Identificação antes dos três anos amplia autonomia, aprendizagem e permanência na escola; Brasil ainda enfrenta desafios estruturais
No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado nesta quinta-feira (2), especialistas reforçam que o diagnóstico precoce do TEA (transtorno do espectro autista) é decisivo para garantir aprendizado, autonomia e permanência escolar.
Dados do Censo Escolar 2024, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), mostram aumento de 44,4% nas matrículas de alunos com TEA na educação básica, passando de 636.202 em 2023 para 918.877 em 2024. Dessas crianças, 95,7% estão em classes comuns, destacando o avanço da inclusão.
Thalita Possmoser, vice-presidente clínica da Genial Care, explica que identificar o TEA nos primeiros anos permite oferecer suporte adequado. “Quanto mais cedo o diagnóstico é realizado, maiores são as possibilidades de oferecer o suporte necessário”, disse.
A psicopedagoga Luciana Brites, diretora-executiva do Instituto NeuroSaber, destaca que intervenções precoces aproveitam a maior plasticidade cerebral e potencializam ganhos em linguagem e socialização. Estudos mostram que crianças acompanhadas antes dos 3 anos apresentam avanços significativos em comunicação, autonomia e rendimento escolar.
No entanto, problemas estruturais atrasam a identificação no Brasil, incluindo falta de articulação entre saúde e educação, formação insuficiente de professores e longas filas para avaliação pública. “O diagnóstico tardio compromete diretamente a autonomia da criança”, afirma Thalita.
O papel da escola
A escola é frequentemente o primeiro local onde sinais do TEA são percebidos, como dificuldades de interação, padrões repetitivos e atraso na fala. Professores capacitados podem identificar indícios, orientar famílias e adaptar rotinas, comunicação e ambiente sem reduzir expectativas. “Inclusão eficaz depende do diálogo contínuo entre escola e família”, afirma Luciana.
Mesmo diagnósticos tardios podem trazer benefícios, oferecendo suporte necessário e reduzindo desgaste emocional. Especialistas recomendam protocolos de triagem em creches, capacitação docente, integração entre serviços de saúde e educação, planos pedagógicos individualizados e uso de dados escolares para direcionar investimentos.
Regular ou especial?
A escolha entre escola regular ou especial deve ser individualizada, considerando o perfil do estudante. Algumas crianças prosperam em turmas regulares com adaptações, enquanto outras se beneficiam de ambientes especializados, segundo Luciana.
O avanço na matrícula de estudantes com TEA é significativo, mas sem diagnóstico precoce e políticas estruturadas, parte das crianças ainda permanece fora da escola. Integrar serviços de saúde e educação e capacitar professores são passos essenciais para transformar presença em sala de aula em inclusão real e aprendizado efetivo.