Após um início de ano marcado por grande oferta e preços em queda, o mercado de alimentos no Brasil deve passar por uma virada em 2026. De acordo com análise do Rabobank, a tendência é de recuperação gradual dos preços ao longo do ano, especialmente no segundo semestre, puxada por carnes, lácteos e parte das bebidas.
Embora a inflação dos alimentos comece o ano em desaceleração, a expectativa é de alta de 4,6% dentro dos domicílios até o fim de 2026, acima do avanço de 1,4% registrado em 2025.
No setor de carnes, o cenário atual ainda reflete excesso de oferta, principalmente nas proteínas suína e de frango. A grande quantidade disponível para abate fez o preço da carne suína cair cerca de 22% em fevereiro na comparação anual. O frango segue tendência semelhante, impactado pela demanda interna mais fraca.
Apesar disso, o mercado já dá sinais de ajuste. A expectativa é de recuperação gradual dos preços a partir do segundo trimestre, com a carne suína se aproximando de R$ 12/kg e o frango em torno de R$ 8/kg no atacado. Já a carne bovina apresenta dinâmica diferente, com oferta mais limitada e exportações aquecidas, o que sustenta os preços. A projeção é de valorização ao longo do ano, podendo chegar perto de R$ 25/kg.
De forma geral, o setor de carnes vive um momento de transição: no curto prazo, os preços seguem pressionados pela oferta elevada, mas, no médio prazo, devem subir com o ajuste da produção.
No mercado de lácteos, o impacto do excesso de produção também foi significativo. Em 2025, a oferta cresceu 7% — maior alta em 15 anos —, derrubando os preços pagos aos produtores, que iniciaram 2026 próximos de R$ 2 por litro. Esse movimento acabou refletindo no varejo, com queda nos preços de leite e derivados.
No entanto, a redução das margens deve desacelerar a produção ao longo do ano, principalmente entre pequenos e médios produtores. Com isso, a tendência é de recuperação gradual dos preços a partir do segundo trimestre, impulsionada por menor crescimento da oferta, demanda moderada e melhora dos preços internacionais, o que reduz a necessidade de importações.
Já no segmento de bebidas, o comportamento está mais ligado ao consumo. No caso da cerveja, houve aumento de cerca de 4,5% nos preços no fim de 2025, enquanto o consumo caiu aproximadamente 3,5%, refletindo a renda pressionada das famílias. Para 2026, a tendência inicial é de continuidade desse cenário, com leve alta nos preços e queda no volume vendido.
Um possível alívio pode ocorrer no meio do ano, com a realização da Copa do Mundo, que tende a impulsionar temporariamente o consumo, especialmente de cervejas e carnes.
Nas bebidas não alcoólicas, o cenário é de maior estabilidade. Após aumentos expressivos nos últimos anos, produtos como refrigerantes devem ter dificuldade de repassar novos reajustes em um ambiente de consumo mais fraco. Já o café pode apresentar queda de preços ao consumidor, acompanhando a redução das cotações internacionais após as altas registradas em 2025.
De forma geral, o relatório aponta um movimento comum entre os setores: o aumento recente da produção pressionou os preços, reduziu as margens e deve levar a uma desaceleração da oferta. Com isso, a tendência é de retomada gradual dos preços ao longo de 2026, ainda que em ritmos diferentes entre os segmentos.
Carnes e lácteos devem liderar esse processo de alta, enquanto as bebidas dependem mais da recuperação do consumo. O ano deve marcar a transição de um período de excesso de oferta e preços baixos para um cenário mais equilibrado, com inflação de alimentos voltando a patamares moderados.
Apesar dessa perspectiva, o poder de compra da população segue limitado. Atualmente, a renda média equivale a cerca de 2,7 cestas básicas, abaixo dos níveis anteriores à pandemia, enquanto o endividamento das famílias continua elevado, com quase metade da renda comprometida — fatores que podem frear uma recuperação mais intensa do consumo.