PODE TOMAR?

Criança precisa de whey? Pediatra explica por que mais proteína nem sempre é melhor

No Dia Mundial da Alimentação, Isabela Vasconcelos esclarece quando a suplementação pode ser necessária e por que shakes não resolvem uma alimentação inadequada

Larissa Prata
Publicado em 16/10/2026 às 09:30Atualizado em 16/10/2026 às 10:44
Compartilhar

A criança come pouco, o adolescente começou a treinar e o suplemento parece uma solução prática para as duas situações. Mas a decisão de acrescentar whey protein à rotina precisa começar por uma pergunta anterior à escolha do produto: existe alguma necessidade nutricional que a alimentação não está atendendo? Neste Dia Mundial da Alimentação, celebrado nesta sexta-feira (16), a médica pediatra Isabela Vasconcelos chama a atenção para o uso de suplementos sem indicação e para a ideia de que oferecer mais proteína significa, necessariamente, alimentar melhor.

O whey é uma fonte concentrada de proteína extraída do soro do leite. Sua composição, por si só, não justifica tratar o produto como uma ameaça a toda criança. Também não torna seu consumo necessário para crescer, praticar esportes ou ganhar força. “O problema está principalmente no uso sem necessidade, em excesso ou sem acompanhamento profissional”, afirma Isabela.

A orientação encontra respaldo em uma nota de alerta publicada em maio deste ano pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). O documento não recomenda o uso rotineiro de whey e creatina por crianças e adolescentes saudáveis e chama a atenção para a influência do marketing e das redes sociais sobre o consumo desses produtos.

Segundo a pediatra, na maioria das situações, alimentos como leite e derivados, ovos, carnes e leguminosas conseguem fornecer a proteína necessária. A avaliação precisa considerar o conjunto da alimentação, a idade, o crescimento e as condições de saúde, em vez de partir da suposição de que falta um suplemento. “Não existe uma idade ou uma quantidade de whey protein que possa ser considerada segura e indicada de forma rotineira para crianças saudáveis”, explica.

Isso não significa que qualquer quantidade provoque dano. O alerta da SBP relaciona os potenciais efeitos renais, hepáticos e metabólicos ao consumo excessivo e crônico de proteína, com atenção à suscetibilidade individual. A necessidade nutricional diária também não deve ser confundida com um limite acima do qual ocorreria, automaticamente, uma lesão.

A preocupação com a alimentação infantil, porém, vai além da proteína. Dados de consumo alimentar de 2024 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), apresentados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, registraram consumo de ultraprocessados entre 84% das crianças de 5 a 9 anos e 81% dos adolescentes acompanhados. Os percentuais se referem ao público monitorado pelo sistema, e não à totalidade dessas faixas etárias no Brasil.

É nesse cenário que a escolha de um produto com apelo proteico pode deixar sem resposta uma questão mais ampla: a variedade do que chega ao prato.

Treinar ou comer pouco não define a indicação

A prática esportiva também não funciona como indicação automática de suplementação. Mesmo entre crianças e adolescentes que treinam regularmente, Isabela Vasconcelos explica que a alimentação equilibrada pode atender às necessidades de energia e nutrientes.

“Não existe, portanto, uma dose universal de whey ou outro suplemento que possa ser recomendada simplesmente porque a criança pratica atividade física. Quando existe uma necessidade nutricional específica, a indicação deve ser individualizada pelo pediatra e/ou nutricionista”, alerta.

O mesmo cuidado vale para creatina, BCAA e outros produtos associados ao ganho de massa muscular ou à melhora do desempenho. Isabela orienta evitar o uso rotineiro desses suplementos em crianças e adolescentes saudáveis e lembra que a palavra “suplemento” não é sinônimo de produto inofensivo. Além da composição e da procedência, ela destaca a preocupação precoce com músculos e padrões corporais.

Outra dúvida aparece quando a criança come pouco ou recusa muitos alimentos: trocar uma bebida pronta por um shake proteico resolveria o problema? Para a pediatra, essa escolha não substitui a investigação do que está acontecendo. “Um shake pronto não deve ser utilizado simplesmente para ‘compensar’ uma alimentação ruim”, explica Isabela.

Se a dificuldade é persistente, há seletividade importante, o ganho de peso está inadequado ou a criança não consegue manter uma alimentação variada, é necessário avaliar a causa antes de acrescentar um industrializado à rotina. A quantidade de proteína destacada na embalagem, isoladamente, não define o produto mais adequado para aquela criança.

Isabela ressalta que existem fórmulas e suplementos nutricionais com indicação em situações específicas, como determinadas doenças, desnutrição, má absorção ou dietas muito restritivas. Nesses casos, a escolha depende da idade, do estado nutricional e da necessidade identificada. Uma indicação desse tipo não pode ser estendida, por conta própria, a qualquer whey ou shake disponível no mercado.

Para crianças saudáveis, a orientação é manter a prioridade nos alimentos in natura ou minimamente processados e na diversidade das refeições. “O objetivo não é apenas fornecer proteína ou calorias, mas garantir também fibras, vitaminas, minerais e outros nutrientes, além de construir uma relação saudável com a comida”, finaliza.

(Foto/Reprodução)

(Foto/Reprodução)

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por