frequentam áreas de risco, mesmo quando não apresentam sintomas. O diagnóstico pode envolver exames de sangue e de imagem, que ajudam a identificar a infecção, visualizar os vermes adultos e avaliar possíveis alterações cardíacas e pulmonares.

O tratamento depende da gravidade do quadro e precisa considerar tanto a eliminação dos parasitas quanto o controle dos danos provocados pela infecção. No Brasil, um dos desafios é a indisponibilidade da melarsomina, medicamento considerado padrão-ouro internacional para eliminar os vermes adultos. Por isso, especialistas utilizam protocolos alternativos, que podem incluir medicamentos, restrição de exercícios e acompanhamento clínico.

A doença também não produz imunidade protetora. Assim, mesmo depois do tratamento, o cão pode ser infectado novamente se for picado por um mosquito transmissor. A prevenção precisa ser mantida, com orientação veterinária.

Verme do coração não é exclusivo de regiões litorâneas

Embora a dirofilariose tenha sido historicamente associada a cidades do litoral, registros mostram que o parasita também está presente em áreas do interior do país. A transmissão depende principalmente da presença de mosquitos capazes de transportar as larvas, além de condições ambientais favoráveis.

O caso de Monte Carmelo, porém, não permite afirmar que exista transmissão disseminada na cidade. De acordo com Aquino Neto, seria necessário investigar outros cães e verificar a presença dos vetores na região para identificar se a ocorrência foi isolada ou se há circulação local do parasita.

Uma revisão científica publicada em 2024 reuniu estudos realizados entre 2014 e 2024 e identificou registros da doença nas cinco regiões brasileiras. Os índices variaram bastante entre as localidades pesquisadas: chegaram a 58,6% dos 157 cães avaliados em Niterói (RJ), 44,4% dos 99 animais analisados em Lábrea (AM) e 31,8% em Guaraqueçaba (PR).

Os resultados, contudo, não permitem estabelecer uma taxa nacional de infecção. A distribuição da doença ainda é pouco conhecida em várias regiões, especialmente no Centro-Oeste, onde há menos estudos.

A pesquisadora Marianna Laura Elis Chocobar, uma das autoras da revisão, explica que a ocorrência não está necessariamente ligada à proximidade do mar. Áreas com vegetação preservada, umidade e presença de água parada podem favorecer a proliferação dos mosquitos transmissores.

As mudanças ambientais e climáticas também podem interferir na distribuição dos vetores. A temperatura, por exemplo, influencia o desenvolvimento do parasita dentro do mosquito. Segundo a pesquisadora, a Dirofilaria immitis precisa de temperaturas superiores a 27 °C para completar esse ciclo.

Atenção também deve envolver a saúde humana

Os cães são os principais hospedeiros do parasita. Gatos e seres humanos podem ser infectados, mas são considerados hospedeiros acidentais.

Para os especialistas, o controle da dirofilariose deve ser tratado dentro do conceito de Saúde Única, que considera a relação entre saúde animal, humana e ambiental. A redução de criadouros de mosquitos, por exemplo, também contribui para prevenir outras doenças transmitidas por vetores, como a dengue.

A orientação é que tutores conversem com médicos-veterinários sobre medidas preventivas, especialmente quando os animais vivem em regiões com condições favoráveis à presença de mosquitos ou viajam para áreas onde a doença já foi identificada.

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