O fim da escala 6x1 pode pressionar os custos das empresas e os preços ao consumidor, especialmente em setores que dependem de mão de obra e funcionam aos fins de semana. A avaliação é do economista Marco Antônio Nogueira, que aponta desafios para a adaptação dos negócios à redução da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais.
Na avaliação de Nogueira, as características do mercado brasileiro tornam a adaptação especialmente desafiadora para pequenos negócios. Ele destaca a presença de empresas com equipes reduzidas, margens de lucro estreitas e forte dependência das vendas aos fins de semana e feriados. “Uma imensa maioria de empresas como MEIs, micro e pequenas” atuam em um cenário de “margens estreitas de lucratividade e com dificuldades em repassar integralmente custos aos preços”, afirma o economista.
Segundo ele, com a implementação da jornada de 40 horas semanais e dois dias de folga, podem ocorrer “aumento dos custos para empresas”, “aumento de preços para os consumidores” e “redução dos horários de funcionamento”.
Supermercados, construção civil, comércio varejista e atacadista, indústrias, bares, restaurantes e lojas estão entre as atividades que podem sentir os efeitos da mudança, segundo Nogueira.
O economista avalia que a pressão será maior sobre negócios que dependem intensivamente de mão de obra ou cujos fornecedores também têm despesas elevadas com salários e encargos trabalhistas. “Principalmente os negócios que utilizam de forma ostensiva a mão de obra ou negócios em que os fornecedores tenham nos custos de mão de obra (salários+encargos) parte relevante”, explica.
Nogueira destaca que os efeitos podem se acumular ao longo da cadeia produtiva. Como exemplo, cita a indústria de calçados, cujos custos podem ser repassados ao comércio e, posteriormente, ao consumidor final. “Por exemplo, a indústria de calçados eleva seu custo sendo o mesmo repassado ao Comércio e esse, com seu custo já elevado pelo fim da escala 6x1, repassará o preço ao consumidor final”, afirma.
Outro exemplo mencionado pelo economista é a cadeia de produção de frangos, que envolve diferentes etapas e trabalha com produtos perecíveis. Nesse caso, o aumento dos custos pode chegar às prateleiras dos supermercados.
Caso não consigam absorver as despesas adicionais ou repassá-las aos preços, algumas empresas poderão precisar reorganizar o funcionamento. Nogueira considera que a redução do horário de atendimento e da oferta de produtos e serviços pode ocorrer, com possíveis reflexos sobre o emprego. “Se a opção da empresa for reduzir o tempo de funcionamento, a oferta de produtos e serviços e não conseguir repassar aos preços o aumento de custos, poderá sim haver demissões”, avalia.
Para enfrentar esse cenário, o economista aponta alternativas como automação, terceirização, ampliação das vendas pela internet e parcerias entre empresas para dividir custos e aumentar a produtividade.
Entre as estratégias que podem ser adotadas, ele cita a possibilidade de “optar por produzir e vender produtos de maior valor e rentabilidade, reduzindo assim o portfólio”, além de “intensificar as parcerias com outras empresas para diluir custos e elevar a produtividade”.
A capacidade de adaptação, segundo a avaliação apresentada, será importante para que as empresas mantenham a saúde financeira durante a transição.
Um dos pontos destacados por Nogueira é o aumento proporcional do custo da hora trabalhada quando a jornada é reduzida sem diminuição salarial. “Estima-se que a redução de 44h para 40h semanais elevaria em média, 10% o custo da hora trabalhada”, afirma.
O impacto, porém, pode variar de acordo com o setor, a estrutura de pessoal e a possibilidade de reorganizar as atividades. A estimativa apresentada pelo economista não significa que todas as empresas terão necessariamente o mesmo aumento no custo total.
Nogueira também chama atenção para a combinação da mudança com outras despesas empresariais, incluindo as relacionadas à reforma tributária sobre o consumo.
Na avaliação do economista, a ampliação do descanso semanal não deve necessariamente provocar um aumento imediato do consumo. Ele cita o endividamento das famílias e o receio do desemprego como fatores que podem limitar esse efeito. “O aumento do consumo não é esperado dado o alto índice de endividamento e o receio do desemprego; o que pode ser esperado é que o trabalhador busque algum emprego nos dias de ‘folga’”, afirma.
Nogueira também aponta a informalidade como um possível efeito da mudança. Entre os fatores que merecem atenção, ele menciona tanto a contratação de trabalhadores sem registro quanto a informalidade na constituição de empresas.
As consequências, entretanto, dependerão de como os empregadores reorganizarão as jornadas, dos ganhos de produtividade e das condições econômicas durante a implementação das novas regras.