TERRORISMO NUTRICIONAL

Do 'sem glúten' ao 'refrigerante com fibras': especialista alerta para o 'terrorismo nutricional'

Neurocientista Sophie Deram afirma que a obsessão por retirar ou acrescentar ingredientes transforma o ato de comer em fonte de culpa e ansiedade

Publicado em 01/11/2026 às 16:36
Compartilhar

A lógica que levou muita gente a cortar glúten e lactose da alimentação, mesmo sem indicação clínica, parece ter se invertido. Agora, em um mercado que aposta em produtos enriquecidos com proteínas, fibras e outros ingredientes funcionais, não basta retirar o que supostamente faz mal: é preciso acrescentar aquilo que promete fazer bem. Para a neurocientista e especialista em comportamento alimentar Sophie Deram, esse movimento merece atenção porque reduz a comida a uma soma de nutrientes e promessas. 

 Segundo ela, a alimentação corre o risco de ser avaliada apenas por proteína, fibra, glúten, lactose e açúcar, enquanto o alimento em si e o contexto em que é consumido perdem espaço. 

 “Parece que estamos sempre procurando alguma coisa para retirar da alimentação ou acrescentar a ela. Primeiro, determinados ingredientes são tratados como vilões; depois, outros aparecem como soluções. E essa busca constante pode fazer com que comer se torne uma fonte de preocupação, em vez de algo que faça parte da vida com mais naturalidade e prazer”, observa. 

 O movimento aparece em lançamentos de diferentes categorias, incluindo bebidas associadas à saúde intestinal. A Coca-Cola, por exemplo, anunciou testes com versões de refrigerantes enriquecidas com fibras prebióticas nos Estados Unidos. A tendência acompanha uma mudança na forma como a indústria apresenta seus produtos, mas levanta uma questão sobre comportamento alimentar. 

 Para Sophie, essa lógica alimenta uma divisão rígida entre alimentos considerados bons e ruins, saudáveis e prejudiciais. Quando a comida passa a ser classificada dessa maneira, escolhas cotidianas ganham peso desproporcional, e um produto que recebe fibras ou proteínas pode adquirir uma imagem de saúde que vai além do benefício real.  

“Estamos criando uma espécie de terrorismo nutricional quando passamos a olhar para os alimentos com controle excessivo, como se existissem aqueles que podemos comer sem culpa e aqueles que deveríamos evitar a qualquer custo. A alimentação não deve ser dividida entre mocinhos e vilões”, afirma a neurocientista. 

 A especialista ressalta que isso não significa ignorar a composição nutricional nem descartar ingredientes funcionais. Ela própria trabalha com nutrição funcional e nutrigenômica, área que investiga as relações entre nutrientes, genes e organismo. A diferença, segundo ela, está em como esse conhecimento é usado. 

 “Eu trabalho com nutrição funcional e acredito na importância da ciência para compreendermos melhor o organismo e suas necessidades. Mas faço isso com ciência e consciência. Conhecer os efeitos de um nutriente é muito diferente de transformar esse conhecimento em uma regra para todo mundo ou em mais um motivo para ter medo de comer. Muitas informações que vemos hoje são, na verdade, pseudociência”, explica. 

 A presença de um componente valorizado, pondera, não torna um produto a melhor escolha em qualquer situação. Da mesma forma, a presença de glúten ou lactose não significa que um alimento seja inadequado para todas as pessoas: a necessidade de restrição depende de condições específicas, como a doença celíaca. 

 “A nutrição reducionista, que olha individualmente para cada nutriente e não para o todo, acaba confundindo as pessoas na escolha que faz mais sentido para cada uma delas. Uma cenoura, por exemplo, não é apenas betacaroteno; ela tem fibras, vitaminas e pode ter, também, a lembrança do bolo de cenoura da vovó ou de uma salada gostosa que comeu em um restaurante em uma viagem especial. Alimentação é, também, contexto”, pontua. 

 Há ainda uma dimensão comportamental. Quando a alimentação é cercada por regras e promessas de resultados, comer pode deixar de ser uma experiência satisfatória e passar a exigir vigilância constante. A pessoa começa a questionar se escolheu o alimento certo, se deveria ter evitado determinado ingrediente ou se precisa compensar uma escolha com outra — o que pode gerar insegurança e culpa. 

 Para Sophie, é preciso recuperar uma perspectiva mais ampla sobre a alimentação, que considere não apenas os nutrientes, mas também o prazer, a cultura, a rotina, a saciedade e as necessidades de cada pessoa. 

 “Comer também é prazer, convivência, cultura e afeto. Quando ficamos preocupados demais em acertar todos os nutrientes, corremos o risco de perder de vista a experiência de comer e de transformar algo tão cotidiano em uma fonte permanente de ansiedade”, destaca. 

 Segundo ela, o desafio é interpretar as promessas do mercado com senso crítico, sem ignorar a ciência nem se tornar refém dela. 

 “Não precisamos escolher entre ignorar a ciência e viver preocupados com cada coisa que comemos. Podemos usar o conhecimento para cuidar da saúde sem transformar a alimentação em uma lista interminável de proibições e obrigações. Comer bem não deveria ser motivo de preocupação, culpa, ansiedade. A ciência precisa nos ajudar a viver melhor e não a ter medo da comida”, conclui.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por